A fé que move o carnaval de São Paulo

 

 

Um momento de fé. Assim pode ser definido o carnaval de São Paulo em 2014. O sentimento mostrado pelo enredo da Mocidade Alegre se manifestou de diversas maneiras em quem passou pelo sambódromo do Anhembi nos dias de folia. Desde a fé que a chuva não caísse e atrapalhasse o desfile talhado em ferro, madeira e adereço durante todo o ano, até a fé que faz uma escola conseguir colocar o carnaval na rua, mesmo com todas as dificuldades. Existiu a fé de componentes que ignoraram a chuva torrencial, a queda de granizo e mostraram que carnaval é mesmo samba no pé. O carnaval desse ano ficará eternizado na memória do paulistano e, daqui alguns anos, as pessoas vão lembrar da escola inteira ajoelhada na Avenida. Curiosamente, um momento inesquecível. Momento que poderia ter sido proporcionado pela alegria das crianças, celebrado em um museu de novidades e cantado por Dorival Caymmi.

Na noite das campeãs do carnaval paulistano, houve quem dissesse que o desfile não aconteceria. A chuva castigava a capital. Diversas ruas estavam inundadas. Seria muito complicado para o público e para os componentes chegarem até o Anhembi. Porém, como o carnaval é feito de um milagre constante, as arquibancadas começaram a ganhar público e quando Freddy Vianna começou o samba de esquenta da Mancha Verde, já se notava grande movimentação de componentes na concentração.

A Mancha Verde está de volta à elite do samba paulistano e foi a primeira escola a desfilar. A Alviverde pisou no Anhembi de alma lavada e feliz por retornar ao Grupo Especial no próximo ano. O samba “Bem Aventurados Sejam Os Perseguidos, Por Causa Da Justiça Dos Homens… Porque Deles É O Reino Dos Céus”, reedição do carnaval de 2006, emocionou os integrantes. Um dos mais sensibilizados era o presidente Paulinho Serdan. Em seu discurso de agradecimento, o mandatário aproveitou a oportunidade e anunciou o enredo da Mancha Verde para 2015. A escola, como se imaginava, irá falar dos cem anos da Sociedade Esportiva Palmeiras que será celebrado em agosto.

Campeã do Grupo de Acesso do carnaval paulistano, a Unidos de Vila Maria fez uma grande brincadeira para celebrar sua volta para o grupo das grandes escolas. Lembrando a alegria e as brincadeiras de criança que habitaram a infância de todos nós e embalada pela voz de Clóvis Pê, a Azul e Verde comemorou o retorno em grande estilo. O desfile da Vila Maria marcou a despedida do presidente Paulo Sérgio Ferreira da administração da escola. Serginho, como é conhecido por seus colegas, deixa o comando da Vila Maria para se dedicar em tempo integral à gestão da Liga das Escolas de Samba de São Paulo, onde também ocupa o cargo mais alto.

Novamente, a comissão de frente dos Dragões deixou o público impressionado com a fidelidade que reproduziu a coreografia do "Thriller" de Michael Jackson. O desfile da Tucuruvi foi marcado pelo discurso de Mestre Augusto no início da apresentação. O diretor de bateria afirmou que foi bombardeado nas redes sociais após a confirmação do resultado, mas que só sairá da escola se o presidente não quiser mais seus serviços. Na pista, Wantuir comandou a grande brincadeira dos integrantes da Tucuruvi. Terceira colocada pelo segundo ano consecutivo, a Águia de Ouro pousou no Anhembi para, mais uma vez, mostrar que está se tornando uma das forças do carnaval de São Paulo. A bateria de Mestre Juca e a maravilhosa interpretação de Serginho do Porto não deixaram ninguém ficar parado e colocaram as pessoas para sambar na homenagem ao compositor Dorival Caymmi.

Um dos acontecimentos que mais chamaram a atenção de quem esteve presente ao Anhembi foi a postura dos componentes da Rosas de Ouro. Vice-campeã pelo terceiro ano seguido e com todos os motivos para se deixar levar pelo lado passional, principalmente nas redes sociais, os componentes da Roseira são exemplos de fidalguia e hombridade. Ao invés de reclamar da colocação ou das notas conquistadas, o que se notou no Sambódromo foi uma escola feliz e com a consciência de ter feito seu melhor, doando tudo de si. O discurso não era de lamento, mas de orgulho. Assim como no último ano, as palavras de Darlan Alves, intérprete oficial, mexendo com os brios do componente, deixando claro que a Azul e Rosa não levou o caneco por detalhes e pode ter sido a fagulha de outra grande apresentação.

A Mocidade Alegre sofreu. Um incêndio consumiu a sede administrativa da escola e transformou em cinza grande parte de seu acervo. Sem a estrutura necessária para produzir o carnaval, a Morada do Samba deu um dos maiores exemplos de superação para colocar seu desfile na rua. A fé, retratada no enredo, mexeu com os componentes e levou a escola a conquistar um tricampeonato que não acontecia desde a década de 70. Assim que os primeiros versos do samba de exaltação ao pavilhão ecoaram na Passarela do Samba, muitos foram às lágrimas. Em seu primeiro ano na escola, Igor Sorriso mostrou porque é um dos melhores cantores do carnaval do Brasil e, com muita energia, sacudiu o desfile, proporcionando um verdadeiro baile de carnaval. A vitória da Mocidade Alegre foi uma celebração ao samba de enredo. Um bom samba mostrou que pode fazer toda a diferença. A bateria comandada por Mestre Sombra casou muito bem com a melodia proposta pelos compositores da obra. Marcella Alves e Sidclei Santos, casal nota 30 de mestre-sala e porta-bandeira do Salgueiro, acompanharam todas as apresentações dos donos do pavilhão da Morada, Karina Zamparolli e Emerson Ramirez.

O carnaval de São Paulo, já sob a luz do dia, fechou sua cortina e, mesmo após os dilúvios que castigaram a cidade nas duas sextas-feiras de apresentações das escolas de samba, mira no ano de 2015, projetando um futuro promissor. Mesmo com o enorme preconceito que sofrem, as escolas paulistas provam a cada dia como são verdadeiras entidades culturais que primam pela defesa do samba e das tradições dos sambistas de outrora, muitas vezes deixadas de lado por agremiações maiores.

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