Aydano André Motta: ‘Passado e futuro trocam de lugar na odisseia do Carnaval’

Por Aydano André Motta

mangueira_desfile_2018_23No mágico altar dos bambas, o novo e o velho sucedem-se num ritmo que demanda atualizações permanentes. Na primeira metade da festa de 2018 as placas se mexeram mais uma vez, sacudindo o presente para decretar que o futuro vai existir na reverência ao passado. O espetáculo que morre a cada ano cumpre seu destino de renascer adiante, para sempre apaixonante.

A folia virou a página, dissolvendo o reinado do carnavalesco das alegorias vivas em plena pista. Década e meia depois de explodir azul e apoteótico no carro do DNA, o jeito Paulo Barros de fazer Carnaval envelheceu. Agora, o cara se chama Leandro Vieira, e sua celebração às origens do bafafá, transformando a defesa do maior show da Terra no melhor enredo – ainda bem.

A Mangueira passou gloriosa em pierrôs e arlequins, colombinas e bate-bocas, exaltando outras escolas, Cacique e Bafo da Onça, o humor na medida exata, levantando a plateia com o bispo-prefeito de Judas. O Crivella tatuado na bunda gigante, na alegoria do Carnaval de rua com foliões que construíram a própria fantasia, serviu de cereja no bolo da ousadia estética do novo protagonista da Passarela.

Quem foi à Sapucaí ver o futuro, viu – na dura crítica às mazelas fundadas no passado, dentro da proposta de engajamento folião do Paraíso do Tuiuti. Será difícil aparecer em 2018 comissão de frente mais emocionante do que a dos escravos açoitados virando pretos velhos na magia do Carnaval.

No fim, a pancada doída nos manifestoches de 2013 e seu pato amarelo que a história tornou patético, emoldurados pelo vampiro de faixa presidencial, fechou a tampa sob merecidos aplausos da Sapucaí. A escola que o pré-Carnaval apontava como candidata ao rebaixamento deixou a pista aos gritos de “É campeã” até do setor turístico, coisa rara. Jack Vasconcelos chegou à Apoteose merecidamente consagrado.

tuiuti_desfile_2018_14Faz sentido, na denominação do negócio todo: o que passa ali é escola DE SAMBA. E o hino do Tuiuti ditou o ritmo dos componentes alegres e inflamados, provando que, com a música de qualidade, o resto se encaixa. Se honestidade houver no julgamento, a turma de São Cristóvão reprisará sua festa no sábado.

Porque a Sapucaí de 2018 testemunhou o olé de Jack Vasconcelos em Paulo Barros. Em sua (re)estreia na Vila, o grande astro do Sambódromo exibiu ideias recicladas em seu estilo circense, diante de uma plateia indiferente. Deu saudade do DNA, da troca de roupa, das cabeças que caíam, da mesa do Harry Potter. A comissão de frente opaca e a invencionice da saia “dura” que inviabilizou a apresentação da porta-bandeira Denadir impõem a constatação: o tempo passou.

Só não altera as curvas daquela pista reta a olho nu, para o comovente desespero da Grande Rio. Na estreia de Renato Lage, o desfile grandioso e sedutor sobre Chacrinha (cheio de referências aos profícuos tempos do carnavalesco na Mocidade) se esvaneceu no acidente com o último carro. Antes, o samba cumpriu o papel que dele se esperava – foi ruim –, mas a tricolor de Caxias voltaria nas Campeãs. Agora, se honestidade houver, brigará para não cair.

Outro tombo nas ambições (ainda que mais ameno) surgiu no caminho da Mocidade. O sonho do bi não vai se materializar pelas muitas deficiências visuais do enredo sobre a Índia. Sabendo como opera o júri da Liesa, dá para voltar sábado. Mas só isso.

A primeira noite da maratona de folia foi glacial para Império Serrano e São Clemente. A dupla que abriu a festa atravessou do setor 1 à Apoteose como figurantes sem fala, devido a enredos e sambas desenxabidos. Uma e outra contarão os décimos na luta contra o rebaixamento.

E assim se foi a metade da festa, com encantos, revezes e, o mais importante, lições que permitem decifrar a odisseia carnavalesca em seu desenrolar apaixonante. Sorte nossa.