As Três Irmãs – Como um trio de penetras arrombou a festa

Contar a história de ascensão de três das principais escolas de samba do carnaval carioca é a missão do mais novo lançamento literário voltado para os amantes do samba. 'As três irmãs – Como um trio de penetras arrombou a festa', escrito por Fábio Fabato, Alexandre Medeiros e Alan Diniz, trará dez registros históricos de Mocidade, Imperatriz e Beija-Flor em forma de crônica, e ocupará um importante papel de documentação histórica das três agremiações. O lançamento acontece no dia 17 de janeiro, no Bar Ernesto, na Lapa, a partir das 19h.

 

O ponto de partida do livro é o ano de 1976, quando a Beija-Flor de Nilópolis interrompeu uma sequencia de 36 anos de alternância entre Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano na galeria das campeãs. Depois disso, vieram os títulos de 1977 e 1978 da Deusa da Passarela, o primeiro da Mocidade, em 1979, e o inédito da Imperatriz (em divisão com Portela e Beija-Flor), em 1980. Desde então, foram 18 títulos do trio em 31 carnavais disputados.

 

Responsável pela parte da Mocidade Independente de Padre Miguel no livro, o jornalista e torcedor da escola, Fábio Fabato, explica como sentiu a necessidade da publicação.

 

– Tinha isso em mente. Principalmente porque praticamente não há registro bibliográfico. Existia somente um livro da Mocidade publicado em 1992. O formato do livro é bem interessante. São crônicas, pequenas historinhas que formam uma história. Tudo baseado em acontecimentos da Mocidade com focos diferentes, seja em personagens ou em fatos – disse Fabato, que já foi vice-presidente cultural da Mocidade.

 

Cada um dos três autores teve liberdade para escolher os fatos marcantes que gostariam de retratar através de suas crônicas, mas a Beija-Flor só entrou na jogada depois do início do processo de pesquisa para confecção do livro. É o que explica Alexandre Medeiros, responsável pelas crônicas da Imperatriz Leopoldinense.

 

– Fabato e eu já éramos amigos há muito tempo e, assim como ele na Mocidade, era responsável pelo departamento de cultural da Imperatriz Leopoldinense. Então ficou fácil colocarmos essa ideia em prática. Com o avançar das pesquisas, sentimos a necessidade de colocar a Beija-Flor na história também e convidamos o Alan Diniz, que é jornalista e torcedor da escola. Achei muito bacana um comentário feito pela Raquel Valença, responsável pela orelha do livro. Ela disse que fica bem claro na publicação o estilo que cada um tem na escrita, e o mais legal é que os estilos se assemelham aos das escolas – afirmou Alexandre, que é bibliotecário.

Outro ponto interessante é a interligação existente entre as escolas em algumas crônicas, o que remete a certos períodos de rivalidade entre elas. O jornalista Alan Diniz também conversou com o CARNAVALESCO e revelou que o chamado dos dois amigos formou um casamento perfeito de intenções.

 

– Já tinha essa ideia de escrever algo sobre a Beija-Flor e sabia também da existência desse projeto do Fabato, então o convite foi perfeito, na hora certa. Entre as histórias, destaco a crônica sobre o Joãosinho Trinta. Ele é o grande responsável por eu ser Beija-Flor e resolvi homenageá-lo da seguinte maneira: ele é maranhense e o Maranhão é repleto de lendas, brinquei com isso, conto a história do João em formato de lenda, como se fosse mais uma das lendas maranhenses.

 

Já Fabato aponta a Mocidade antes da chegada do patrono Castor de Andrade como tema de uma crônica bastante interessante.

 

– Convenciona-se o surgimento da Mocidade ao Castor de Andrade, mas a Mocidade já estava há 15 anos no Grupo Especial quando ele chegou. Tínhamos o mestre André e grandes sambas. Ele já era considerado o melhor mestre de bateria naquela época. Consegui um texto do Sérgio Cabral escrito em 1965 sobre o mestre André. Existia até a história que a bateria da Mocidade era uma bateria que carregava uma escola.

 

*Confira o resumo de duas das dez crônicas escritas por Fábio Fabato sobre a Mocidade no livro.

 

Opinião parecida tem o gresilense Alexandre Medeiros. Entre suas crônicas preferidas está a Imperatriz antes da chegada de Luizinho Drummond.

 

– Apesar do mote relativo ao histórico do jogo do bicho, as três escolas tem história antes da chegada dos patronos. Elas não foram criadas por bicheiros, como é comum atualmente. Procurei trazer histórias mais antigas. Como a presença de um departamento cultural forte nos anos 60, formado pelo Dr. Hiram Araújo e, reza a lenda, o Gabeira, a participação da escola na novela Bandeira Dois, em 1972, a história da quadra ficar numa encruzilhada, a Maria Helena e o Chiquinho – lembrou Alexandre, que desfilou na comissão de frente da Imperatriz entre 1995 e 2000.

 

Existe também um espaço no livro onde os autores respondem o porquê de terem escolhido Mocidade, Imperatriz e Beija-Flor como suas escolas do coração. Alan Diniz, que é natural do Ceará, é torcedor da escola desde 1985 e se apaixonou pelo estilo onírico de Joãosinho Trinta desenvolver os carnavais da Deusa da Passarela. Ele se mudou para o Rio de Janeiro em 2001 e desfila em ala na escola de Nilópolis.

 

Perguntado se as escolas se preocupam pouco com a manutenção documental de sua história, Alexandre Medeiros respondeu positivamente e aponta um problema em nossa sociedade como principal motivo para isso.

 

– A escola de samba é um reflexo da nossa sociedade. Não temos apreço pela nossa história. Ficamos sempre a mercê da política regente nas escolas de samba para termos condições de trabalhar nesse resgate cultural ou não. Na década de 90 era mais difícil. Hoje está mais fácil, mas mesmo assim longe do ideal. Na verdade, grande parte do que temos de resgate da histórias das escolas, se deve a instituições independentes como o Centro Cultural Cartola, ou por incentivos fiscais que obrigam as escolas a fazerem isso, mas política de preservação não existe.

 

'As Três Irmãs – Como um Trio de Penetras Arrombou a Festa' tem a Nova Terra como editora e a ilustração de capa é de Leonardo Bora e o prefácio foi escrito por Sérgio Cabral.
 

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