A capa e o título – parte I

Quem nunca julgou um livro pela capa ou um filme pelo título? Às vezes por ambos, capa e título? Todos nós, não é mesmo? Comecei o assunto com essas perguntas para abordar o enredo de escola de samba, ou como nós o (pré) avaliamos. A todo momento, ouço pessoas, envolvidas ou não com carnaval, dizendo: "A tua escola vai falar sobre isso? Isso é enredo que preste?". Na realidade, quando dizemos ou pensamos isso, estamos analisando o enredo de modo muito superficial, ou seja, pelo título simplesmente, pela sua potencialidade plástico-visual, ou, quando muito, pelo seu argumento.

Repare, caro internauta, que venho colocando os verbos na 1ª pessoa do plural, ou seja, me incluo também como ex-praticante desse comportamento. Erroneamente achava, por exemplo, que um enredo sobre papel jamais poderia ganhar a mesma nota que um enredo sobre Carlos Drummond de Andrade; que papel já ia entrar no desfile perdendo "feio" para nosso poeta. Ora, se o enredo é a retratação do que foi escrito para a avenida, através de suas fantasias e alegorias, estava eu cometendo um pré-julgamento, totalmente subjetivo, e, o que é pior, injusto a tal ponto que acabava tornando-se um conceito previamente avaliado; em outras palavras, um "pré-conceito".

Para melhor ilustrar, lembro claramente do momento em que soube que o enredo da Estácio de Sá para o carnaval de 1988 seria O Boi dá Bode. "Que enredo é esse?" – pensei. "Com certeza a escola desce!" O mesmo ocorreu quando da divulgação do enredo da Mocidade I. de Padre Miguel para 87: Tupinicópolis. "Já posso imaginar uma enxurrada de índios numa mesmisse só". Perceba, caro internauta, que, em ambos os casos, cometi os mesmos erros de avaliação comentados acima: não avaliei argumento, sua potência criativa, cultura, plástica. O que deu bode foi minha avaliação, pois Rosa Magalhães deu um banho de originalidade e bom gosto naquele ano; enquanto o tal enredo de índios virou ícone como um dos melhores enredos passados na Sapucaí, nas mãos de Fernando Pinto.

Outra afirmação espalhada aos borbotões: " O enredo é afro? Descobrimento? Estado brasileiro? Carnaval? Isso já passou na avenida!…" E daí? Nossos artistas populares (carnavalescos) já provaram que, com uma pitada de criatividade e bom gosto, podem montar verdadeiros espetáculos e inéditos aos nossos olhos, através de diferentes "leituras".

Sugestão: por que, ao invés de conferir e penalizar se a ala 17 veio ou não à frente da 18, o jurado de enredo deixe de apenas OBSERVAR e passe a VALORIZAR itens do enredo como clareza e criatividade.

Comentando o assunto com o amigo Vicente do Babado, passamos a pescar pérolas de criatividade. Além dos dois exemplos acima, "pescamos" flashes de momentos de extrema criatividade dos desfiles:

1990 => ala das borboletas – Estácio de Sá
1991 => carro da bijuteria – Salgueiro  => carro da Enchente – Mocidade
1992 => ala e carro da madeira – Caprichosos
1993 => carro do barro – Vila Isabel  => carro do menino no video-game – Mocidade => carro da Oxum – Viradouro
1994 => carro do acampamento Apache – U Tijuca
1999 => ala da caspa – U do Cabuçu => carro do Tatu – U Tijuca
2000 => enredo sobre o vento => União de Jacarepaguá
2002 => ala da assombração => Mangueira = > ala da Idade Média B Flor
2003 => comissão de frente  e carro dos espantalhos – Paraíso do Tuiuti => abre-alas da Viradouro (teatro)
2004 => carro DNA, cérebros da bateria e ala da múmia – U Tijuca
2005 => carro dos vampiros – U Tijuca => ala estrela de aluguel – Lins Imperial => capela Sistina – Mocidade
2006 => carro do cemitério e ala da lavagem do dinheiro – Rocinha
2008 => carro da vida  – Portela
2008 => ala dos bispos vermelhos – Grande Rio
   
Caro internauta, complete nossa lista, dando seus palpites de criatividade…

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