André Diniz fala da disputa de samba da Vila, suposta briga com Martinho e o futuro do carnaval

Um dos maiores compositores do carnaval, o professor de história André Diniz é novamente autor do samba-enredo da Vila Isabel para o Carnaval de 2016. Ao lado do parceiro Leonel, a dupla conversou com a equipe do site CARNAVALESCO. Confira o bate papo.

* OUÇA AQUI O SAMBA DA VILA ISABEL PARA 2016

Presença dos alunos nas disputas
André Diniz: "Eu trago alunos para a disputa desde 2004. São mais de dez mil no total. Se você colocar uma média de 500 alunos por ano. O ano da Angola foram duas mil pessoas. É o aluno, ex-aluno, amigo, o primo. Quantas pessoas se transformaram em Vila Isabel, a partir da disputa por serem meus alunos, está ficando incalculável. Acho que mais que a torcida do Botafogo. (No momento, Leonel ri e diz 'Qual é, cara? Está zoando'). A maioria dos colégios eu já sou professor, difícil eu ficar num colégio, um ano, dois anos, eu sou professor há dez anos. Então, as crianças do colégio já sabem que tem professor do ensino médio que é compositor também. Todo mundo sabe. Às vezes, o colégio pede para eu fazer palestras também para os garotos mais novos sobre o carnaval. Então, já é meio folclórico no meio dos colégios – explica. Leonel diz: – Ele dá aula com o cavaquinho. Faz paródias. Fica mais fácil e todo mundo se amarra".

Modelo de disputa de samba
André Diniz: "Olha uma coisa que eu sempre falei é que ela deveria ser curta. A disputa de samba da Vila foi bem curta. Eu não nego que o nosso samba, o samba às vezes tem um processo de amadurecimento dentro da disputa. Eu senti que o meu samba ainda precisava de mais duas semanas para amadurecer, tanto é que nós precisamos fazer umas mudanças, não foi a escola que quis mudar. A mudança foi proposta da parceria. Algumas propostas da parceria. Só a do Maracatu que foi um pedido de Pernambuco. Acho que a disputa tem que ser um pouco mais longa do que a Vila, seis semanas, está de bom tamanho. Eu não gosto dessa parafernália que temos que fazer, eu faço porque é regra do jogo, mas eu acho que está demasiado. A disputa de samba em quatro semanas nós gastamos R$ 40 mil. Uma coisa absurda. Eu acho também absurdo o horário. O Rio de Janeiro não é mais o mesmo do que 30, 40 anos atrás. Esse negócio de madrugada também já deu. O horário de terminar uma disputa de samba, 5 horas ou 6 horas da manhã, toda a semana você fica lá, meu pai trabalhava na década de 70, na década de 80, a maioria era funcionário público, todos eram valorizados, trabalhavam 8 horas por dia. Hoje nós trabalhamos 12, 13, 14 horas por dia. Antigamente, o fim de semana era para descansar. Agora, por exemplo, o cara que trabalha sábado, ele vai trabalhar 10 horas no sábado, vira a noite numa disputa de samba e dorme no domingo inteiro. Essa coisa de horário, a Unidos da Tijuca e a São Clemente marcaram um golaço de colocar a disputa de samba mais cedo, é melhor pra todo mundo, quem bebe cerveja, bebe um pouco mais cedo, quem arruma uma mulher ou alguém para sair, 1 hora da manhã você sai melhor do que 4h, 5h da manhã. Essa tradição está legal de cair porque o Rio de Janeiro não é o de outra época. 

Discussão com Martinho da Vila e briga na parceria
André Diniz: "Eu fiz samba com Martinho este ano e no ano da Festa do Arraiá (2013). Ninguém é tapado ao ponto de não perceber que o estilo do Martinho é totalmente diferente do meu. O que o Martinho acha lindo, eu acho também porque eu sou fã dele, mas as coisas que eu de repente acho legal, porque são mais modernas, ele não compra tudo. Então, eu faço samba com o Bocão e com o Leonel, eu discuto e brigo com eles há 20 anos. Como é que eu vou discutir com o Martinho que é um cara que eu não tenho tanta proximidade artística.

Lógico que no meio do processo da construção do samba, nós tivemos momentos de tensão, como eu tenho em todos os anos, como eu tenho com o Arlindo, com o Bocão, e o Leonel. O Martinho foi absurdamente respeitoso, carinhoso, a gente dava gargalhada quando falava disso, ele falava: 'a nossa estética é completamente diferente'. O tempo inteiro ele fez muitas concessões, nós fizemos muitas concessões.

O legal desse samba é você ouvir as pessoas falando "Pô, André, esse samba não tem a sua cara", e o Martinho escutando 'pô, as pessoas estão dizendo que o samba não tem a minha cara'. Que bom! É sinal que a gente conseguiu misturar os estilos e a Martnália veio pra somar pra caramba. E, assim, existe um grande problema nosso (André e Leonel) com os artistas. Nós somos o sol e eles a lua. Quando eles estão dormindo, eu estou acordando. Uma vez o Arlindo me ligou às 3h30 da manhã para falar de samba. Eu falei ‘ô, meu irmão, você está de sacanagem? Você está me ligando às 3h30 da manhã para falar de samba? Amanhã, às 6h30 já estarei saindo de casa para às 7 horas dar aula. De vez em quando eu ligo para ele às 8 da manhã, mas é só para me vingar mesmo. Para acordá-lo às 8h da manhã. O grande problema da construção do samba foi que a gente demorava um pouco a se encontrar pelos horários. Agora, lógico, houve divergências, os estilos são completamente diferentes. Divergências são normais. Agora o rompimento, briga, não, pelo contrário, eles foram absurdamente carinhosos. Tive muito orgulho de trazer os dois para a minha casa. De conhecer a casa da Martnália, a casa do Arlindo, a casa do Martinho, foi muito bacana. Comemos joelho de porco juntos, foi muito legal".

Mudança no modelo do carnaval
André Diniz: "O carnaval precisa de mudanças profundas. Está cada vez mais distante das classes médias, das massas, dos mais humildes. A garotada nova escuta funk. Acho que nós precisamos das cabeças do carnaval pensando em torno disso. Como fazer para que essa festa se perpetue com a grandiosidade que tem por mais tempo, porque houve uma época em que você tinha fila para conseguir fantasias. Depois você começou a dar as fantasias, e hoje, a gente sabe que tem escola que não consegue 4 mil componentes para desfilar. Hoje em dia você pega as baterias, com raras exceções, a Vila Isabel é uma dessas, que é uma bateria muito do morro. A bateria são sempre as mesmas pessoas. O cara que toca no grupo de Acesso é o mesmo no Acesso B, é o mesmo cara que toca na Intendente, é o mesmo cara que toca na Vila. Quando eu era adolescente, na minha sala de aula todo mundo sabia todos os sambas, hoje, termina o carnaval, eu canto o refrão do samba campeão e nenhum aluno, absolutamente nenhum aluno canta junto.

O carnaval está ficando um nicho só para esse povo nosso. É uma festa só para este nicho. Nós somos celebridades, eu chego numa quadra, em São Paulo e dou autógrafos e tiro fotos, mas na 28 de setembro, no próprio bairro onde eu tenho uma história de sucesso e não paro pra dar autógrafo e tirar fotos com ninguém e a maioria das pessoas não me reconhece. Imagine fora do bairro. Nós somos celebridades desse nicho e estou falando de compositor, é difícil um compositor celebridade, mas assim, o Wander Pires, Tinga, Igor Sorriso, que também não são incomodados, ou seja, são pessoas desconhecidas. Agora, o Neguinho da Beija-Flor, que é de outra geração, Dominguinhos da Estácio. Então, quer dizer, houve uma mudança. O grande público não está mais do lado da gente. A gente vai ter que correr atrás desse grande público e isso passa uma discussão profunda pra cacete. A discussão passa por tamanho de fantasia. Ninguém quer carregar mais de 30 quilos por 1km. É melhor colocar uma camiseta e ir para um bloco ou ir para a Bahia. A festa está absolutamente distante de ser agradável para um grande público. Eu acho que é uma discussão muito profunda e tem que ser mudada a estrutura do desfile. O processo é estrutural mesmo".

Fazer samba de acordo com a sinopse ou criar sem a sinopse
André Diniz: "Eu acho que tem de ter fuga. Quando o enredo é ruim, você tem que colocar muitas coisas, mas quando o enredo é bom. O samba da Portela, o enredo é Bahia, e os caras fazem um samba bacana daqueles, amarrando um pouco. Mas o melhor é ter um tema bom. Amarrando um pouco, que a gente desamarra. Compositor malandro, desamarra. Só que a direção da escola ou o carnavalesco que quer sobrepor. A Rosa, uma vez falou isso comigo. Rosa é Rosa, né? "André, isso é uma escola de samba, não é uma escola de fantasias, ou de alegorias, é uma escola de samba. Então, se o samba for bom pra cacete, eu mudo o meu carnaval por causa do samba e não ao contrário". Por isso que Rosa é Rosa. Se o samba está um pouquinho fora da ordem, inverte um carro, meu irmão. Se o cara colocou ao contrário e o samba é bom pra cacete, inverte um carro. Ah, mas as cores das fantasias, ainda não começou a fazer fantasias, muda os tons. Bota a mesma fantasia, muda os tons e vamos embora. É escola de samba, e o samba que é o protagonista do negócio, o samba e a bateria". 

Disputa de 2016
André Diniz: "Acho que foi uma vitória justa. A final foi muito bonita, muito bacana e comprovou, assim, a diferença do nosso samba para os outros concorrentes. Bons sambas, mas acho que não só no coração da escola, mas na qualidade, o nosso samba é bem superior aos outros que já foram apresentados, então, acho que foi uma vitória tão justa quanto bonita na final".

Mudanças no samba após a final
André Diniz: "Um samba com estilos tão diferentes, quando você vai para a quadra, você sente algumas necessidades, às vezes letra está demais em alguns momentos. Eu senti a necessidade de limpar um pouco em quantidade de palavras, em especial, naquela parte do Pai Arraiá, até o liberdade se conquista. E o Martinho sentiu necessidade de fazer algumas mudanças de letra estética. E teve o negócio de Maracatu, que foi um pedido de Pernambuco. Na primeira versão não tinha o Galo da Madrugada, quando nós apresentamos para o carnavalesco, ouvimos que ele gostaria muito da citação ao Galo da Madrugada, que está no fim do desfile. Depois o pessoal de Pernambuco sentiu falta do Maracatu. Então, houve um pedido da escola que se colocasse o Maracatu junto com o Galo da Madrugada. O resto foi de mudanças estéticas propostas pelo Arlindo, pela Martnália e pelo Martinho. E no nosso caso, eu e o Leonel, tiramos um pouquinho de letra em algumas partes para facilitar o canto da 
escola".

Ideias para novos sambas
Leonel: "O André é muito maluco. Ele tem umas ideias assim muito loucas, uma já foi elaborada, Graças a Deus, e com muito sucesso que foi em Angola com aquele contracanto. Estávamos esperando a oportunidade, quando nós falamos para o Arlindo, ele chamou a gente de maluco. Ele disse ‘ Vocês são loucos. Isso não vai funcionar’. E foi aquele sucesso que foi. Tem umas coisinhas que a gente não vai falar, mas está na mente. Olha o tamanho da mente da criança, está na mente, mas a gente está guardando".

Futuro da Vila Isabel
André Diniz: "Sonho com a Vila Isabel da sua comunidade, com a Vila Isabel que nem está agora, nos braços do povo dela, onde as pessoas que vem, chegam para somar, somando mais respeitando as coisas que existem aqui. A gente está conseguindo construir isso de novo. Uma escola unida, que respeita suas tradições, suas convicções, suas origens. Eu acho que a gente quer uma Vila vencedora, mas uma Vila. Quero ser tricampeão do carnaval, quero ser tetracampeão do carnaval, penta direto com a Vila. Então, falta muita coisa para a escola e a gente sempre quer estar dentro, ajudando a escola com o samba nosso ou não".