Acima da média

A tarefa de “julgar” os sambas de enredo para este carnaval está sendo mais difícil do que em anos anteriores. A nítida evolução das obras musicais me deixa entre a cruz e a espada: julgo de forma técnica ou emotiva? Devo me deixar levar pela alegria que certos sambas me proporcionam ou observo com frieza possíveis deslizes?

Enquanto penso sobre isso é preciso frisar que esta é uma análise preliminar, pois o samba-enredo só se completa mesmo no dia do desfile. Só na pista é possível verificar sua real adequação ao enredo proposto pelo carnavalesco e o efeito que causa nos desfilantes e na platéia.

A safra de 2012 é acima da média. Ela nos dá esperanças de que, embora ainda tenhamos um longo caminho a percorrer, aos poucos o mundo do samba vá entendendo que é preciso inovar, buscar novos caminhos e prezar a qualidade. Os compositores vão se deixando libertar e as escolas dão sinais de que começam a entender a necessidade de escolher o melhor, independentemente de outras questões.

É claro que a boa safra reflete a qualidade dos temas escolhidos pelas agremiações. Se estes temas serão grandes enredos só poderemos saber após os desfiles, mas é inquestionável que a maioria tem um aspecto cultural relevante. E isso facilita o trabalho dos poetas.

Beija-Flor – 9,7
É um belo samba com uma nítida quebra de continuidade poética e melódica na sua primeira parte, exatamente nos pontos de “junção” dos dois concorrentes. A partir do refrão central a obra cresce muito em empolgação, beleza melódica e descrição do enredo, explodindo num refrão final irresistível.

Unidos da Tijuca – 9,5
Não repete a qualidade nem o padrão de anos anteriores. Seus melhores trechos são as citações à obra de Luiz Gonzaga, na “primeira” e na “segunda” do samba. A letra é correta e, embora sem grandes sacadas, transmite a idéia do enredo que é mais sobre o sertão do que sobre o “Rei do Baião”. Os dois refrões deixam a desejar, sendo que o segundo apela a notas muito altas que o tornam muito difícil de ser cantado – pelo menos no tom da gravação.

Mangueira – 9,7
O samba conta sua trajetória com muita força melódica e emoção. A segunda parte é sensacional e o enredo é bem retratado. Entretanto, há pequenos deslizes na letra – alguns deles inseridos após a final. Citações como “O novo palácio do samba” e “A surdo um faz festa” são destoantes. Os dois últimos versos (“Não dá pra conter tamanha emoção, Cacique e Mangueira num só coração”) também não são tão ricos poeticamente quanto o resto da obra.

Vila Isabel – 10
Samba riquíssimo em sua melodia e perfeito na letra. Além de tudo é inovador ao propor o contraponto entre cantor e coro. A Vila encontrou um ponto de equilíbrio excelente entre os estilos de André Diniz e Arlindo Cruz. Casou a sofisticação da poesia com a densidade da música.

Salgueiro – 9,7
Samba “redondo”: amarra bem o enredo, tem melodia “valente” com algumas boas variações e refrão explosivo. Porém, num comparativo com outras obras desta excelente safra, fica devendo em criatividade. Faltou o novo, o diferente.

Imperatriz – 9,8
Um dos grandes trunfos deste ano é a volta dos sambas interpretativos. Letras que não se prendem a um roteiro de desfile e se permitem criar imagens próprias a partir do tema proposto. É daí que surge a beleza do samba da Imperatriz. A liberdade de criação rendeu versos muito inspirados, principalmente nas partes intermediárias. Já os refrões deixam um pouco a desejar, especialmente o segundo. Sou radicalmente contra essa moda de jogar o nome da escola sem contexto. De repente, do nada, vem a exclamação: “Sou Imperatriz, sou emoção”. Soa gratuito. E usa uma palavra que virou uma espécie de “praga” nos dias de hoje, a tal da “emoção”. Quase todo samba fala nisso. Acredito que a emoção deva ser conquistada através de outras palavras, sem precisar ser citada.

Mocidade – 9,7
Assim como o samba da Imperatriz, tem na poesia seu ponto alto. Os compositores abusaram da sensibilidade na construção dessa bonita homenagem ao pintor Portinari. É uma letra requintada, contrastando com os dois últimos sambas da escola. Até a palavra emoção é bem encaixada, embora pudesse ser evitada. A melodia, entretanto, não é das mais fortes do ano. Ainda precisa me convencer de que pode ajudar a escola a ter notas máximas em harmonia e evolução.

Porto da Pedra – 9,2
O enredo não ajuda. Como fazer poesia sobre a história do iogurte? Os compositores optaram por fazer um samba descritivo, mas tropeçaram na falta de “essência” do tema e criaram versos confusos e de “gosto duvidoso”. A melodia também carece de inspiração. De bom, no CD, a interpretação de Wander Pires a bateria Ritmo Feroz, que vem se destacando nos últimos anos.

São Clemente – 9,5
Excelente refrão final! Alegre, irreverente, espirituoso. Gruda! Empolga. Carrega o resto do samba nas costas. A letra, interpretativa, não abrange todo o potencial do enredo e recorre a um jogo de linguagem pobre e desnecessário quando diz “Puxa aqui Paris é avenida”. A melodia se repete por alguns versos de forma cansativa.

Grande Rio – 9,4
Várias frases de efeito bem escritas que, conjugadas, ainda não conseguiram me conquistar. O samba não atinge a emoção que a sinopse transmite. Talvez isso ocorra durante o desfile. A obra recorre a uma solução inúmeras vezes usada em sambas anteriores ao rimar “Eu vou” com “amor” no chamado “refrão de resposta”. Isso revela pouca imaginação na concepção artística. Ainda não entendi porque a direção da escola inseriu uma citação a Parintins na letra. Se os outros exemplos de superação abordados no tema são tratados de forma poética indireta, não há porque citar o festival amazônico.

Portela – 10
Um samba com cara de Portela, mas aquela Portela de verdade, da águia altaneira. Um samba com personalidade e ousadia. Um samba que mistura o passado e o presente com rara felicidade. Um samba que dá um bico na mesmice do gênero e nos enche de felicidade. Um samba assim merece que seu único deslize (o excesso de sílabas no verso “Madureira sobe o Pelô”) seja ignorado. Nota máxima!

União da Ilha – 9,4
Não nos remete às grandes obras insulanas. É mais um samba “comum” como os últimos que a escola vem apresentando. A junção até deu certo no aspecto melódico. Ao contrário de 2010, não há falhas no “encaixe” musical. Há sim uma descontinuidade no desenvolvimento do enredo. A maneira de contar a história era muito diferente entre os sambas vencedores. A solução final ficou confusa, com idas e vindas. Destaque para o verso inicial do refrão final e as partes em que se propõe a mistura de culturas entre Brasil e Inglaterra.

Renascer de Jacarepaguá – 9,4
Um samba comportado. Correto, sem falhas melódicas, mas muito longe da popularidade. A letra tem tiradas inteligentes e descreve passo a passo o enredo, procurando transmitir emoção no seu final. Falta comunicação, alegria, vibração.

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