A polêmica do Rock in Rio

O anúncio do enredo da Mocidade sobre o Rock in Rio agitou o mundo do samba e criou uma polêmica instantânea. Milhares de mensagens correm as redes sociais criticando a decisão da escola e taxando o enredo como absurdo. Eu, sinceramente, não entendo porque. Não consigo perceber se o problema é com a homenagem a um outro estilo musical (rock) ou com o fato de ser um enredo patrocinado. Se for o primeiro caso eu nem entro em discussão. É um absurdo criar algum tipo de rivalidade entre estilos musicais num país como o nosso.

Se for o segundo caso acho estranho que não tenha havido tanta gritaria quando foram laçados enredos sobre o cabelo e o iogurte. Talvez o fato de a Mocidade ter uma jovem e imensa torcida tenha dado essa dimensão maior aos protestos. Falar sobre um festival de música (que não mais se restringe ao rock) extremamente popular me parece mais interessante que os inúmeros enredos sobre cidades e estados que já estamos cansados de ver. No mínimo é mais original. E traz consigo uma mensagem de alegria, sucesso e cultura. Sim, música é cultura.

Um enredo sobre o Rock in Rio também permite maior aproximação de um público que ao longo dos anos se afastou do carnaval. É excelente para a visibilidade do evento. Quem de nós não quer que mais pessoas demonstrem interesse pela nossa festa?

Acho que estamos diante de uma grande oportunidade para discutir o papel dos enredos. O que eles realmente são e para que servem? Durante um longo período foram única e exclusivamente históricos. Alguém imagina isso hoje em dia? Temas como “O segundo casamento de D. Pedro” já teriam enterrado os desfiles.

Não faço parte do time dos que acreditam que os enredos precisem ter cunho cultural, histórico ou educativo. Não se pode engessar a festa. O enredo é simplesmente o tema para o desfile. Pode versar sobre vários assuntos desde que propicie uma apresentação interessante. E deve se aproximar mais do gosto médio da população. Não é à toa que Paulo Barros é tão popular. O carnaval é uma festa, não é uma universidade.

Mais importante do que o tema é a maneira como ele é desenvolvido. É isso que faz a diferença. Um assunto aparentemente insosso pode ganhar ares agradabilíssimos se for bem mostrado através das diversas formas que uma escola de samba dispõe hoje para representá-lo. Criatividade, leitura, bom gosto e capacidade de comunicação são itens fundamentais na apresentação de qualquer tema.

Acredito que alguns assuntos muito aceitos no mundo do samba já estejam esgotados. Homenagens repetidas a grandes personalidades, carnaval, cultura afro-brasileira e as histórias da corte já passaram inúmeras vezes na avenida. Algumas brilhantes, outras péssimas. Porque não abrir o leque para outro tipo de abordagem? O festival “Rock in Rio” faz parte da vida e da memória de muita gente. É preciso entender isso.
 
O carnaval só se mantém vivo durante tantos anos porque tem conseguido lidar com as diferentes manifestações culturais que lhe são paralelas. Vamos ficar cada vez mais fechados em torno do nosso umbigo ou vamos aprender a lidar com as diferenças?

O maior desafio cabe ao carnavalesco Alexandre Louzada: fazer da história do festival um desfile bonito, criativo e emocionante. Acredite, é possível. Basta ter bom senso, bom gosto e talento. E ele tem.