A perda da inocência

Recentemente recebi meu DVD/CD da Superliga de São Paulo. Com ele pude reviver um gostinho que não sentia desde minha adolescência. Não os belos sambas daqueles tempos, o samba da Vai-Vai é bem gostoso de ouvir e a letra da Mancha bem inteligente, mas me refiro a outra sensação. Lembro do gostinho de pegar um disco de samba enredo sem conhecer nenhum samba.

Ouvir um disco com aquela sensação desbravadora que perdemos nestes tempos de internet. Tempos em que no ato da inscrição somos atualizados em tempo real dos 50 sambas concorrentes em cada escola. Onde muitas vezes temos contato com pessoas influentes que nos repassam o samba vencedor em gravações "demo" antes da final acontecer, mesmo que você more em Roiraima. Então ouvimos os sambas vencedores do Grupo Especial ao Grupo E incluindo os sambas de São Paulo e Porto Alegre até cansar nos celulares, Mp3 players e Ipods. Quando o disco fica pronto e começa a ser vendido já estamos cansados é de ouvir as faixas oficiais que vazam antes do lançamento. E são esses portáteis um dos responsáveis por desgaste tão repentino, afinal podemos passar 24 horas ouvindo samba. Tenho uma lista de mais tocados no MP3 player, outra no notebook, mais uma no PC e o som do carro adora repetir a faixa da União da Vila do IAPI no modo shuffle.

Ao receber uma bolachinha nova, com aquele cheirinho de plástico que a cada passada soava como novidade, fui tomado por nostalgia que remetia à minha infância na Ilha do Governador. Quando ficava ansioso para chegar da escola e ouvir o novo LP das escolas de samba. Lambia aquele objeto por semanas. A maioria dos encartes hoje estão desgastados afinal os levava para todos os lugares lendo e relendo os sambas e as fichas técnicas. O LP de 1991 é maravilhoso, pois além das letras, a sinopse dos enredos acompanhava. Hoje a babação em torno do CD dura pouco afinal só uso o mesmo uma vez para ouvir o resto é para admirar. Fica tudo em MP3 mesmo.

A sensação nos leva a pensar. Muito mais que a tecnologia a culpa é do sistema. Alguém diz: "Você ainda não ouviu o samba do Rancho Não Posso Me Amofiná? É o melhor de Belém!" Pronto é a senha para que você corra feito um desesperado atrás de todos os sambas de todos os grupos de Belém. "O samba da escola X é uma porcaria! Afinal a disputa foi uma pouca vergonha" diz outro. Daí você não consegue mais ouvir aquele samba com o mesmo ouvido inocente de quem não acompanhou a disputa.

Não acho isso ruim. A informação segue a velocidade que as pessoas lhe impõem. Ela se propaga pelos meios que lhe são oferecidos. Quando as faixas oficiais vazam são as escolas que devem procurar meios para evitar o vazamento. Pode ser uma opção essa nova realidade como fizeram vários artistas e parar de produzir e tentar vender CDs como fim em si mesmo. Talvez já estejam fazendo isso e continuem produzindo a matéria para aficcionados como eu. Pessoas que tem relação intima com o objeto. Que criam laços simbólicos de devoção a um ciclo temporal através dos discos. Confesso, entretanto, que achei gostoso relembrar essa sensação. Essa inocência perdida em algum lugar do passado.