Adeus, mestre. Morre Joãosinho Trinta, o homem que mudou a história do carnaval

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Morreu na manhã deste sábado no Maranhão, o carnavalesco Joãosinho Trinta, de 78 anos. Ele faleceu às 9h55 e segundo o Hospital UDI, em São Luís, as causas foram pneumonia, infecção urinária e choque sético. Joãosinho Trinta estava internado desde o dia 3 de dezembro. O enterro deve acontecer na manhã de segunda-feira, em São Luís, no Maranhão.

 

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A vida de Joãosinho Trinta

Nascido em 23 de novembro de 1933, em São Luis, no Maranhão, João Clemente Jorge Trinta, viveu em sua cidade natal até completar a maioridade. Nascido em família pobre, Joãosinho Trinta, ainda no Maranhão, foi escriturário, mas o lado criativo já aparecia desde os primeiros anos de vida. Quando criança, fabricava os seus próprios brinquedos e começava a aprender a trabalhar com formas, materiais e cores, características que fizeram dele um dos maiores carnavalescos da história.

Em 1951, já aos 18 anos, Joãosinho Trinta mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar dança clássica no Theatro Municipal. Durante 25 anos integrou o Corpo de Baile do teatro, tendo participado de óperas importantes. A história de Joãosinho Trinta no Carnaval começou em 1961, quando participou da equipe de criação do desfile do Salgueiro, liderada pelo então carnavalesco Fernando Pamplona.

Ainda assistente de criação no Salgueiro, João Trinta foi campeão do Carnaval carioca em 1965 e 1969, anos em que assessorava Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. Já em 1971, em mais um campeonato salgueirense, o artista assinou o enredo 'Festa para um rei negro' ao lado da dupla citada e da carnavalesca Maria Augusta. Três anos mais tarde, em conjunto com Maria Augusta, Joãosinho Trinta conquistou o sexto título da história do Salgueiro com o enredo 'O rei de França na Ilha da Assombração'.

O bicampeonato salgueirense, em 1975, marcou o início da carreira solo do maranhense, que levou o título com o enredo 'O segredo das minas do Rei Salomão'. Um ano mais tarde, um novo desafio em sua carreira, Joãosinho Trinta, após divergências com a diretoria salgueirense, foi trabalhar na Beija-Flor de Nilópolis que, à época, ainda não era uma grande escola do Carnaval carioca.

Logo em seu primeiro ano na Deusa da Passarela, conquistou mais um título. Em 1976, João desenvolveu o enredo 'Sonhar com o rei dá leão' e iniciou uma sequência de carnavais que daria o tricampeonato em 77 e 78 à Beija-Flor. Depois de um vice-campeonato em 1979, a agremiação de Nilópolis, sob o comando de Joãosinho Trinta, voltou a ser campeã em 1980 e 1983.

Além de institucionalizar o nome na história do Carnaval com a continuidade do excelente trabalho feito no Salgueiro, o carnavalesco criou e organizou diversos programas de inclusão social para a população carente da Baixada Fluminense. Sua principal característica na concepção dos desfiles era a facilidade para representar com perfeição os diferentes enredos que levou para a Sapucaí ao longo da carreira.

De 1984 até 1991, Joãosinho Trinta manteve o bom nível de seus Carnavais na Beija-Flor. Foram quatro vice-campeonatos durante o período, além de um acontecimento que ficará para sempre guardada na história dos desfiles das escolas de samba. Em 1989, com o enredo 'Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia', a Beija-Flor perdeu o título para a Imperatriz Leopoldinense e Joãosinho Trinta viu uma alegoria que retratava a imagem do Cristo Redentor caracterizado como mendigo ser proibida pela Igreja Católica. A alegoria passou na Avenida com a imagem coberta por um plástico preto e uma faixa com a frase: 'Mesmo proibido olhai por nós'.

Em 1992, após um sétimo lugar, Joãosinho Trinta deixou a Beija-Flor numa saída até hoje mal explicada. Fato é que, em 1993, João não assinou nenhum Carnaval e fechou contrato com a então emergente Unidos do Viradouro em 1994, que faria apenas o seu quarto Carnaval no Grupo Especial. Com enredo sobre a rainha negra Tereza de Benguela, a escola de Niterói obteve a melhor colocação de sua história até o momento, um terceiro lugar.

Após dois Carnavais infelizes na Viradouro, o talento inconfundível de Joãosinho Trinta reapareceu em 1997, quando com o enredo 'Trevas! Luz! A explosão do universo', a Unidos do Viradouro conquistou o único título de Grupo Especial de sua história. No desfile, o abre-alas inteiramente na cor preta, causou impacto e foi o ponto alto do desfile que deu uma conquista de Grupo Especial ao carnavalesco depois de 14 anos de jejum. O título veio num momento especial, já que, um ano antes, o artista havia sofrido um derrame que deixou o lado direito do seu corpo paralisado.

Joãosinho Trinta ainda ficaria mais três Carnavais na Vermelho e Branco de Niterói, conseguindo dois terceiros lugares e uma quinta colocação com um desfile memorável sobre Orfeu. Contratado pela Grande Rio em 2001, Joãosinho viu os problemas de saúde se agravarem e alternou bons e maus momentos na escola de Caxias. Em 2005, encerrou a carreira no Carnaval carioca com um décimo lugar na volta da Vila Isabel ao Grupo Especial. Durante o desenvolvimento do enredo 'Singrando em mares bravios… E construindo o futuro', o artista sofreu um novo derrame, o que prejudicou sua participação na concepção do desfile.

Em julho de 2006, Joãosinho Trinta sofreu dois AVC´s (Acidente Vascular Cerebral) e mudou-se para Brasília, onde recebeu o título de Cidadão Honorário em 2010. João tentou também eleger-se deputado distrital, mas não obteve sucesso. Além da carreira de sucesso no Grupo Especial do Carnaval carioca, Joãosinho Trinta foi tricampeão do Grupo de Acesso pela Acadêmicos da Rocinha e ajudou a levar a escola para o Grupo A, onde se encontra hoje. Em 2004, foi tema do enredo da agremiação de São Conrado e, em 2009, desfilou pela Grande Rio, quando era um dos homenageados do enredo

O Carnaval paulistano também foi palco para talento de Joãosinho Trinta. Ele foi vice-campeão com a Unidos do Peruche nos Carnavais de 1989 e 1990. Recentemente, João Trinta voltou a morar em São Luis, onde foi internado na última quinta-feira com quadro de pneumonia e insuficiência cardíaca.

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