Aquele carnaval que passou

0 Flares 0 Flares ×

Pois é… a campeã saiu do domingo, contrariando as estatísticas e vindo lá do "Balança" ainda por cima, com joelho e tudo; e a escola que subiu não caiu, contrariando os outros carnavais.

O que me fascinou no carnaval? Olha, gostei de muitas coisas, de outras nem tanto e de algumas não gostei nada.

Fascinar, fascinar mesmo… duas coisas: as pipas voando do carro da Estácio visto de longe e de trás e também o beija-flor da Beija-Flor.

O carro da Estácio por representar tudo, mas tudo mesmo, que considero o mais importante, o mais bonito, o mais relevante dos desfiles em sua palavra chave: harmonia. A harmonia da festa do samba com a festa do carnaval. A beleza de a alegoria ser julgada por sua adequação, inventiva e beleza, nunca pela quantidade de dinheiros consumidos em sua produção.

Que solução!

Para quem não lembra, era um carro que cenografava o morro de São Carlos quando visto de frente. Por trás e de perto se via várias
hastes de algum metal, ou arame, ou ferro fino, cravadas na encosta do morro de isopor. De cor escura e finas  as hastes se confundiam com a noite, quase invisíveis. Nas pontas pipas coloridas.

Ao balancear dos carros as hastes tremiam fazendo mexer muito suas pontas e nelas pipas com suas rabiolas coloridas riscavam a noite do carnaval; como as pipas de verdade riscavam, riscam e riscarão sempre as tardes do bairro do Estácio, soltadas no ar pelos meninos do
São Carlos.

Acho até que vi o moleque Gonzaguinha ali, de verdade, antes de dar com a perna no mundo, "dibicando" e dizendo: "cheira nêgo, cheira nêgo…"

O carro passava deixando a cada pedaço de pista percorrido um cenário de simplicidade, beleza e inventiva.

E aquela comissão de frente, por que tão branca, porque tão pouca cor? Que bom que foi assim. Quem é aquele "bicho"? Aquela delicadeza de voo, de bico. Quanta leveza, que volteio, que pouso? Quem terá concebido fantasia tão pouco exuberante, tão bela, tão própria, tão brilhante… de onde terá tirado tanta harmonia?

Quanto se terá gasto naquela alegoria? Garanto que muito pouco, nada que qualquer escola que desfila na Sapucaí não pudesse gastar. De qualquer grupo.

Quanto terá sido gasto naquele tecido, naquele bico? Quanto terá custado tanta "graça". Esta a palavra: graça; com quanta graça aquela moça desfilou!
De tanta coisa gostei. Os desfiles dos dois impérios: o Serrano e o da Tijuca. Serão esses os tamanhos dos carnavais dos meus sonhos?
Estarei vendo o desfile do dia errado?

Uma beleza que nos deixa olhos para olhar para o chão; para o chão onde se dança a dança do samba.

Pequenos sonhos, dirão. Sonhos certamente diferentes daqueles do outro dia tão repletos de tanta beleza , após beleza, após beleza, após beleza, após beleza.

Beleza que nos encanta os olhos, é verdade; que nos fascina, é verdade. Que nos prende e enfeitiça o tempo. Aquela beleza que é vista pelos olhos: uma beleza.

No dia anterior, no desfile do Império Serrano, do Império da Tijuca vi belezas que brotavam do chão das escolas, da dança de seus componentes e de seus cantos.

Alegorias e fantasias absolutamente descritivas do enredo proposto, com belezas próprias nem sempre valorizadas por nossos olhos hoje tão exigentes e esteticamente tão críticos.

Como foi bom ver, ouvir, sentir aquele momento mágico da pane do som ressaltando o canto da Caprichosos e evocando o canto tão sempre calado das arquibancadas. O Império tirou de letra, mas o samba não era conhecido. Só a escola cantou… e muito.

Que pena que o som voltou.

Melhor sem som do que com o som "contra", o anti som que tanto maltratou a Vila Isabel. Há quem diga que a escola não foi prejudicada porque os julgadores relevaram possíveis falhas do canto, da dança e da harmonia. Mas e o clima da escola?

Longe de dizer que a Vila não ganhou por isto, cabe a constatação de que aquele som todo "embrulhado" foi uma ducha de água fria.

Que bom ver todas as porta-bandeiras lindas, dançando cada vez mais… sorrindo cada vez mais, todas superadas pela "marra" de tia Dodô que desfilou de camiseta de diretoria, sem a fantasia  hi-tec disponibilizada pela Portela.

Que bom rever Vilma… rever Maria Helena. Ver Renatinho Sorriso reinar além da pista limpinha, na bateria e na alegoria final da Grande
Rio…

Que outra festa no mundo? repito; que outro povo transformaria um gari em destaque de seu maior evento cultural ?

E Vilma? Eu ficava pensando ali; tanta gente vendo-a dançar com Bagdá, tanta gente que olhava sem se dar conta do que na verdade estava vendo. Rever Vilma, para mim, foi o convencimento de que ela na verdade existiu mesmo, de verdade, não foi invenção desses
"incorrigíveis contadores de histórias do carnaval

E tudo que não vi. Tanta coisa não vi.

Como queria ter visto Michael Jackson no alto daquele carro, com seus requebros, parar à sua maneira e sambar no pé, à sua maneira, deixando para nós sua lembrança com um pouco de nossa cara também.

Já pensou Michael Jackson "se acabando" de sambar lá no alto daquele carro?

Queria ter visto aquela bandeira da Tijuca tremulando enorme, ao menos no desfile das campeãs. Quem sabe ela, triunfante, nas mãos triunfantes de Paulo Barros?

Ouvir "Mangueira teu cenário é uma beleza" no esquenta da velha Estação Primeira. Não ouvi.

Em compensação ouvir o "surdo um" vindo da bateria mágica de Cissa, ou será que não ouvi direito? Vi os barracos cenográficos da Mangueira mostrando seus moradores não cenográficos: sua gente de verdade. Gente modesta, com suas fantasias simples desfilando seu orgulho de ter nascido ali e de estar vestindo aquelas cores: "nossos barracos são castelos", assim estava escrito.

Isto eu vi. E como vi.

E vi mais ainda, feliz da vida, a cara-quase-de-moleque-ainda de Jaguara Filho despontar como o melhor retrato da renovação da
Mangueira. Ele antes diretor da escola mirim, para orgulho de seu pai brilhante percussionista da banda de Zeca Pagodinho e integrante da bateria de Waldomiro, ele e aquela garotada toda criada junto. Tão jovem ainda com aquela bateria toda na mão.

Vida longa naquele posto, Jaguara; vou torcer muito por você.

Não vi a Grande Rio homenageando Tia Dodô em seu nonagésimo aniversário, seu septuagésimo sexto desfile, saindo de um tripé do
Guiness Book. Não vi.

Também não vi referência à imprensa on line na homenagem à crônica carnavalesca, já não é sem tempo.

Mas vi tudo aquilo, tantos carnavais, que vimos todos esses anos e daquela forma tão bem mostrada: que profissional terá feito aqueles ratos? Na relação simplicidade/efeito, uma comissão de frente super original.

Que tantos erros terão sido cometidos por tantas baterias sem que eu tivesse percebido. Aí está a atração maior da leitura das justificativas. Quando virão, bem poderia ser já na próxima semana. Longe do calor dos acontecimentos, mas não tão longe.

Como gostei de ver os "envelopes" confirmarem o que se viu nos ensaios técnicos. Lá Tijuca e a Vila foram as que mais cantaram e dançaram. A Tijuca pontificou, nos ensaios técnicos ainda "nua", sem fantasias e alegorias, mostrava que já estava "pronta" para vencer também em seus quesitos "de chão": na ponta dos cascos.

Brincou de carnaval mais que qualquer outra, claro que dentro dos rígidos limites permitidos e tolerados pelo andamento do carnaval que está aí.

Desmente, assim, aqueles mais apressados que atribuem a vitória exclusivamente a Paulo Barros, e até criticando-o por isso. A Tijuca
exibiu um conjunto de alegorias e fantasias como nunca antes, mostrou passistas, bateria, ritmo, canto e dança  suficientes para desmentir aqueles, também apressados, a dizer que as escolas pilotadas por Paulo Barros não podem conviver com a dança e com canto do samba.

Não vi nenhum indício de que aquela forma de desenvolver o enredo tenha prejudicado o canto e a dança da escola. A escola fez sua parte, o carnavalesco fez a dele e ainda fez a diferença.

Foi bom ficar ali paralisado com aquele momento inicial; a oportunidade de a escola ter trazido aquela performance para a comissão de frente nos desfiles de carnaval.

Ficar muito mais admirado ainda, mais do que com ela própria – a comissão – com o papel inédito operado por ela que foi o de conquistar todo aquele publico, convencê-lo a torcer e ficar ao lado da escola até sua vitória final.

A impressão que tive foi de que não havia uma só alma ali que não estivesse torcendo pela vitória da escola.

"Antes de conquistar os jurados é preciso conquistar o público", disse o carnavalesco ainda estonteado.  Foi a frase do carnaval.

Tenho a lembrança de a comissão de frente da Mangueira de 1999 ter obtido também grande impacto; era o carnaval do Século do Samba com todos aqueles sambistas imortais caracterizados por Vavá Torres: inesquecível.

Poderia muito bem ser a comissão de frente do enredo da Grande Rio, só para nos fazer lembrar.

Melhor que isto tudo seria saber o nome e o currículo de cada um dos jurados dos grupos de acesso e de onde eles saíram. Ter a possibilidade de ver justificadas todas as suas notas, inclusive e principalmente as notas 10. Repetir o critério utilizado no ano anterior para formação da comissão julgadora quando tão importante tarefa foi atribuída a Haroldo Costa e a Maria Augusta, personagens inatacáveis
dos nossos carnavais: a tarefa de julgar, de premiar e de punir? De fazer vencedores e derrotados.

Como seria bom saber se todos os patrocínios chegaram, assim como seus valores? Saber se todos os trabalhadores do carnaval receberam seus salários, o fruto mais sagrado de um homem que é o pagamento de seu esforço, do suor de seu trabalho.

E tudo se acabou na quarta feira, quer dizer, no sábado.

Foi muito bom, repito. Ter visto aquelas pipas soltadas do alto do morro de São Carlos. Ver aquele beija-flor flutuando no ar sem tirar os pés
do chão diante de nós.

Ver o chão da Portela evitando o inevitável. Se o enredo foi chapa-branca, babaôvo, se foi ou não um patrocínio-blefe, isto agora é absolutamente irrelevante. O que é relevante é que a nação portelense acha que o enredo foi chapa-branca e babaovo.

De minha parte, ao ver aquela palavra "PAZ" escrita na cabeça dos componentes na parte final da escola, gelei. Por tudo que se divulgou, digo mesmo p´ra vocês que  foi um risco que a escola correu. Ficou sujeita à suspeição de babaovismo do prefeito e da conseqüente predisposição negativa  dos julgadores. Tremi na hora, repito.

Melhor que tudo foi ouvir dizer, e não acreditar, por absurdamente inacreditável, que a Prefeitura vai impedir que novos blocos surjam por
aí. A esta altura é mais possível impedir nascer ratos, baratas e coelhos do que blocos nesta cidade. Que problema ! È inacreditável por ser inimaginável há poucos anos a explosão de tantos blocos. Definitivamente não precisamos nos envergonhar mais de nosso carnaval de rua.
Além de um Bola Preta nunca visto, a proliferação de blocos obrigando a prefeitura a tais iniciativas. Será possível impedir um bloco de
nascer?

Ah! Como foi bom ter visto todos os imensos, fartos sorrisos de todas as porta-bandeiras de todas as escolas, de todos os grupos. Mesmo aquelas que não tiraram nota dez. Acho mesmo que não há injustiça maior neste mundo que não dar nota dez a uma porta-bandeira.

Mesmo para aquelas atingidas por incidentes, acidentes, descuidos, maus momentos e até erros. Se depender de mim todas as porta-bandeiras de todas as escolas tirarão sempre 10, nota 10.
Para sempre, e em todos os carnavais do mundo.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×
0 Flares Twitter 0 Facebook 0 0 Flares ×