A exuberância volumétrica de materiais

Para nossa alegria começam enfim os ensaios técnicos. Para mim significa dizer: começou o carnaval.
Houve um tempo em que, como bem sugere o Delezcluze, o carnaval começava quando os discos de sambas-enredo chegavam às lojas.
Na minha memória, eu que gostava de almoçar diariamente na Rua Gonçalves Dias, a marca do carnaval estava em cada uma das inúmeras lojas de discos da Rua Uruguaiana, e suas caixas de som a toda, mostrando para todo mundo a nova safra.

Mas isto já foi há muito tempo. Hoje já não há lançamentos retumbantes e nem mesmo lojas de discos pelas ruas da cidade. São outros os tempos.
E o carnaval foi e vai por aí; antes pela Ouvidor, depois pela Rio Branco e tantas outras ruas e avenidas de nossa cidade em busca de seus caminhos. Enfrentou e enfrenta por aí imperativos de classe, econômicos, culturais e mercadológicos.

Cada um desses com suas bandeiras conduzidas por tipos diferentes de gente, de interesses e até de pontos de vista.

Sabemos que o carnaval em sua secular trajetória, de onde quer que se veja esse marco inicial, seja das colheitas do Nilo, das vinhas de
Baco ou das manifestações da idade média, nunca precisou do samba para nada.

No relógio da trajetória do carnaval a presença do samba talvez fique contida apenas no minuto final, até aqui, tão jovem que é.

Mas se invertemos a lógica para contar a mesma história a partir das primeiras manifestações dos sambistas nos morros e periferias da cidade, da Praça Onze, dos primeiros desfiles, o relógio é outro.

É certo que paulatinamente o carnaval das escolas vai 'roubando' algo dos cordões, dos ranchos, dos blocos. Incorpora aqui e ali elementos de outras formas de fazer a folia, ainda que diferentes daquelas com matriz européia.

Por pouco tempo.

Logo, logo as alegorias cresceram, se sofisticaram e as fantasias acompanharam seu ritmo. A presença de profissionais e artistas de outras formações atraiu a televisão, outros palcos, de forma a alcançar inimagináveis proporções.

O carnaval das escolas de samba, a junção do carnaval-do-samba com o carnaval-carnaval, vem superando todas as barreiras e não há sinal de inversão desse ritmo.

Que seja assim, que avance, que evolua, desde que seja sempre ESCOLA DE SAMBA.

A evolução foi rítmica, temática, estética. Acima de tudo comercial e financeira, e midiática consequentemente. Em toda essa dinâmica a questão que surge, a pergunta que emerge é: o quê vem por aí?
Que marcas novas virão? E das que virão, quantas ficarão?

A vitória da Unidos da Tijuca, com a marca de seu carnavalesco Paulo Barros, da forma retumbante como foi obtida, trouxe para a escola a condição de alvo da artilharia de todas as demais para que a vitória seja alcançada.

Não foi uma vitória 'natural',decorrente, como a do Salgueiro de Tambor. Nem como a da Vila de "Soy Loco" ou como tantas da Beija Flor,
da Mangueira invadindo o nordeste e Imperatriz com todas as canas, só para ficar neste século. Muito menos vitória bombástica e episódica como a inesquecível "Kizomba".
Ali o que vimos foi a vitória de uma concepção de carnaval. E olha que nem estou falando de uma ou outra alegoria, como a do DNA, tão
marcante do passado recente. Estou me referindo a algo muito mais significativo que é a "capturação" da platéia, do público, da assistência, ou dos espectadores de casa.

Aquilo que se viu ali foi tão marcante que uma das maiores estrelas dos desfiles sentenciou em cima do lance: ´"é, pegou na veia !", disse soberanamente Renato Lage. Outra grande estrela do carnaval, Laíla, antecipou a nova forma de sua escola, mais leve, mais alegre e tudo mais. E incluiu ali um cuidado maior ainda com a comunicabilidade do samba enredo.

Na minha cabeça, por tudo que venho sentindo, fico me perguntando se a evolução da forma de desfile brilhantemente iniciada por
Joãozinho Trinta estaria chegando agora a uma encruzilhada.

Certos desfiles de hoje tantas vezes parecem u'a massa contínua de alegorias e fantasias. Massa belíssima, sim, coloridíssima, é verdade,
mas nem por isso livre de riscos de se tornar repetitiva e algumas vezes monótona e cansativa.

O componente humano, o sambista, desmedidamente transformado em componente, mal pode ser visto, sentido em sua emoção de cantar
e dançar em meio a madeiras, ferragens,
tecidos, arames, braçadeiras, esplendores… ufa ! …isopores e borrachas.

Na verdade o exagero que muitas vezes vemos na avenida nada mais é do que algo que podemos classificar como mera "exuberância volumétrica de materiais".

Hoje, quando uma escola exibir tal "exuberância" como receita para agradar julgadores, estará fazendo ecoar a frase-sentença de Paulo
Barros: "antes de conquistar o júri, temos que conquistar o público".

A Beija Flor foi a que pegou mais pesado. Acusou o golpe e partiu para cima. "Pegou pela gravata" nada menos que o maior ídolo da história recente da música brasileira, capaz de envolver todas as idades, gêneros e classes sociais, e o cantará emocionadamente para fazer frente ao impacto que se espera e que é anunciado pela escola campeã.

Guerra é guerra.

A emoção da presença do "rei" poderá ter o efeito e o impacto "daquela" comissão de frente? Agirão os deuses do carnaval em favor dessa química?
Pegará na veia? Quem saberá?

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