Alex promete falar de Londres com a cara da Ilha

 

 

Falar de Londres, da relação entre os jogos olímpicos da capital inglesa e do Rio de Janeiro, e exaltar a cultura britânica, tudo isso com a chancela irreverente da União da Ilha do Governador. Está é a proposta do carnavalesco Alex de Souza, que em seu segundo ano na escola, promete um desfile com a cara da Tricolor Insulana no Carnaval 2012. Se depender do artista, teremos muito molho inglês na feijoada e muito chá com cachaça. Não que a mistura entre as iguarias brasileiras e britânicas ganhem referência clara dentro do enredo. A expressão, presente no samba-enredo, é apenas uma analogia para facilitar o entendimento da forma que a União da Ilha vai desenvolver ser enredo na Marquês de Sapucaí.


– 2012 é um ano olímpico e Londres é a cidade que vai sediar os jogos. Ela também irá anteceder os Jogos de 2016, que despertam grande expectativa no carioca. Eu já vinha traçando um enredo sobre a cultura britânica há muito tempo e não sabia como encaixar. Esta foi uma excelente oportunidade. Londres é a capital do que já foi o maior Império da Terra. Se dizia que era o Império onde o sol jamais se punha, já que em alguma colônia britânica ao redor do mundo existia um raio de sol. Nunca nenhuma escola de samba falou sobre a cultura britânica. Já houve citações, na própria Ilha e na Grande Rio, mas agora é um registro maior. São dois mil anos de história que serão contadas do jeito da União da Ilha. Não vou contar esse enredo de uma forma careta – promete Alex de Souza.


O carnavalesco citou o histórico de enredos bem-humorados e delirantes da União da Ilha como algo que vá acrescentar ao espírito alegre de seus desfilantes no Carnaval 2012. Por trás dessa roupagem, está um extensa pesquisa feita por Alex para incluir no desfile da escola aquilo que há de mais relevante na história de Londres.


– Tive vontade de colocar tudo no enredo. Não só pelo registro histórico, mas por que são muitas coisas interessantes. Ficou difícil para escolher. Abri o leque de uma tal maneira que o enredo não se limitou a história de Londres, assim como Atenas não se limitou a história da própria cidade na cerimônia de abertura. Vamos mostrar história, arte, cultura, ciência, esporte. Tudo cabia. Tinha grandes referências, obras e legado. Tentei apresentar isso de forma clara e compacta – diz Alex.


O carnavalesco citou a cerimônia de abertura das olimpíadas de Atenas para começar a explicar o desenvolvimento do enredo. Ele revelou que sempre teve fascínio pelo evento e a abertura do desfile da Ilha será nos mesmos moldes. Presentes neste momento, a comissão de frente, uma ala, um pede passagem e o abre-alas. De acordo com Alex, o pode passagem fará referência à forma que União da Ilha abria seus desfiles na década de 70. Ele será uma imensa réplica Palácio de Buckingham, mas ao invés dos sisudos guardas reais, belas mulatas farão a recepção.


A partir do segundo setor, a escola mostrará os povos celtas, a fundação da cidade pelos romanos e o período da Idade Média. Em suma, uma síntese da fundação dos povos e reinos britânicos. O terceiro setor traz a Idade Moderna e o período Elisabetano. A conquista dos mares e o início da colonização pelo mundo. Além disso, o teatro ganha menção especial, principalmente com William Shakespeare.


 

–  No quarto setor eu vou trazer as colônias britânicas. Trago nas fantasias os pedacinhos do mundo que pertenceram a Inglaterra. No fim, eu culmino com o carro de Hong Kong, que foi a última colônia inglesa, entregue em 1997. Neste setor eu poderia trazer todas as colônias no carro, mas prefiro cada vez mais limpar as alegorias. As pessoas precisam bater o olho e entender o que está acontecendo – explicou ele. O quarto carro da União da Ilha traz um imenso dragão em vermelho e amarelo. Destaque para os detalhes no acabamento e iluminação da alegoria. Promete causar impacto na Sapucaí.


O quinto setor é uma referência aos grandes cientistas ingleses. Nomes como Isaac Newton e Charles Darwin, além de muitos outros serão lembrados. Na sequência, é a vez da Ilha falar sobre o período Vitoriano e a Revolução Industrial. A literatura britânica, que se destacou bastante nesta época também será lembrada. Alex promete explorar bastante os personagens de mistério e terror dos romances ingleses, além dos infantis, como Alice e os integrantes da Fantástica Fábrica de Chocolates.


– O sétimo setor é mais contemporâneo. Falaremos da cultura pop-rock de Londres, os hábitos, a moda. A invenção da minissaia. Grandes figuras do cinema: Chaplin, Hitchcock, 007. E encerro com o grande Museu de Cera, com todos os personagens históricos de todos os tempos. Estive em Londres em 1995 e 1996, vi de perto e fiquei bastante impressionado com a viagem pela história que você faz dentro desse museu. Nem imaginava que essa visita pudesse me ajudar a desenvolver esse enredo. Tudo é muito surreal. Eles contam a história de uma maneira fantástica. Isso é carnaval. É a prosa com conteúdo poético. A imagem tem que te levar para um mundo de sonhos – explicou o carnavalesco.


Para encerrar a grande festa que a Ilha promete fazer na Avenida na segunda-feira de carnaval, Alex de Souza usará uma paixão bem significativa, tanto para ingleses quanto para os brasileiros: o futebol. Ele será o elo de ligação entre as duas nações, sedes das próximas duas olimpíadas. O carnavalesco fará uma brincadeira com a seleção brasileira dos sonhos e a seleção inglesa dos sonhos. A Ilha avançará no tempo e mostrará que 2016 é agora!


Para colocar tudo isso em prática, Alex admite que os acontecimentos provenientes do incêndio de fevereiro do ano passado no barracão da escola atrapalharam um pouco. A Ilha, assim como Portela e Renascer, só pôde se instalar na Cidade do Samba na reta final da produção de seu carnaval. Ele revelou que a ideia inicial era levar mais tripés para contar a história de Londres, mas teve que condensá-los junto às propostas das alegorias.


Apesar de saber que a torcida insulana deposita grande confiança em seu trabalho, o artista faz questão de lembrar a importância das figuras que não aparecem para o grande público, mas são primordiais para o sucesso da escola.


– Sou apenas um cara tentando fazer as coisas certas e me matando para isso acontecer. Não sou o único. Aqui cada um tem a sua função e ninguém é menos importante. Se alguém esquecer um saco plástico em cima de uma alegoria, por exemplo, todo o conjunto alegórico é punido. Se alguém tirar o chapéu, a escola perde ponto. Carnaval é muito perigoso para se atribuir méritos e culpas a apenas uma pessoa.


Outra tecla constantemente batida por Alex durante a entrevista foi o caráter de devaneio dado ao enredo. Perguntado se essa sensibilidade artística tem faltado aos julgadores, o carnavalesco respondeu:


–  Não sei quem são os julgadores, conheço um ou dois. O que passa na cabeça deles eu não sei. Quem passa o que eles ouvem no curso de jurados? De que forma é passado? Eu não sei. Carnaval é uma mina! Se você for muito reto e contido, eles dizem que você não tem criatividade. Se você devaneia, está delirando na maionese. Mas foram os grandes delirantes que fizeram a história do carnaval: Joãosinho Trinta, Fernando Pinto, Renato Lage e, em parte, o Paulo Barros. Se o jurado compreender ou não é outra história. Não esqueço do ano que o Paulo Barros fez o carro do fuscão preto e a jurada disse que aquilo era uma instalação da bienal. E daí? Ela tem o direito de não gostar, mas ele tem todo o direito de criar. A gente faz e espera ter sorte de ser bem compreendido. Agradar ou não é muito relativo.


Com o enredo ‘De Londres ao Rio: Era uma vez… Uma Ilha… A Tricolor Insulana tentará o primeiro título de sua história no Grupo Especial desfilando como segundo escola da segunda-feira de carnaval. A melhor colocação da escola na elite do carnaval foi um vice-campeonato em 1980. 

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