Alegria resiste a dificuldades e abre o sábado com desfile correto

Por Thiago Barros

alegria_desfile_2018_33-5O aguardado sábado de desfiles da Série A começou com a Alegria da Zona Sul fazendo uma das suas melhores apresentações dos últimos anos. Tirando 2016, com uma décima colocação, a escola vem brigando sempre para não voltar à Série B. Em 2018, ela deve até ficar novamente na parte inferior da tabela, mas deixa a Sapucaí com o dever cumprido.

Afinal, teve uma comissão de frente com dança afro que terminava com a mensagem contra a intolerância religiosa e levantou a Sapucaí, além de alegorias e de fantasias simples, no entanto, com bom acabamento e leitura do enredo. Mas é importante se registrar também que houve pontos negativos, como dificuldades na coreografia do casal, por conta do vento, além de dificuldades em harmonia e evolução.

alegria_desfile_2018_40Enredo

A Alegria da Zona Sul trouxe o enredo “Bravos Malês! A Saga de Luiza Mahin”, assinado por Marco Antônio Falleiros. Celebrava a história da negra alforriada e quituteira que foi uma das principais responsáveis pelas revoltas e levantes de escravos na Bahia no início do século XIX.

O desfile da Vermelha e Branca da Zona Sul foi dividido em quatro setores: “Gbé-Dotó Dahomey”, “Da África à Baía de Todos os Santos”, “A Insurreição das Senzalas” e “Salaam Aleikum, Malê!”. Não eram coisas simples de entender sem as explicações da escola. Porém, tendo esse background, tudo se encaixava corretamente.

alegria_desfile_2018_73Destaque para as fantasias de cunho árabe, como a Ala 12 (Luz do Ramadã) e a Ala 14 (Palavras do Islã), além da terceira alegoria, A Insurreição das Senzalas. O único porém que merece ser citado é que o desfile falou muito mais dos malês e dos negros em geral do que de Luiza Mahin em si. Resta saber se isso será julgado negativamente.

Alegorias e Adereços

A Vermelha e Branca da Zona Sul veio com quatro alegorias. O abre-alas era “DànGbé – O Templo das Divinas Serpentes “, com tons roxos e rosas e grandes serpentes na sua parte frontal. Este é o espaço sagrado erguido em todo o domínio do antigo Daomé e foi muito bem retratado. Afro, mas diferente, colorido e com bom acabamento.

alegria_desfile_2018_76-4E essa foi a linha seguida em todos os carros da Alegria: até simples na concepção, mas com execução sem problemas de acabamento, o que já faz grande diferença na disputa da parte inferior da tabela da Série A. Muitas agremiações passaram com pequenas falhas, mas isso não aconteceu na Vermelha e Branca.

“As Águas Claras Banham a Cidade Baixa” era a segunda alegoria, representando as transformações de Salvador no fim do século XVIII, com destaque para as águas claras da Baía de Todos os Santos, que tornou-se o reduto de negritude. Azul e com os efeitos de espelhos, teve um visual bem bacana.

alegria_desfile_2018_75O terceiro carro alegórico, “A Insurreição das Senzalas”, trazia o levante dos Malês em 1835, com o objetivo de “africanizar” Salvador. Um carro cheio de características bem baianas e tradicionais africanas. Palha, tons em marrom, e novamente, o acabamento impressionou, até nas principais esculturas.

Fechando o desfile, a última alegoria, “A Casa da Sabedoria”, um tipo de construção da “idade do ouro do islã”. Diz a lenda que Luiza Mahin retornou para a África e ergueu uma dessas para guardar as memórias de todos os malês. Uma alegoria com uma pegada de dourado e muito bem feita.

Comissão de Frente

alegria_desfile_2018_18A comissão de frente, “Voduns – O Matiz da Criação Jejê-Nagô”, falava dos voduns, os seres divinos, que, mantém intensas ligações com a natureza. Através da execução da dança, os feiticeiros e os voduns se preparam para o grande Xirê, a roda sagrada onde se reúnem as divindades.

Coreografada por Leandro Azevedo, a comissão de frente da Alegria da Zona Sul tinha 14 componentes, sendo 10 homens e 4 mulheres, representando os voduns que são os responsáveis pela criação de todo o mundo. Dois deles eram os feiticeiros com a tarefa de evocar estas entidades.

alegria_desfile_2018_20-2Uma dança forte, com passos africanos e coreografias específicas para cada vodum. Tudo executado corretamente em todos os módulos. Simples, porém mostrando que pode-se fazer uma comissão, em 2018, com dança, interpretação e nada mais. Claro, havia uma surpresa para o final que levantou a Sapucaí.

Mas não foi nada tecnológico ou de reinventar a roda. Uma simples faixa surgia dos bastões dos feiticeiros: “Não à intolerância religiosa”. A única crítica é que essa foi a única grande aparição dos feiticeiros. Os voduns eram excelentes, mas eles tinham pouquíssimos passos e importância na coreografia.

Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira

alegria_desfile_2018_24Diego e Alessandra, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Alegria, vinham representando “O Esplendor do Gbé-Dotó”. Ele é Lissá, o princípio masculino ligado ao Sul. Ela é Mawu, princípio feminino ligada à Lua. Isso ficou claramente mostrado pelas fantasias. Ele bem amarelo e laranja, ela mais branca com dourado. Muito belos.

Entretanto, a apresentação da dupla não foi das melhores. E nem por causa deles, que tiveram até um bailado correto na maior parte do tempo e apresentaram-se com muita graciosidade, sorrisos um para o outro a todo o momento, além de cantarem a letra do samba e alternarem bem entre movimentos clássicos e passos de acordo com os versos.

alegria_desfile_2018_28Só que o forte vento que bateu na Sapucaí durante a apresentação da Alegria da Zona Sul fez com que, no módulo 2, a bandeira de Alessandra enrolasse e, posteriormente, tocasse bem de leve nas penas do esplendor de Diego, que no módulo 1 também teve um pequeno deslize, ao pisar, também de leve, na barra da saia dela.

Algumas penas brancas até saíram. Nada que chamasse muito a atenção, porém que pode ter sido percebido pelo julgador. As penas, aliás, também prejudicaram quando, graças ao vento, subiram muito e cobriram a parte frontal da porta-bandeira. Foram as penas de cor cinza, que ficavam um pouco acima da barra da saia. Uma pena.

alegria_desfile_2018_32Fantasias

As baianas da Alegria da Zona Sul vieram com fantasias que representam o vodun Nanã Buruku. Ela é a divindade mais antiga do culto Jeje, responsável pela criação do mundo segundo as tradições religiosas do Daomé. Com tons de roxo e rosa, elas, que vinham na Ala 4, foram o grande destaque do primeiro setor da escola.

A Ala 6, Negros Irmãos, com tons de dourado e preto, também estava bem agradável visualmente. Outra que se destacou positivamente foi a Ala 12, Luz do Ramadã, com tecidos bem típicos da região árabe. Mas também houve fantasias não tão boas, como a dos Passistas (Ala 9 – Mussurumim), que sofreram com os chapéus e esplendores.

alegria_desfile_2018_54Mas, no geral, foi um bom trabalho de Marco Antônio Falleiros nesse quesito. O visual da escola era simples, dentro das possibilidades da agremiação, porém bem feito, com uma atenção bacana aos detalhes, tanto nas indumentárias quanto nas alegorias. Merecem elogios pela dedicação nesse aspecto.

Samba-Enredo

O belo samba da Alegria da Zona Sul é assinado por Samir Trindade, Telmo Augusto, Fernandão, Girão, Marco Moreno, Marcelão da Ilha e Thiago Meiners. Dizendo que a “Alegria é resistência”, é um canto de exaltação à negritude e aos malês. Igor Vianna conduziu a obra, cujo refrão principal era muito forte.

alegria_desfile_2018_10Um detalhe bacana do samba é que ele é cantado na primeira pessoa. É como se a própria Luiza contasse sua história. Um dos versos mais bacanas, de uma variação melódica interessante e que “pegou” facilmente até quem estava só assistindo na arquibancada, era justamente “Fui batizada Luiza, vi a fúria do invasor”.

Harmonia

Apesar da boa atuação de Igor Vianna e da qualidade do samba-enredo, o canto da Alegria da Zona Sul não foi dos melhores. O chão da escola passou apenas morno, com pouquíssimas alas para destacar positivamente. A Ala 12 foi cantou de maneira razoável, e os compositores fecharam com uma empolgação bacana.

alegria_desfile_2018_29Por outro lado, foi possível ver muita gente calada ou cantando somente um verso ou outro do samba. A Ala 3, Invasão Muçulmana, Ala 5, Xaxá, Mercador de Escravos, Ala 7, Escravos de Ganho, Ala 18, Os Poemas de Luiz Gama… E todas elas também com problemas de evolução, sem brincar Carnaval.

Evolução

Aliás, a evolução da escola cometeu duas falhas. A primeira foi essa: diversas alas em ritmo de procissão. Componentes apáticos, sem evoluir, sem se movimentar, sem fazer aquela festa que sabemos que a comunidade da Alegria da Zona Sul pode. Outra foi a falta de organização de algumas alas.

alegria_desfile_2018_58Logo no começo, as alas 3 e 4, que tinham fantasias bem parecidas, com a cor dourada predominante, se confundiram. A parte frontal da 4, em diversas oportunidades, entrou na traseira da 3. Uma dessas ocasiões foi bem na frente dos julgadores do Módulo 3. E, no fim, a escola ainda deu uma aceleradinha.

Pegada afro dá certo!

A temática afro é comum na Vermelha e Branca. Sua melhor colocação na Série A nesta década, em 2016, foi falando sobre “Ogum”, quando a escola ficou com o décimo lugar. Provavelmente, a Alegria da Zona Sul deve alcançar um resultado como esse, ou talvez até sonhar com algo melhor.

Vale destacar positivamente, para encerrar, a ala 17, Tambor de Crioula. Era um grupo coreografado, em homenagem ao folguedo tradicional da região do Maranhão, onde acredita-se que Luiza tenha se refugiado. A apresentação até enrolou um pouquinho a ala 18, que vinha logo atrás, mas levantou o público e foi empolgante e bonita.

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