A lógica da elite

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Nesta estréia do Carnavalesco no valoroso “O Terminal” resolvi trazer a baila tema instigante e de debates constantes no meio carnavalesco. Afinal, é válido uma escola virar bloco ou um bloco escola. O foco do conflito incide muito mais na primeira via da questão (uma escola virando bloco) do que na segunda, que é bem mais natural. Diz respeito, no entanto, a problemas bem mais profundos da nossa “hierarquia-competitiva” do carnaval carioca.

Imaginem uma pirâmide onde no topo está uma elite que acomoda a maior parte do dinheiro movimentado pela manifestação cultural chamada escola de samba. Naturalmente a visibilidade e a estrutura dessas escolas da “elite” merecem tal posição, afinal fizeram por onde dentro dos parâmetros da competição. Há quem questione algumas dessas trajetórias? Sim, mas isso não vem ao caso no momento. O importante é notar como essa elite não só dita o padrão, o modelo de apresentação das escolas de samba como toda uma ideologia em torno da manifestação cultural. De fato, todas na pirâmide desde a base querem chegar ao topo.

Assim esse modelo ideológico inclui o deslocamento de apresentações soltas e festivas para teatralizações ou evoluções espartanas. Quem não tem condições que encontre outro caminho para o sucesso. É possível ser bem sucedido sem seguir o modelo imposto pela elite, mas é muito mais difícil. Como essa elite é o modelo de sucesso a administração e o olhar sobre a festa passa a refletir essa ideologia. Assim, quanto menos escolas melhor, quanto mais tempo de desfile para cada uma melhor e quanto mais restrita for a entrada nessa elite melhor.

Logo vemos os grupos de acesso reproduzindo o modelo dessa elite. Escolas presas a evoluções chatas sem as condições estruturais do padrão de sucesso da elite. Grupos políticos ou comerciais usando estes espaços de resistência cultural como moeda de troca em relação as pessoas ligadas a estes centros. Finalmente uma ótica que desloca a valorização cultural para uma ótica financista. O importante não é mais botar carnaval na rua com todos os esforços e riscos advindos da superação. O importante é ser modelo gerencial, enquadrar-se em um padrão e gerar lucro. É a partir desse momento que as escolas de samba deixam de ser vistas como pólos culturais da cidade e passam a atrações turísticas. Turismo é lucrativo, no turismo essa lógica é válida, na cultura não. Cultura é deficitária, nenhum governo pode  investir em cultura esperando retorno financeiro, mas sim em desenvolvimento e bem-estar humano.

Lá no topo a elite, as grandes escolas concentram renda cerceando a renovação dos quadros da elite. A lógica do dobe uma, desce uma torna quase uma utopia a chegada de novas escolas ao grupo. Foi preciso um ano atípico em que não houve rebaixamento e acrescentou-se mais uma vaga na elite para que uma escola ascendesse pela primeira vez ao grupo especial. Desde que essa regra restritiva de acesso foi adotada isso aconteceu pela primeira vez. E assim a lógica vai sendo reproduzida nos demais grupos com diferentes justificativas a mais nova uma reacomodação que teria sido imposta pela prefeitura com conseqüente “enxugamento do número de escolas para a Copa de 2014”. Não consigo encontrar a ligação entre a Copa e um menor número de escolas. Caso fosse uma questão de corte de verbas bastaria a Prefeitura adotar a lógica perversa do corte como fez tantas vezes em áreas importantes do nosso orçamento como saúde e educação. Prosseguindo com nosso

raciocínio o que vemos é única e exclusivamente a lógica do extermínio. Escolas que enfrentam dificuldades enormes para desfilar, que não conseguem mobilizar desfilantes, que não conseguem concluir suntuosos carros e fantasias a tempo merecem ser extintas. Logo, menos um pólo cultural na cidade.

Penso que a outra via da questão, blocos virando escolas, tratada com a transparência que foi no último carnaval pela AESCRJ e pela FBCERJ extremamente válida. Todo mundo quer ser visto pela cidade e pelo mundo, esse é o grande objetivo das pequenas escolas, seus componentes e fundadores. Prefiro ver uma agremiação soluçando para manter-se viva, desfilando sem carro, sem cavaco, com duas ou três alas; do que uma gigantesca agremiação em uma hora e vinte de um desfile acomodado com pretensões definidas. O ciclo de vida e morte de uma escola de samba sempre existiu e continuará existindo. Perverso é forçá-las a morte quando o que mais precisam é de ajuda. Quanto mais esse crescimento da manifestação “escolas de samba” for estimulado, melhor. O grande problema será exterminar mais e mais pólos culturais na cidade do Rio de Janeiro sem ao menos dar chance dos mesmos em sonhar com a elite. E para a lógica mudar o exemplo tem que vir de cima e sugiro como um bom começo a ascensão de um número maior de escolas arejando essa elite.

E continuando a seqüência de apresentações dos nossos desfiles da Intendente Magalhães, completamos o ciclo de apresentações do Grupo E com as últimas 3 escolas, vamos a elas

Unidos de Lucas

A chegada da Unidos de Lucas ao grupo E causou comoção em boa parte dos sambistas, em muitos dos apaixonados por escolas de samba. Estes sempre identificaram no valoroso Galo de Ouro da Leopoldina os sambas antológicos como o “Sublime Pergaminho” que esquenta a escola na concentração. O que estes mesmos amantes do samba ansiavam é por uma boa apresentação da escola que há anos não ocorria. Eis que em 2011, Lucas inicia seu processo de recuperação. A coesa e organizada escola não foi nem sombra da decadência dos últimos anos. Apenas visualmente este desfile já dá um banho em desfiles da Unidos de Lucas no Grupo B.

Campeã justíssima do Grupo E!

União de Vaz Lobo

Vejam quanta história do carnaval tem nessa seqüência de escolas: Lucas, Vaz Lobo e Canários. As duas primeiras especialmente de importância vistosa na história das escolas de samba. E a União de Vaz Lobo, escola que lançou Vilma Nascimento nos anais do carnaval amarga essa angustiante sina de vai e vem entres os grupos D e E há um bom tempo. Esse ano a escola fez um bom desfile que, no entanto, não foi suficiente para bater o alto nível das apresentações em 2011. A bateria tem estilo, é gostosa de ouvir, um ponto forte do desfile.

Canários das Laranjeiras

O Canários das Laranjeiras fez história no carnaval carioca como bloco. Lutou por seu espaço e tornou-se conhecido como bloco. Ao contrário do que muita gente imagina, apesar de nunca ter desfilado no suntuoso Grupo principal teve grandes momentos como escola. E nessa reedição do samba de 1991 o Canarinho ao menos trouxe um sambaço para o desfile, ainda que a apresentação não tenha sido suficiente para brigar por título.

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