A saga de um compositor de samba-enredo – Parte 1

Não, amigos, não é nada fácil a vida de um compositor de samba-enredo. Decidi este ano dividir com vocês um pouco do sofrimento que é participar de um concurso: desde o sonho até o resultado final, seja ele qual for. Dividi o tema em capítulos que serão publicados até o final das disputas nas quadras.

São vários os motivos que levam um ser humano a participar desta loucura. E são vários os tipos de compositor. Há os românticos que sonham em ajudar suas escolas de coração dedicando-lhes um pouco de sua inspiração; os poetas anônimos que não conseguem que um grande intérprete grave uma música de sua autoria e enxergam no concurso uma forma mais democrática de chegar ao grande público; os “profissionais” do ofício que montam “esquemas” grandiosos para disputar em diferentes escolas; há também os que nada compõem, mas fazem investimentos objetivando o lucro de uma eventual vitória; e os que “perdem dinheiro” apenas para ganhar “status” dentro das escolas. Ia esquecendo daqueles que apenas emprestam o nome para um familiar ou amigo que, por diferentes motivos, não pode assinar o samba. Deve haver outros tipos neste universo tão intrigante.

MONTANDO A PARCERIA

Todos eles passam por fases diferentes ao longo do processo. A primeira é a montagem da parceria. Hoje em dia é impossível alguém enfrentar sozinho este desafio. A não ser que seja um milionário. Os custos são altos. É preciso ter alguém com dinheiro no grupo ou aumentar o número de parceiros para dividir o prejuízo.

Importante também é ter alguém com penetração na escola, que possua bom trânsito entre os segmentos e a diretoria. Sem uma boa “política” é difícil ir longe numa disputa. Se você conseguir um líder comunitário estará tranqüilo pois assim terá torcida numerosa. Muita gente dá parceria também ao cantor do samba, mesmo que extra-oficialmente, para amenizar os gastos e contar com maior comprometimento. A relação dos compositores com seus intérpretes é recheada de emoções.

Ultimamente tem havido um movimento em algumas escolas no sentido de unir parcerias fortes. Assim você elimina adversários diretos e ganha mais força política. Então, procure fechar a parceria com antigos rivais.  

MÃOS À OBRA

Uma vez montado o time começa a composição. Hora de ler e reler a sinopse, entender a proposta do carnavalesco e “entrar” no espírito do enredo. Para que não haja dúvida quanto à interpretação do tema são feitas reuniões com os carnavalescos.

Ideias organizadas, é hora de partir para a composição propriamente dita. Como ninguém cria sozinho, este momento é de política também. Você negocia com os parceiros para “emplacar” suas idéias, “sacadas”, propostas melódicas. Troca-se um refrão por uma “cabeça”, uma “segunda” por outra e por aí vai.

Raramente o samba sai em uma única reunião. Aí começa um dos piores tormentos do compositor que realmente faz o samba. As melodias e idéias não saem da sua cabeça um minuto sequer. É um verdadeiro pesadelo, uma prisão. Você dorme, sonha, acorda, almoça, janta e até faz amor pensando nas soluções para o samba. As pessoas que o cercam precisam de paciência e compreensão. Você é um doente, mas essa fase passa.

Depois de alguns encontros o samba está pronto. Chegou a hora da gravação, outro pesadelo. Qualquer erro pode comprometer todo o sonho. É a hora de caprichar em todos os detalhes. As gravações são desgastantes porque demoram muito e têm momentos de tensão. É muita coisa para gravar e nada pode dar errado, muita gente envolvida e cada um com um pensamento. Muitas vezes sai briga entre cantor e compositor; músico e técnico de gravação… complicado.

DIVULGAÇÃO

Gravação pronta, hora de espalhar. Mande para todos os amigos (mesmo aqueles que você não vê há vinte anos) e distribua seus (pelo menos) mil CDs na quadra. Se acabar o estoque mande fazer mais: é sinal de que a recepção é boa.

Ultimamente, com a proliferação de sambistas na internet, muitos compositores se dão ao trabalho de montar um batalhão de amigos reais ou virtuais para elogiar seu samba e criticar os adversários nos sites e fóruns. Uma verdadeira praga, mas nessa guerra valem todas as armas.

Antes mesmo do samba ser cantado na quadra tem muita gente dizendo que já ganhou ou já perdeu. Mas a batalha está apenas no início. A disputa semanal é tema para um próximo texto.