As finais de samba-enredo

Este ano não será igual aquele que passou

As quadras já estão no ritmo frenético dos cortes, o burburinho aponta os favoritos aqui e ali, os boatos são "intensos", ou seja: a época das escolhas de samba-enredo está no seu auge. Este tem sido um dos assuntos mais comentados aqui neste espaço nos últimos carnavais, mas este ano não será igual àquele que passou. Decidi que não vou mais escrever críticas aos sambas concorrentes.

Foram oito temporadas acreditando que poderia ajudar de alguma forma a mudar o pensamento
dos compositores e das diretorias, achando que as pessoas, com o tempo, entenderiam qual era o verdadeiro propósito das críticas. Um dia talvez isso possa acontecer, mas será através de outros aventureiros que assumam esta árdua tarefa.

O meio carnavalesco ainda não tem amadurecimento suficiente para lidar com opiniões. Para a maioria, qualquer elogio ou crítica tem por trás algum interesse. Não posso exigir que todos
acreditem nos meus ideais. Também sou compositor e sei o quanto dói ler algo negativo sobre nossas obras e que tipo de raciocínio vem à mente, mas já passou da hora de aceitar que as coisas mudaram.

A chegada dos sambas concorrentes à Internet, em 2002, foi um salto inimaginável na história das disputas de samba. Este fato aumentou sensivelmente a divulgação dos candidatos e aproximou das escolas um público que não tinha acesso a este processo.

Internautas de todo o mundo passaram a opinar sobre as disputas sem estarem nas quadras. Isso gerou um certo ciúme das pessoas que até então eram as únicas que atuavam neste jogo e que muitas vezes não tinham como dialogar na grande rede.

A Internet passou a ser vista na maioria das escolas como uma "inimiga" pois aqui não há hierarquia nem o "politicamente correto".
Qualquer um dá sua opinião nos fóruns e nos "comentários". E tais opiniões muitas vezes criam embaraços para compositores e dirigentes. Gostem os sambistas ou não, a rede passou a ser mais um agente no mundo do carnaval. Pode não ter um papel decisivo, mas já faz parte
do nosso "mundo".

É hora de aprender a lidar com esta ferramenta, seus benefícios e os problemas que ela pode causar. Na questão dos sambas-enredo temos um longo caminho a percorrer. O primeiro passo é entender o "quem é quem", separar o "joio do trigo". Há os colunistas (cada um com uma bagagem e um ponto de vista), os torcedores (que dão opiniões sinceras, mas fundamentadas na emoção) e os personagens criados com o interesse de tumultuar as disputas.

Os colunistas foram escolhidos pelos editores dos sites por algum motivo. É uma função nova e todos estão aprendendo. Tanto quem
escreve como quem lê. A credibilidade e influência de cada colunista dependem da maneira como ele conduz seu ofício. Acredita e confia quem sente ali sinceridade, embasamento e conhecimento do assunto. A exposição é muito grande e a contestação constante é óbvia,
dado que o tema é cercado por interesses e emoção.

Os torcedores têm opinião intuitiva e se manifestam nos fóruns ou nos "comentários". Elegem seus favoritos e manifestam suas opiniões do fundo do coração, sem interesses ou partidarismo. A dificuldade é separá-los dos que se expressam porque têm algum interesse como amizade com os compositores.

O problema maior é a possibilidade de criação de "fakes", perfis falsos criados com a (má) intenção de interferir nas escolhas. São pessoas que não querem assumir seus interesses e se escondem atrás de nomes e imagens falsas para fazer fofoca, agredir e criticar seus adversários. Essa praga irresponsável se alastrou por todas as agremiações e os maus compositores criaram exércitos de "fakes" para fazer campanha na grande rede. Alguns deles hão de comemorar minha decisão nos comentários deste artigo. Esse mal deve ser identificado e descartado no universo das opiniões da Internet.

Por outro lado, há coisas que os internautas precisam entender também: ouvir um samba-enredo sentado diante de um computador, com uma gravação de estúdio, lendo a letra, é muito diferente de ouvi-lo ao som da bateria, com a acústica sempre precária das quadras e cercado de passistas, baianas, torcedores. É ali que as coisas se decidem, afinal. E isso precisa ser respeitado, embora não invalide a opinião de quem leu a letra e ouviu a melodia através de uma gravação. Há muitos lados de uma mesma questão.

Espero ter lançado algumas sementes nestes oito anos. A Mangueira adotou um caminho novo para as disputas (que pode não ser perfeito, mas é um início) e isso já me enche de esperança. Há novos compositores buscando soluções diferentes na construção dos sambas, o
que é muito bom. Mas por outro lado ainda resiste a industrialização das disputas com fortes "esquemas" e escritórios espalhados por quase todas as escolas. Isso tem que acabar.

O carnaval precisa de músicas diferentes, inovadoras, populares no melhor sentido. E não é com os mesmos autores ganhando em várias escolas que estes sambas irão aparecer. É hora de democratizar as disputas, de abrir os olhos, os ouvidos e os corações para coisas diferentes… de acabar com a ditadura das fórmulas. Será muito bom para a festa como um todo.