Aos Mestres loucos com carinho

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Nos últimos tempos tenho assistido com freqüência a um documentário etnográfico de possessão Hauka(uma seita do norte da África) no meu trabalho. Neste o diretor traça um paralelo entre o transe e uma relação jocosa, uma caricatura do regime colonial inglês na região. O nome do filme: “Os mestres loucos”.

Única e exclusivamente como correlação o título do filme, lembrou-me de alguns dos meus mestres na apreciação desta forma sublime de fazer carnaval que são as escolas de samba. Eu me refiro aos coordenadores e organizadores do Troféu Samb@-net. Talvez até possa compará-los aos Hauka no que se refere à situação quase de transe que pressupõe a organização da festa. Pude conferir os bastidores da mesma em um período como colaborador (uma espécie de estágio antes da aceitação definitiva no grupo, enquanto coordenador) e acreditem há muito mais do que loucura no trabalho desses caras. São horas de noites mal-dormidas, embrenhados em reuniões agitadas que adentram madrugadas. Reuniões que começam pouco depois da festa, passam pelas acalorada decisão dos prêmios até chegar no que vocês curtem em maio na quadra da Tijuca.

Já na festa o único momento em que eles relaxam é no fim quando todos sobem ao palco confraternizando com a melhor escola do Acesso A. Entretanto, durante ninguém para. Um controla a entrada, outro encaminha convidados, outro cuida do camarim, outro atento para o andamento do roteiro no palco.

A loucura em sua essência é fazer uma festa desse porte para escolas dos Grupos A,B e C. Hoje até podemos dizer que a atenção da mídia aumentou em relação a esses desfiles, especialmente com a entrada da nossa mídia especializada na internet. Pensemos nos primórdios da festa para constatarmos o quão difícil era imaginar uma festa para o grupo A, que dirá o Grupo B. Retornem até o ano de 1998 quando nem registros dos sambas do Grupo B têm na internet. A conclusão que tiramos é que, de fato, o prêmio teve seu papel no crescimento dos desfiles. É um componente que se alimenta dessa atenção do público mas simultaneamente o alimentou.

São loucos em sua essência que ensinam,  mestres tal qual o filme. Muito do que sei hoje sobre escolas de samba aprendi com nomes com Chico Frota,Fábio Pavão, Jorge Mendes e Rafael Marçal, ainda hoje coordenadores; Anderson Baltar, Felipe Ferreira e Eugênio Leal, que já foram coordenadores. Gente que me ensinou e continua ensinando a apreciar da mais simples a mais requintada escola de samba.

Dedico esta aos meus “mestres loucos” que trabalham pelo sucesso desta premiação. Estes que contam com a legitimidade das centenas de pessoas que lotam a quadra da Tijuca todos os anos.Simultaneamente legitimam o Grupo de Acesso  com a dignidade que os resultados oficiais não tem em alguns anos. Estarei pela primeira vez em 6 anos afastado e sem poder comparecer a festa, mas ciente de que será a melhor de todos os tempos.

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Então podemos iniciar a segunda parte da série de desfiles do Grupo D. Lembrando que semana que vem passaremos a acompanhar e relembrar os desfiles do Grupo C de 2011, uma verdadeira maratona que durou mais de 15 horas com 16 escolas em desfile.

Mocidade Unida de Jacarepaguá

A Mocidade Unida é apenas mais um exemplo de escola que mudou completamente sua cara neste ano de 2011. Com o melhor enredo do Grupo D fez um desfile leve e agradável de se acompanhar. Uma pena  que o perverso regulamento no que tange ao acesso e descenso das escolas permitia que apenas uma escola subisse ao Grupo C, não fosse isso teríamos uma motivada Mocidade Unida representando a Cidade de Deus no Grupo C. As fantasias da escola eram de uma simplicidade e beleza singela que poucas vezes vemos no carnaval atual. E li estavam retratadas toda a garra e orgulho daquela gente aguerrida da CDD. Que construiu a história de um lugar e construiu sim parte importante da história da cidade do Rio de Janeiro.

Gato de Bonsucesso

Leitores preparem-se para um sensacional trocadilho: quem não gostaria de ter na sua escola um cantor da “tarimba do Taroba”. A segurança com que conduziu o samba do Gato foi um dos pontos fortes do desfiles. O Gato de Bonsucesso é outra daquelas escolas que seduzem por seu exotismo. Encravada no coração da Maré, o Gato tenta se firmar no carnaval da cidade como representante de seus milhares de moradores. Já fazem alguns anos que acerta na construção da parte plástica de seu desfile. Sempre falta algo mais que seus componentes terão que descobrir para voltar ao Grupo C.

Unidos do Anil

A vibração do presidente Moisés na concentração(ele é o cara que canta entusiasmadamente ao lado do carro de som) é exemplo de como não faltou garra a escola no seu desfile. Infelizmente um enredo confuso e conseqüentemente um desenvolvimento falho resultaram em um desfile não tão atraente do Anil. Chamo atenção ainda para a presença do mestre de bateria da São Clemente ao lado do mestre Nandinho. Bateria que foi ponto positivo do desfile com um desenho muito gostoso de ouvir nas terceiras.

Delírio da Zona Oeste

Um desfile muito discreto mas bem inferior aos demais foi o que apresentou o Delírio em 2011. Bem diferente do criativo desfile com o enredo sobre “silvas” de 2010 o Delírio simplesmente passou pela Intendente. Infelizmente não conseguiu se manter e desfilará no Grupo E em 2012.

Unidos de Cosmos

Aqui novamente temos o esquenta maravilhoso da Unidos de Cosmos com o samba de 2005. Não me canso de ouvir esse sambaço. Aqui ele está na voz de um dos compositores, Sandrinho do Beco. E a Unidos de Cosmos vai se firmando como escola militante e combativa. Tudo graças a um discurso elaborado do presidente e educador José Geraldo. Neste ano um enredo sobre o petróleo foi permeado por um discurso nacionalista contando inclusive com o apoio de centrais sindicais de petroleiros.

Acadêmicos de Vigário Geral

Mais um a escola da zona da Leopoldina em busca de um lugar ao sol. Ano que vem a disputa com a Unidos de Lucas se repetirá no Grupo D. Apesar disso vemos muitos integrantes da Unidos de Lucas desfilando na Vigário Geral. Talvez seja isso que os dirigentes e governantes não entendam. As escolas de samba no Rio de Janeiro podem funcionar como pólos culturais de intergração social. Assim que duas escolas localizadas em áreas que durnte muito tempo encenaram confrontos sangrentos de gangues rivais hoje celebram e confraternizam moradores de dois bairros. Acadêmicos de Vigário Geral não teve tanta sorte quanto a Unidos de Lucas, mas que no ano que vem as duas escolas proporcionem um belo desfile ao público presente na Intendente Magalhães.

Unidos de Manguinhos

Finalmente, coube a Unidos de Manguinhos a difícil tarefa de fecjhar a noite de desfiles. Com o público reduzido foi outra escola que desfilou apenas discretamente pela Intendente Magalhães. Apesar de atrapalhar a posição de desfile não explica em si o resultado. Como veremos na próxima coluna, sabendo trabalhar com o horário e tendo estrutura para isso uma escola pode enfrentar até um desfile começando 8 horas da manhã, como foi o caso do Favo de Acari no Grupo C.

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