A Beija-Flor em sua intimidade

Quem olha assim uma escola vitoriosa, de hoje para seu passado, pode achar que Neguinho “levou” o samba de 1976 porque era o “Neguinho da Beija Flor”. E que foi mais uma “arrumação” de escolha de samba como tantas por aí.

E vai achar que a farsa se repetiu com 1978.

Pode achar que a Beija Flor é a tal, e sempre foi, em razão da força de sua comunidade, Nilópolis em peso, rasgando a pista, sendo a maior responsável por 12 títulos e 11 vices em 36 anos.

Certamente achará também que é Laíla, do alto de sua autoridade, quem escolhe o samba… e pronto!

Vai ficar calculando qual é o salário que o Anísio desembolsa para manter o Neguinho lá até hoje. E vai achar que é assim porque terá a certeza de que o patrono da escola manda e desmanda e dá “peruada” em tudo.

Pode até achar que Pinah é cria da escola…nascida e criada em Nilópolis, que desfila desde pequenininha. E que já brilhou o suficiente para deixar a escola em nível secundário, cuidar de sua confortável vida em São Paulo e só quer saber da escola no carnaval.

Com toda certeza vai achar que João Trinta arrebentou quando escolheu o enredo “Sonhar Com Rei Dá Leão”, usando para tanto toda sua criatividade e inventiva.

Pode contar para todo mundo que Selminha já nasceu rodopiando com a bandeira, que nunca tirou nota menor que seu nível atual de excelência. Que dá tratos a sua carreira pública de advogada e só pensa na escola a partir de outubro.

Pois saibam vocês, que não puderam ou não quiseram ir ao seminário da FINEP, que a coisa não é bem assim.

Depois de um oportuníssimo filmete inicial, com a fala emocionada em tempo real de Pamplona narrando o desfile dos ratos e urubus, Fabato compôs a mesa com os maiores ícones da escola e, todos, com certeza, incluídos entre os dez maiores vultos do momento atual do carnaval brasileiro.

Da escola estavam lá Selminha, Pinah, Laíla e Neguinho. E mais o jornalista Marcelo de Melo e o carnavalesco Milton Cunha.

O clima foi criado e mais parecia uma “sala de estar” alimentada a salgadinhos e cerveja gelada. Todo mundo à vontade deixando rolar despreocupadamente fatos e casos, historinhas e intimidades; sobretudo intimidades, mas… todas da escola.

Como pode ser essa coisa: intimidade da escola ?

Como pode uma escola ter intimidade? Logo ela… uma escola tão apolínea, tão eficiente… que Pois foi o que se viu lá.

Pouco a pouco revelações e surpresas desfaziam mitos e verdades absolutas do carnaval, pelo menos para muitos que estavam ali.

Primeiro a revelação de que a tal e histórica força da “comunidade nilopolitana” é um mito.

O que soubemos é que tal força é fenômeno recente e que começou nos anos em que Milton Cunha esteve à frente do carnaval da escola.

E não pensem que foi o Milton que fez tal revelação. Segundo Laíla, a “comunidade” da escola não era nem maior, nem menor que as outras. Tinha sua bateria, suas baianas e vida que seguia. E que foi a partir do enredo de Bidu Saião que Milton Cunha trabalhou em cima de sua concepção de utilizar gente do entorno para se destacar com as fantasias da escola.

E foi assim nos anos seguintes até não parar mais.

E, mesmo assim, Laíla revela que menos da metade de seus componentes mora em Nilópolis. Mais um mito a cair…

De Laíla, o melhor da noite, além de um muito bem recebido bom humor, a declaração de fé nos fundamentos da “porção samba dos desfiles”. Confirmado o que já dissera no seminário, dos dez quesitos, sete são de fundamentos do samba. E que mais do que nunca aposta nisto em sua estratégia para vencer carnavais.

É muito bom ouvir isto, mesmo vindo de uma escola que deitou e rolou com os quesitos visuais.

Se essa moda pegar será uma boa resistência contra a ditadura do visual. Tanta prevalência definidora de resultado em apenas três quesitos. Ou seja: o equilíbrio tão desejado a partir da perda de relevância do que um dia chamei de “ exuberância volumétrica de matérias”.

Neguinho contou que naquele distante ano de 1976 era o ilustre desconhecido de uma escola do bairro de Miguel Couto, antes mesmo de integrar o carro de som da Leão de Iguaçu. E contou mais. Que nesse ano, ainda Neguinho da Vala, ao entrar para a Beija Flor o fez para integrar a ala de compositores. E que ao ganhar o primeiro samba ainda não era puxador oficial da escola, apenas gravara o disco.

E não parou aí. Disse que era o único puxador de grupo especial que não ganhava nada… nada da escola. E mais… não disse isto, mas juro que entendi assim. Deixou a entender que não recebia e que se alguém quisesse pagar ele não aceitaria. Ao dizer isto fez sua declaração de amor à escola afirmando que tudo que conseguira na vida deve à Beija Flor e que poderia viver vinte vidas que não conseguiria ter o que tem sem a escola.

Sem que, evidentemente, nem eu nem ele estejamos criticando profissionais do carnaval remunerados por seu trabalho

Pinah aceitou o convite para aquele encontro vinda de São Paulo às suas próprias expensas. E veio para contar sua história, inclusive sua saída do Salgueiro rumo à Beija Flor, surpreendendo a mim a tantos lá presentes.

Que mesmo realizada com sua família, reconhecida e idolatrada pela história do carnaval, depois de um câncer no estômago, mesmo “mais ou menos” contrariando seus orixás se despenca de São Paulo a cada carnaval para vestir o mais simples traje branco da escola para alimentar sua alma de sambista.

Sem muita pausa para meditação ouvimos Laíla dizer que Anízio não se metia em absolutamente nada na escola. Que seu papel ali é garantir as totais condições para que o planejamento da direção de carnaval possa ser executado de forma completa e competitiva.

Declarou sua condição de ex -salgueirense absolutamente reconhecido a sua escola de origem, na mesma medida em que declarava seu mais profundo sentimento em relação à escola atual e a seu dirigente maior: que só a morte de um dos dois o separaria da Beija Flor.

Diante do imenso silêncio da platéia.

E disse, consonando com Neguinho, que por várias vezes o samba vencedor não era o de sua predileção. Nem de um, ora nem de outro; e até nem de um nem do outro. Defende a tese de que quem canta e dança o samba são os componentes. E que por isto dá a cada segmento da escola, cada segmento a cada disputa, tal responsabilidade contabilizando cada pontuação a cada momento.

Mesmo chamando João Trinta de mestre, respeitando-o cada momento, Laíla esclareceu que o enredo vitorioso e emblemático sobre o jogo do bicho não nasceu da cabeça do então carnavalesco, mas unicamente do desejo pessoal de Anízio de prestar homenagem à Natal da Portela. E que o título do enredo, sim,foi de João.

Silêncio também quando Selminha, como diante de uma platéia de padres, confessava coletivamente que em sua estréia como porta-bandeira o máximo que conseguira foi uma nota 6,5 para sua escola- Império Serrano – , tragédia em parte atribuída à inadequação de sua roupa e em parte a sua própria inexperiência e inadequação à função à época, passista que era então. E disse que tudo já lhe havia sido previsto e avisado por Mestre Fuleiro que via
nela, de porta-bandeira, apenas a postura e o sorriso. E só!

Depois veio o Estácio, o convite da Beija Flor, e a consagração que faz dela um mito de sua escola e da história do carnaval brasileiro. Toda sua gratidão representada pelo zelo com que se dedica a captação e montagem do acervo histórico e cultural da escola.

Não satisfeita, aproveitou a oportunidade e a presença ali de Pinah para um agradecimento tardio. Não fosse o aviso providencial da Cinderela Negra, Selminha teria desfilado com a bandeira de cabeça para baixo, pois desta forma amarrara sua bandeira antes do desfile.

Após as revelações saborosas, humanas e surpreendentes coube a Marcelo de Melo, como estudioso da escola, revelá-la em única e tão eloqüente palavra: eficiência.

No mais a velha, boa e interessantíssima discussão sobre o carnaval de Ratos e Urubus como sendo o grande momento do carnaval de todos os tempos. Assim se pronuncia Pamplona. Laíla diz que, na frente, a escola esteve muito bem, mas que atrás esteve normal. E que em muitos desfiles a Beija Flor desfilou melhor. E se recusou a repetir sua versão sobre a iniciativa de cobrir o Cristo com plástico, sobreposto com a faixa famosa.

Sobre aquele episódio, “tudo que tinha a dizer já foi dito”. Em respeito ao João, disse.

Pode parecer contraditório mas, de minha parte, concordo com os dois. Acho que a concepção do enredo, ali bem explicado por Milton Cunha, foi inspiradíssima. Acho que o desfile carnavalesco foi normal. E concordo com Pamplona porque o que se viu ali foi a realização plena de tudo que se espera do carnaval: magia, emoção e fantasia.

O carnaval é algo tão formidável que o seu momento máximo não aconteceu no carnaval. Assim quiseram seus deuses. A magia, a emoção … a fantasia maior se deu não no carnaval propriamente, mas no sábado seguinte: no desfile das campeãs o Cristo coberto, censurado, oculto sendo despido pelas mãos do povo presente que se manifestava em sua festa maior.

Em meio a ratos, lixo, mendigos e urubus… e sob o emocionante, histórico e inesquecível brado retumbante de Pamplona.

Como um moleque de rua, debochadamente, a provocar e desafiar a polícia e a justiça fajuta a contrariar a força e a vontade do povo.

Sim, aquele foi um grande momento!

E Pamplona bradava longe de imaginar a contribuição que dava para aquele grande momento.

Sim, foi um grande, belo e mágico momento do carnaval. Mas só é o mais grandioso quando visto pelas imagens da TV, narrado emocionadamente por quem mais merecia narrar aquele momento.

Ele Fernando Pamplona.

Como um moleque de rua…

e-mail para contato: lcciata2@hotmail.com
Sugestão de leitura: procurar em banco de teses da UFRJ:
RAPSÓDIA BRASILEIRA DE JOÃOZINHO TRINTA: UM GRANDE LEITOR DO BRASIL ! (1970)
Autor: Cunha Junior, Milton Reis

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