A Carta do Samba de 1962

O 2º Congresso Nacional do Samba é uma oportuníssima iniciativa da Unirio com o Portal do Carnaval.

A lamentar apenas as ausências de Tinhorão e Cabral, um preso a compromissos em São Paulo e outro saboreando em Portugal o sucesso de seu espetáculo Sassaricando. Pena porque caberá a Haroldo Costa ficar solitário na representação daqueles que são os remanescentes daqueles dias.

Das palavras do relator, para usar o termo da moda, ou, se preferirem, o redator, o escritor e folclorista Edison Carneiro, podemos tira o desejo manifesto de que aquela iniciativa não parasse por ali. Está presente em vários momentos no texto da carta a expressão “ (…) ratificá-las em futuros congressos.”

Em seu encerramento tal disposição é confirmada com todas as letras: “Esta carta deve ser meditada pelos amigos do samba, para revogá-la, ampliá-la, corrigí-la, atualizá-la ou ratificá-la nos futuros congressos”.

Como podemos observar não é um corpo de dispositivos e orientações dogmáticas, caso contrário não legaria às futuras gerações tal amplitude de poderes relativos ao que fazer com seu conteúdo, seja apenas meditar sobre ela até revogá-la se for o caso.

Participaram dela, direta ou indiretamente, figuras importantíssimas do cenário de então, além dos já citados. E mais Ary Barroso, Aracy de Almeida, Almirante, Paschoal Carlos Magno, Pixinguinha, Jota Efegê, Donga, Roberto Paulino, Nelson Andrade (já Portela), José Leite do Cabuçu e, para surpresa de tantos, já em 1962, um representante da Beija-Flor, Helles Ferreira da Silva.

A verdade é que pouco, muito pouco ou quase nada se ouviu falar desse documento exceto quanto à data comemorativa do Dia do Samba, 2 de dezembro, na qual é comemorada a data com uma das festas mais originais de nossa cidade: O Pagode do Trem, agora em sua 17ª edição.

Desta carta, de concreto, de objetivo o que terá saído? Será que alguma vez foi feita uma avaliação, um balanço? Algo mais além do estabelecimento da data. Escritas foram deixadas umas tantas reflexões que marcam ora pela curiosidade marcada pelo tempo decorrido e outras por sua atualidade e força …digamos, diagnóstica.

Deste atual Congresso, o segundo, não sabemos ainda o que brotará. Sabemos que seu objetivo não é uma avaliação de avanços ou retrocessos. Os objetivos serão buscados a partir de outros tópicos de análise agora voltados para questões da atualidade do gênero, tudo a partir da revisão, ou seja, da identificação de novos eixos temáticos.

Mas enquanto os trabalhos não têm início, com resultados previstos para os dias seguintes, nada melhor que voltarmos ao já longínquo ano de 1962, base do cinquentenário que aqui se comemora, para sentirmos como a banda tocava naqueles idos (salve, Cartola!).

Bem sabemos que samba é uma coisa e escola de samba é outra, ainda que tenham tanto em comum. Sabemos também que a carta é “DO” samba. Aqui trataremos apenas da porção samba de carnaval, que é a nossa praia.

Só para contextualizar, naquele dezembro de 1962, a Carta, em seu primeiro capítulo, dedicado à “Preservação das Características Tradicionais do Samba”, parecia não ter nada de que se queixar. E logo na abertura impunha sua marca principal sintetizando todo o recado que pretendia deixar para o futuro:

“Música, o samba caracteriza-se pelo constante emprego da síncopa. Preservar as características tradicionais do samba significa, portanto, em resumo, valorizar a síncopa.” Para o bom entendedor, uma só palavra, ou uma só frase, basta. Mais claro que isto, impossível… Nada mais precisaria ser escrito, nada melhor se aplica aos tempos atuais em se tratando de sambas enredo.

E nesse sentido aí, como eu ia dizendo, a Carta parecia não ter de que se queixar. Vejam o trecho que recolhi: “O samba produzido pelas escolas guarda comovedora fidelidade às origens”.

Vale lembrar que estamos “viajando” em plena passagem das décadas 50/60 , talvez os tempos mais férteis do sub-gênero. Era a Portela campeonissima, com nove títulos nas duas décadas, tendo em sua ala Candeia, Valter Rosa, Zé Keti, logo depois Paulinho da Viola, contando ainda com o apogeu criativo dos compositores que depois formariam sua legendária Velha Guarda.

A Mangueira que chegava a todos os recantos do Brasil na voz de Jamelão, com Padeirinho, Nelson Sargento, Helio Turco, Pelado, Cícero, Zagaia, com sambas memoráveis. O Salgueiro de Noel Rosa de Oliveira, Anescarzinho, Bala, Djalma Sabiá, e a presença renovadora de Pamplona e Arlindo Rodrigues.

O Império Serrano __ah! o Império__ naquela década criaria sua própria antologia no ápice da criatividade de Silas e Mano Décio, juntos ou separados, criando Aquarela Brasileira, Cinco Bailes, Pernambuco Leão do Norte, Heróis da Liberdade e tantos outros.

Não deixa de ser curiosa a comparação, ainda que separados por exato meio século, dois momentos díspares da importância do samba enredo para o todo de um desfile. Aqui neste 2012/2013 um cenário opaco de sambas que se mostram majoritariamente apenas “suficientes” para que suas escolas desfilem, muitos compositores com a criatividade aprisionada por enredos tão desinteressantes.

Profético ou não, não resisto à tentação de recortar mais esse trecho aí da Carta de 62, especificamente sobre os sambas enredo: “Recomenda-se que o samba de enredo (assim mesmo, à maneira Simas/Mussa/Edgar) seja simples e direto (…) e não pretenda resumir em palavras, necessariamente poucas, o que a escola diz nas alegorias, nas fantasias, nas evoluções em todo seu desfile”.

Sem descuidar da gênese e raízes daquilo que pretende preservar ,a Carta adverte para os perigos de sempre. Assinala que o samba é coreografia e música, assume formas e nomes por todo o território nacional. Que o samba é legado do negro de Angola, trazido pela escravidão. E que, à época da Carta, ainda estava em adaptação, longe de ser estabilizado em um única forma. Passava de um grupo social para outro (a revolução do Salgueiro, por exemplo, a chegada da Tv, da classe média), com características próprias em cada estado: Tambor de Crioula, no Maranhão; Tambor, no Piauí; Bambelô, no Rio G. do Norte; Samba de Roda, Bahia; Samba e Partido Alto, na então Guanabara; Jongo, no então Estado do Rio e São Paulo; Caxambu, Minas Gerais.

Já preocupada com os primeiros impactos da “revolução” que se seguiria a partir do Salgueiro de Pamplona, a Carta “botava suas unhas de fora” com recomendações muito claras já para o carnaval de 1962:

1) Que as escolas abram mão de prêmios e classificações, que são causa, às vezes velada, às vezes ostensiva, tanto de atrasos (…)como das rivalidades (…);

2) Que as escolas desistam da apresentação de alegorias em carretas, que atravancam ruas e retardam a marcha, substituindo-as por alegorias que possam ser conduzidas, no máximo por uma, duas ou três pessoas;

3) Que as pistas de desfile sejam maiores do que os trechos que lhes são atribuídos nas avenidas Rio Branco e Presidente Vargas;

4) Que as escolas, em vez de se apresentarem apenas no concurso oficial, desfilem também nos bairros onde tenham sede, com maior frequência e regularidade do que já fazem;

5) Que os prêmios atualmente pagos em dinheiro às escolas vencedoras (…) sejam distribuídos equitativamente entre as entidades que neles tomam parte (…).

6) Ter o direito de se registrar como “escola de samba”, com a faculdade de anteceder ou não este título com a qualificação de “grêmio recreativo”.

Recomendava-se, ainda, que as escolas mantivessem intransigentemente as baianas, o abre alas (aquele, claro!), a porta-bandeira e o baliza.

Relativamente à dança, uma vez que a Carta considera que o samba é coreografia e música, vale ressaltar as preocupações e recomendações tiradas pelos sambistas de então, mesmo (chorando de barriga cheia) vivendo a era de ouro de passistas, bailarinos ,cabrochas, mestres-salas e porta-bandeiras lendários. Tempos de Vilma Nascimento, de Delegado e Neide, com Mocinha como segunda; tempos de Tijolo, Vitamina, Gargalhada, Careca, Nega Pelé, Maria Lata d’Agua, Paula, Narcisa e tantos outros agora não lembrados.

Pois ainda assim a Carta recomendava que “(…)a coreografia do samba se caracteriza pelo passo de deslize, de iniciativa individual e, portanto, sem outra regra fixa senão aquela que é no pé que se diz, que se exprime, tudo que o sambista sente”. Vangloria-se, a Carta, qu”(…) a escola de samba, quer nos ensaios, que nos desfiles de carnaval, têm mantido a esta coreografia uma fidelidade que lhe faz honra. Um progresso legítimo foi a inclusão de exibições de passistas individuais em ensaios e desfiles, que tanta graça e beleza lhes tem acrescentado.”

E vai além: “O passo de deslize, de iniciativa do sambista, desautoriza e desaconselha, porém, a formação de grupos de passistas que, em vez de mostrar sua habilidade no samba, como deles se espera,(…) procuram imitar, ora o teatro de revista, ora o ballet, ora danças estrangeiras de vida efêmera (…)”.

E aqui vai o meu pitaco: particularidades temporais à parte menos ou mais surpreendentes e curiosas tantas preocupações, desejo agora evidenciar os pontos que considero de destaque por sua absoluta atualidade entre os temas constantemente trazidos à cada carnaval, permanentemente.

Refiro-me à falsa oposição entre tradição e modernidade, tema objeto de tanta impropriedade e julgamentos apressados e que, por isso, perfeitamente cabível neste momento em que novos eixos temáticos são trazidos à discussão.

Assim é o cuidado constante que notamos em mais de um trecho com a liberdade de criação e abertura para a evolução. Fica assinalado que a carta é “(…) para coordenar medidas práticas e de fácil execução para preservar as características tradicionais, sem tirar a espontaneidade e perspectiva de progresso”.

Ao mesmo tempo que a Carta destaca o samba como a expressão das alegrias e tristezas populares, reforça que é o reflexo de nossa vida, expressão da sensibilidade de nossa gente.

Situa a manifestação popular no jogo tensões sociais : “ o samba alarga fronteiras e alarga horizontes, multiplica e renova suas energias. Tal evolução natural, que reflete o jogo de forças da sociedade, brasileira, deve ser protegida com inteligência e serenidade, que não exclui o vigor se necessário, mas sem pôr em perigo a liberdade de criação artística”.

Na medida em que trata com realismo, otimismo; com abertura e cuidado tanto a trajetória quanto o futuro, a Carta não deixa de cuidar de suas defesas. Mais uma vez ressalvando a liberdade de criação artística, a preservação das “(…)características do samba se impõe como um dever realmente patriótico, já que redundará na defesa serena, inteligente e compreensiva, mas vigilante e enérgica, de um dos traços culturais que mais nos distingue como nacionalidade”

E dá seu recado final: “O Congresso do Samba valeu por uma tomada de consciência: aceitamos a evolução NORMAL (grifo meu) do samba como expressão das alegrias e das tristezas populares; que desejamos criar condições para que essa evolução se processe com NATURALIDADE (grifo meu), como reflexo real de nossa vida e dos nossos costumes; mas também reconhecemos os perigos que cercam essa evolução, tentando encontrar modos e maneiras de neutralizá-lo. (…)tentou-se dar, ao mesmo tempo razões e caminhos para a preservação das características do samba, uma perspectiva de progresso que não entre em choque com a tradição que consideremos de nosso dever proteger, a fim de lhe permitir uma evolução NATURAL (grifo meu).”

Tais destaques e os grifos por mim colocados servem para trazer à atualidade dos desfiles toda a preocupação dos subscritores de tão importante documento.

Sabemos que cada grupo vê o carnaval, e os desfiles, de seu ponto de vista. Ou cultural, ou profissional ou comercial. Sabemos que tantas vezes aqueles que defendem o lado cultural da festa, da primazia e do respeito à cultura do samba contraposto ao ôba-ôba sensacionalista, a exacerbação do interesse turístico e mercadológico são vitimas de críticas nem sempre alicerçadas na razão.

A tática intimidadora empregada tem sido a desqualificação de tais posições a partir dos rótulos ora de saudosismo, ora de conservadorismo. A Carta do Samba neste ponto é atualíssima e precisa. E é assim que se refere e defende a liberdade de expressão e a evolução quando determinadas pela evolução natural da sociedade brasileira.

E neste ponto a Carta está viva. Viva e alerta.

Como se estivesse pronta a compreender a revolução prestes a acontecer nos anos seguintes, tecida pelo Salgueiro de Pamplona, o alargamento da pista, o novo dimensionamento de alturas, a presença de João 30, novos portes de fantasias e alegorias, a nova perspectiva trazida pela Tv, a importância que o desfile assumiria para a indústria turística, a necessidade de racionalização da disciplina e duração dos desfiles…tudo isto é como se a Carta estivesse alertando para tais possibilidades, mas sempre advertindo para a “a alma” da festa, a importância da preservação da sincopa, a preservação do ritmo e da dança do samba.

Advertia enfim, a Carta, que a tradição e os novos tempos são valores compatíveis e convivíveis desde que para tanto o equilíbrio seja buscado, que não se permita, patrioticamente, que a cultura do samba seja desrespeitada, vulgarizada, tratada de forma tão exageradamente turística e mercadológica como tem acontecido.

Fatos interesses mercadológicos sim,exagerados, não sociais, que tornam a evolução artificial.

Artificial e mentirosa, descolada da evolução natural da sociedade.

Tá fazendo 50 anos. Viva a Carta do Samba… Salve a memória daqueles que a subscreveram.

Vida longa para Cabral, Tinhorão e Haroldo Costa.

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