A cárie do Samba

Esses dias, após acabar minha consulta no Dentista, o mesmo me fez algumas perguntas sobre o mundo do samba. Trocamos algumas ideias por que ele não conheçe muito bem do assunto tal qual muitas pessoas que tem uma visão bem distorcida sobre nosso meio. Quem geralmente não conhece, acha que carnaval é feito na hora. Muita gente não sabe que existe um processo bem detalhado como em uma empresa normal, planejamento, contratações, demissões e etc…

Nesses nossos papos ele sempre me pergunta quem vai ganhar o carnaval, pois pra ele é tudo combinado e que o julgamento é mera figuração. E com base nessa idéia fiz uma reflexão sobre esse olhar que as pessoas têm. E quase sempre não é só o leigo no samba, mas os sambistas também. Fazemos muitos pré-julgamentos sem conhecer de fato o projeto, a idéia, ou até mesmo o contexto do artista. Cárie dentária é a destruição dos tecidos duros dos dentes causadas pelas bactérias da boca e é formada quando não é feita uma boa higiene bocal. No samba não é diferente, a cárie é formada quando algumas pessoas mal intencionadas pré-julgam ou criticam algo duramente, o sambista recebe aquela crítica e não realiza a limpeza correta em sua mente.

Desde que me entendo por gente e acompanho carnaval, todo mundo já tem palpite (infeliz) certo sobre quem vai cair: aquela que acabou de subir do acesso. Daí cria-se uma nuvem de tormentos em cima daquela pobre escola e tudo que a mesma faz é vista como motivo de rebaixamento. Da escolha do enredo, passando por contratações até no dia do desfile ao passar da velha guarda. E assim no julgamento realiza-se uma verdadeira intimação (oculta) para que aquela escola seja rebaixada. E o pior, geralmente ela é. Aí a gente culpa os jurados, a liga organizadora, os presidentes, mas esquecemos que nós mesmos já tínhamos rebaixado aquela escola. Logo há quem diga que nossa opinião influi fortemente no julgamento…

Nós mesmos, meros sambistas, criamos esse pré-julgamento e decretamos o insucesso alheio com aquela bandeira da “livre-opinião”. Percebo que para algumas pessoas existe uma limitação em olhar uma escola que subiu, ou então uma escola menos famosa por igual. É hora do sambista perceber o espetáculo como um todo, com altos e baixos, mas sem depreciar nenhum elemento do show. Não me esqueço em 2010 quando todos apostavam que Dom Quixote levaria a União da Ilha ao Acesso novamente. A escola não aceitou essa oferta, entrou destemida e se segurou no Grupo. Em 2011 surgiu como uma das favoritas destacando-se com vários prêmios e afastando o mal de vez.

Essa discussão nos leva à outra vertente: as escolas apostarem nos profissionais mais novos, os que se destacam e merecem receber uma chance. A cada ano vejo mais escolas aderindo à essa nova opção, os novatos. Exemplo claro disso é o caso da Imperatriz Leopoldinense que ousou (e acertou) contratando o casal Phelipe e Raphaela Teodoro, que antes eram 2º na Vila Isabel. Destaco o bailado, a simpatia e postura da jovem porta-bandeira! Quem ainda não foi em Ramos aos domingos, precisa presenciar a cortesia do jovem casal à anfitriã Maria Helena. Emocionante. Carnaval é tradição + renovação = emoção certa e sucesso.

Outro talento que vêm se destacando, crescendo e aparecendo é o jovem Daniel Silva, interprete da Paraiso do Tuiuti. Cria do Império do Futuro, Daniel tem uma voz que me remete as grandes vozes do passado com um quê de novidade e contemporaneidade. Hoje ele defende a obra concorrente de Aluisio Machado e Parceiros no Império Serrano. Vale à pena prestar atenção nele.

Essa semana a Revista Veja Rio, edição especial de 20 anos, publicou uma matéria fabulosa sobre a grande Rosa Magalhães. A revista a elegeu com uma das artistas que mais destacou nos últimos 20 anos no carnaval. Segundo Rosa o talentosíssimo Fábio Ricardo, pupilo de Joãosinho Trinta, se destacará nas próximas décadas, assumindo posição destaque no Carnaval. Eu não duvido nada. E você?

Dúvidas, sugestões e comentário em imperioroberto@gmail.com

Mais:

Ouça aqui o samba da parceria de Aluisio Machado, Paulinho Valença, Henrique Hoffmann, Marcelos Ramos,
Popeye, Victor Alves, Filipe Araujo e Maurício Muniz

Veja o bailado de Raphaela Teodoro e do Phelipe no ensaio da Imperatriz.