A ‘nossa’ novela das seis (3)

Dando o desconto por não ser exatamente um noveleiro, não me lembro de ter visto um momento da vida nacional e mais especificamente da cidade ser pintado com cores tão vivas e tão claras e, sobretudo, através de um canhão do alcance da TV Globo.

Ali, digamos, se configurava a “cidade partida” a que se referiu o jornalista Zuenir Ventura em livro de grande sucesso, ainda que saibamos que nunca tenha deixado de ser partida um dia.

Cenas e diálogos narram a derrubada dos cortiços da zona central da cidade, a formação, ou o recrudescimento, das favelas e o abandono de uma população imensa punida pelo passado de seus ancestrais de escravos capturados, punida em seu presente de despejados, desabrigados e favelados, punida por todo seu futuro , tal como vemos hoje por toda parte.

Nestes primeiros capítulos a novela traz à tela a discussão central ainda hoje cabível, relativa a um momento social já tão distante, embora tão presente no cotidiano de todos nós.

A pergunta é: Aquilo tinha que ser feito?

De minha parte, já que eu assino a coluna, respondo com outra pergunta: Tinha mesmo que ser feito assim?

Sim, a cidade tinha que se modernizar, se preparar para suas novas funções, combater a varíola, a febre amarela, o tifo e toda sorte de epidemias; se o centro da cidade e seu entorno precisavam de um novo desenho urbanístico, com tudo concordamos. A questão é o como tudo foi feito, em nome de quê foi feito, em proveito de quem foi feito.

E vem à lembrança as primeiras lições daquele professor formidável de história, pelo menos um, que todos um dia tivemos: o “político” com “p” minúsculo age pensando no seu tempo, na sua geração; o “Político”, com “P” maiúsculo age pensando no futuro, nas gerações futuras.

Ao contrário do que sucedera à época do fim da escravidão norte-americana, quando o norte industrializado absorvia grande parte dos escravos do sul libertados, a lei áurea jogou ex- escravos em uma sociedade atrasada, pré-industrial no máximo, entregando-os, ainda analfabetos e desqualificados, à disputa de vagas com levas de imigrantes europeus.

Eram ex- escravos “sem lenço, sem documento, sem nada _ mas nada mesmo_ no bolso ou nas mãos”, diria o poeta.

Jogados à própria sorte, imaginem se a cidade fosse paulistanamente plana, sem morros que acolhesse toda gente. Os morros da cidade, com seus relevos sinuosos, foram como seios fartos de mães generosas que acolheram quem delas precisasse.

Confrontado por seu filho, o senador da trama da novela se compromete a olhar para aquela gente, mas… tudo a seu tempo…tudo a seu tempo…

E aí, vendo aquelas cenas, fico a me perguntar sobre o grau de informação preliminar que grande parte dos telespectadores teria, ou não, para compreender se aquilo que se passa na tela é sua história viva, não uma historinha água-com-açúcar tão comum nas novelas do horário.

Como saber que a massa telespectadora sabe que o senador estava se referindo aos milhões de filhos, netos daquela gente, além de outros migrantes já das décadas seguintes que esperam até hoje que as coisas mudem, que ficaram esperando, por gerações e gerações, que as coisas efetivamente acontecessem… a seu tempo…a seu tempo.

Era o tempo do tão nosso conhecido e ainda vigente “capitalismo sem risco”, o capitalismo com recursos públicos em benefício próprio. Ali também é mostrado na telinha, de forma bem cuidada e didática, como um senador da república de então, pela força de seu cargo, dispondo de informações privilegiadas, compra para si próprio glebas imensas a preço de banana e vende lotes futuros, dotando-os de infraestrutura, água, transporte e luz com recursos do tesouro, para depois vendê-los a preços potencializados.

Quantas fortunas das que conhecemos hoje foram iniciadas assim?

E são esses mesmos, ou seus netos e bisnetos, seus herdeiros de fortunas ganhadas dessa forma, que covardemente andam por aí em nossos dias fazendo discursos racistas, denegrindo e atacando a autoestima de netos e bisnetos daqueles que um dia tiveram suas casas e suas vidas derrubadas no “bota a abaixo” que a novela está mostrando.

Quantos espectadores percebem isto?

Trazendo a questão aqui para nosso mundo do carnaval podemos constatar como em tão poucas vezes nossas escolas trataram de momento tão rico e marcante do próprio universo dos sambistas. Apenas a Ilha e a Vila trataram desse tempo e desse tema em seus enredos, a Vila de forma tão extraordinária em 2009 que nunca canso de citar.

Tempo em que, tendo suas famílias escorraçadas, naquela primeira década do século, nasceriam ou viveriam por aqui Paulo da Portela e Cartola, pais fundadores de nossas escolas; Rufino e Caetano, fundadores da Portela; Carlos Cachaça e Saturnino, fundadores da Mangueira; Antenor Gargalhada e Calça Larga, fundadores do Salgueiro; Mestre Fuleiro e Vó Maria Joana, fundadores do Império Serrano, isto só para citar fundadores, inclusive Ismael Silva e Bide, da Deixa Falar, sem contar inúmeros outros que se ternariam baluartes em suas
escolas.

Leva a mal, não… mas nosso time era bom pra caramba!

Há muita gente boa contra a política de cotas, eu conheço muita; gente inteligente, culta, do bem e de boa fé, e até compreendo, sem concordar, suas razões e argumentos. Mas há muitos também, e são tantos por aí, que são contra na poeira da herança desses tempos.

Eu mesmo sou absolutamente contra cotas. Entendo que cotas representam nada mais que a sociedade brasileira assumir seu fracasso, sua derrota por não ter oferecido oportunidades iguais a seus filhos, a todos os seus filhos, inclusive àqueles de que trata e tratará a novela nos próximos capítulos.

Política de cotas não resolve e não resolverá nunca; o que resolve, nós todos, mas todos mesmo, sabemos que é saúde, educação e cultura de qualidade para todos os brasileiros.

Quantos recursos necessários para tanto se perdem no descaminho das contas bancárias daqueles mesmos senadores da novela, transladados para nosso tempo. São os mesmos, exatamente os mesmos, difere somente o tamanho de seus bigodes, suas insensibilidades… e suas covardias.

Sim sou contra cotas, mas enquanto a educação decente, a saúde de verdade, a cultura acessível a todos continuar sendo uma mentira, enquanto as novas gerações de excluídos, a exemplo de seus pais e avós, ficarem esperando que os “senadores” como aquele, e como os de hoje, tomem medidas…”a seu tempo”…” a seu tempo”…até que isto aconteça, até que as oportunidades sejam iguais de verdade, sou absolutamente a favor das cotas, mesmo que sejam uma excrescência. Mesmo que representem o fracasso da civilização que conseguimos criar até aqui.

Política de cotas não é para resolver nada, foram criadas para amenizar um passado enquanto o futuro não chega …

Devem ser descartadas … um dia? Com toda certeza, mas não dá para saber quando.

A seu tempo…a seu tempo …

e-mail para contato: lcciata2@hotmail.com

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