A conveniência no carnaval

No mundo do carnaval moderno, tudo é conveniência.

O inimigo, adversário, crápula e mau-caráter de hoje se transforma, num passe de mágica, em pessoa boa, parceiro, amigo querido.

Declarações na internet do tipo “sou teu fã” ou “amooo”, soam falso mas, depende do quanto pode ser conveniente ser falso.

Qualquer um é canonizado (nos rituais do carnaval) muito mais rapidamente que no Vaticano. Basta assumir um cargo importante numa escola de samba ou, quem sabe, vencer um concurso de samba-enredo.

Parcerias impensáveis de samba são formadas pelo interesse mútuo. Não mais por afinidade. Conveniência é o fator determinante.

Nem no mundo dos negócios as coisas são tão rápidas e imprevisíveis. Comparável apenas, talvez, à política no Brasil.

Ideologias? Convicções? Tudo é irrelevante diante das possibilidades de ganho. Oportunistas fazem plantão esperando a chance de se dar bem em qualquer coisa e a qualquer hora. Os fins justificam os meios? Seria esse o novo perfil de liderança que queremos?

O que menos importa é ter caráter, retidão moral, comportamento coerente e postura. O que vale é o peso do ouro nos braços e dos cordões no pescoço.

Falta de palavra? Descumprimento de compromisso? Ingratidão? São apenas detalhes. Tudo pode ser superado e esquecido.

Existem menos máscaras no mundo do samba do que na vida real. Nem é preciso. Se o sujeito apronta mil peripécias dentro da escola e, se queima, basta ficar um tempo sem aparecer, esperar ser esquecido e retornar devagarinho.

Aquele cara que ficou na avenida, da arquibancada ou frisa xingando, esbravejando e fazendo sinais obscenos para a escola que passava, se torna o grande anjo protetor e amante da agremiação quando vira dirigente ou vence um samba-enredo.

É, amigo. O importante para esse tipo de gente, é manter o povo agregado. Mesmo que para isso criem bodes que servirão para juntar o fanático, o bajulador e o ingênuo em torno de uma falsa liderança.

Curiosa inversão de valores onde se permite que um qualquer aponte o dedo para homens e mulheres de bem e os acuse de serem… bandidos (?).

Se você, amigo, quer manter a dignidade, não quer sofrer patrulhamento ideológico, não aceita que falem em seu nome, que invoquem sua paixão pelo samba em prol de interesses que você não conhece totalmente. Se não aceita que pessoas de intenções duvidosas manipulem a sua boa fé com objetivos mesquinhos; desautorize, imponha-se. Não se permita trocar uma entrada num camarote vip pela sua honra.

Investimento cultural, compra de votos ou aliciamento de eleitor? Não sabemos de quem é a iniciativa mas, atrelar reformas de quadras a votos (de cabresto) chama atenção pelo absurdo que é esse argumento.

Ou falta de argumento. Quando grosseria e reação desproporcional se tornam justificáveis, alguma coisa está errada. Alguma coisa anda errada no mundo do samba.

Será que há mais coisas entre a Cidade do Samba e a Cidade Nova do que supõe nossa vã filosofia?

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