A presença do Ronaldinho Gaúcho no carnaval

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Das poucas novidades surgidas nos últimos carnavais duas delas merecem saudação especial. Uma por ser a maior de todas e a outra por ser delas a mais importante.

Estamos assistindo a explosão da maior dessas novidades. O ensaio técnico do último domingo, o primeiro da temporada, com a linda homenagem às baianas, deu mostra clara do que vem aí pela frente: apertem os cintos. Já ouço gente dizendo por aí que o ensaio técnico é melhor que o desfile oficial. Menos, pessoal, menos um pouquinho.

Com razão ou não essa turma aí sinaliza uma verdade. Melhor ou não é outra conversa, mas a verdade que surge é que temos ali, isto sim, um outro carnaval. E por ser "um outro carnaval", não sei que fórmula a turma da Liesa vai encontrar para disciplinar o acesso à pista. Por ser "um outro carnaval" não há ingressos vendidos, esta sua maior virtude. Por não ser como aquele outro carnaval, não há credenciamento algum. E nem convites.

Por não ter o clima do outro, este carnaval dos ensaios acaba por se transformar em imenso ambiente de encontro de pessoas ligadas ao carnaval e que só se vêem no carnaval. Não se encontram durante todo o ano.

Como evitar tanta gente na pista a ponto de afunilar o desfile em alguns pontos? Como selecionar, como definir quem terra acesso à pista? Eu é que não queria estar lá decidindo isso.

Mas, tudo isto aí para registrar que, mesmo com tanto sucesso, tais eventos nem de longe representam a novidade mais importante do carnaval. Perdem em importância para o movimento progressivo nas escolas, nem tão recente assim, consistente no custeio cada vez maior das fantasias para suas comunidades.

Duas questões daí surgem. É justo afastar pessoas, sambistas, ou mesmo ou sambeiros, que gostam de desfilar, apenas porque não são pobres e não moram em uma determinada comunidade? É uma questão tão complicada que vou fingir que ela não existe, por enquanto, e passar para outra que é mais complicada ainda.

É o seguinte: eu, aqui do meu cantinho, assim como considero esse "retorno", esse "reequilíbrio", o que há de mais positivo para os
desfiles, considero, do mesmo cantinho, a questão dos enredos patrocinados o que há de mais nocivo para a nossa festa. Mais até do que
o fato de uma só emissora transmitir as imagens televisivas.

A busca de enredos patrocinados como fator que mais contribuiu, direta ou indiretamente, entre outros, para o que há de mais negativo nos carnavais. Tanto a aridez dos sambas-enredo quanto a aposta em enredos descarnavalizados e a conseqüente exibição do belo pelo belo,
na ausência de enredos mais interessantes.

A tal "exuberância volumétrica de materiais" a que já me referi antes. Mas e a relação de uma das novidades com a outra. Uma é possível
sem a outra? Como conseguir recursos para custear as fantasias gratuitas sem patrocínio? O que é mais positivo/negativo, como encarar a equação custo/benefício? Qual a medida certa da relação ÔNUS/BÔNUS?

Resumindo: é melhor assumir o ônus de um enredo patrocinado e trazer a comunidade de volta ou deixar a comunidade de fora e fazer enredos autorais, propostos pelos departamentos culturais das escolas ou seus carnavalescos?

Mas, peraí! O quê que o Ronaldinho Gaúcho tem com isto? Vamos lá… vamos lá. Não sabemos se o cara vai desfilar na Portela, Salgueiro
ou Beija-Flor. Há controvérsias. Mas a questão com ele aqui é bem outra. O mesmo jornal onde leio que o Flamengo fechou a compra dá a notícia de que os demais jogadores não recebem há três meses.

Como é que é isto? Como é esta engenharia financeira? Há muito em comum entre o Carnaval das escolas e o futebol dos clubes. O
carnaval só perde em paixão porque é uma só vez ao ano. O futebol é quase o ano inteiro. No futebol todo mundo recebe, mas no carnaval
só as estrelas e em algumas escolas.

Ronaldinho, agora, e Ronaldo Fenômeno, antes, trouxeram para perto de nós, simples mortais do carnaval, o que é possível rolar nesse mundo do marketing. O mundo em que quem tá duro (Flamengo) compra, que já tem muito recebe (Ronaldo), quem viabiliza tudo é a
"marca" (Flamengo).

A questão que eu, simples mortal, busco entender é porque situações tão semelhantes (carnaval e futebol) vivem realidades tão diferentes. Que são diferentes eu já sei, mas que sejam tão diferentes, não sei.

Ambos estão submetidos a cláusulas contratuais de exibições de imagens ao vivo, no Maracanã e no Sambódromo, em universo de venda
de espaços comerciais para anunciantes, com ou sem exclusividade.

A Tv, até onde posso imaginar, impõe a exclusividade de um anunciante impossibilitando que os espaços do Sambódromo possam exibir outras marcas tal como acontece no Maracanã e em qualquer estádio do mundo, em qualquer competição do mundo, inclusive na Copa.

No futebol, não é só o espaço da Tv que é comercializado. É também o espaço dos estádios e o espaço dos uniformes.

O espaço nobre do dito "manto sagrado", o peito do jogador, na camisa, fica para o patrocinador Master, com resultados comerciais de
venda de camisas distribuídos pelo Fla e seus parceiros até um determinado valor. Acima desse, Ronaldinho embolsa 50%, a Traffic 40 e o
Fla 10; a manga da camisa, em menor proporção, tem o valor estipulado dividido com outros parceiros. Até o valor de oito milhões, dividindo-se o "plus" na mesma proporção. Assim com a barra da camisa e o espaço do calção. (curioso é a camisa, que antes ficava obrigatoriamente para dentro do calção, agora ficar com a barra exposta para que nela caiba mais um anúncio)

Isto tudo só na parte da frente. Quando Ronaldinho virar de costas, no número da camisa, o valor obtido cai cinquentaporcentamente no bolso gaúcho, 40 no da Traffic e 10 no de quem sacraliza o manto. O fabricante da camisa terá seu custo significativamente aumentado para que possa cair nos bolsos citados a mesmas proporções acima.

E já que indicamos o os bolsos-destino de toda essa grana, não custa lembrar aqui de que bolsos essa grana toda sai: o meu, o seu, o nosso que compramos camisas e vamos ao Maraca assistir ao tal Mengão, seja ele ou não o nosso time.

Alguém aí desse lado me explique: por que o Flamengo para trazer o Ronaldinho comercializa sua marca e as escolas, para pagar suas fantasias, precisam vender seus enredos? Claro que a Mangueira não vive de venda de camisas, e nem queremos que a fantasia se transformem em uniformes de Fórmula 1. Claro que não!

A pergunta é se o mundo das escolas de samba está convenientemente apetrechado para enfrentar esse desafio? Estou apenas perguntando, como comum mortal: há profissionais do ramo pensando isto?

Será que as paredes de algum lugar do sambódromo não podem ser disponibilizadas proporcionalmente para que cada escola busque seu patrocínio sem interferir em seu enredo, mesmo com menor valor.

Não é possível que um potencial dessa ordem fique preso, emparedado, sem qualquer utilização. Pra mim toda essa história soa tão anacrônica e contraditória que fico a pensar que os obstáculos são verdadeiramente intransponíveis e eu, por ignorância, esteja aqui a pagar o mico da desinformação.

Arrisco até uma "peruada" de leigo por uma alternativa que atenda às escolas sem ferir a exclusividade nas telas da Tv: a própria escola disponibilizaria um espaço no desfile, um carro ao final, por exemplo, para explicitar a marca de seu parceiro. Caberia à televisão afastar o foco de suas as câmeras daquele carro para não ferir seus interesses.

Para finalizar, peço a algum leitor desse ramo de negócios que amenize a ansiedade deste comum mortal e mostre as razões das impossibilidades.

Se isto acontecer, prometo nunca mais tocar nesse assunto, juro!

e-mail para contatos mais longos: lcciata2@hotmail.com

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