Aydano André Motta: ‘Vida longa ao revolucionário CEO do Carnaval. E obrigado por tudo’

Por Aydano André Motta

laila_festaPassara o Carnaval de 1995, e a Beija-Flor patinava num jejum incômodo, longe do título desde 1983 – ainda no tempo do monta-desmonta, das arquibancadas tubulares, pré-Passarela do Samba. Não parecia haver saída, diante do espetáculo visual da Mocidade do incrível Renato Lage e, especialmente, da técnica impecável ostentada pela Imperatriz de Rosa Magalhães (bicampeã naquele ano). A olho nu, um beco sem saída.

Mas Laíla daria o jeito dele. Inquieto desde sempre, o diretor de Carnaval da azul e branco nilopolitana não se conformava. Constatara, no terceiro lugar alcançado pelo desfile sob o enredo “Bidu Sayão e o canto de cristal”, desenvolvido por Milton Cunha, que a escola batera no teto. Sabia que precisava virar o jogo – e, quando consumasse seus planos, mudaria a cara do espetáculo na Sapucaí.

A festa mutante, que se destrói a cada ano para renascer no seguinte, enfileira formatos a partir da criatividade de seus artistas. Naqueles anos 1990, o visual de alegorias e fantasias predominava sobre o resto – e a turma do ritmo e da dança passou a ser coadjuvante. Desde a revolução iniciada por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues no Salgueiro da década de 1960, o show passou a ser de Joãosinho Trinta, de Rosa e de Renato, de Fernando Pinto e Max Lopes, de Oswaldo Jardim e Maria Augusta.

beija_lailaCristalizava-se, então, injustiça muito brasileira. Os carnavalescos eram, na maioria, filhos da classe média, educados em bons colégios e universidades. Diretores de harmonia, puxadores, compositores, mestres de bateria, passistas – negros, nascidos nas comunidades das escolas, sem acesso à educação, vítimas da desigualdade tão nossa quanto o samba – viraram coadjuvantes. Um cenário que durou mais de 30 carnavais.

Começou a mudar pela Beija-Flor. No fim da tarde cinza de uma quarta-feira, em junho daquele 1995, tocou o telefone na redação d’O Globo. Laíla convidou o acima assinado para uma conversa, no barracão da Rua Barão de Tefé (a Cidade do Samba não existia sequer nos sonhos mais delirantes). Ele estava praticamente sozinho, as alegorias envoltas num silêncio massacrante, compondo ambiente nada carnavalesco.

“Sei que você torce pela Beija-Flor e quero lhe perguntar sobre a escola”, começou. “Precisamos mudar algumas coisas aqui e uma delas é a ala de compositores. Decidi convidar gente de todas as escolas”, avisou, resoluto. Não fazia sentido que interlocutor tão leigo desse qualquer palpite. E a conversa terminou amena.

Três anos mais tarde, o jejum se encerrou na esteira de outra pequena revolução. Laíla materializou o contra-ataque à atávica injustiça da autoria individualizada dos desfiles – essa obra conceitualmente coletiva – ao criar a Comissão de Carnaval da Beija-Flor. Passou a comandar também a concepção do enredo e até a produção de alegorias e fantasias, à frente de numeroso grupo de artistas.

laila_beijaflorDeu certo logo no primeiro ano, 1998, com apresentação tecnicamente perfeita para o enredo “O mundo místico dos Caruanas nas águas do Patu-anu”, referendada pelo título (num empate com a Mangueira). No Carnaval seguinte, a mudança na escolha do samba daria o primeiro Estandarte de Ouro do quesito ao povo de Nilópolis. “Araxá, lugar alto onde primeiro se avista o céu” levou o principal prêmio da folia. Mas havia ainda trabalho por fazer.

Muito mais ligado ao ritmo do que ao visual, Laíla precisava reequilibrar as duas faces da moeda carnavalesca – e estava na escola certa para a missão. Encontrou nos obsessivos componentes da Beija-Flor o encaixe preciso para o trabalho incessante das quintas-feiras, o eterno aprimoramento do canto, o lapidar estressante e apaixonado de mestre e discípulos.

A mítica comunidade nilopolitana entende o Carnaval como trabalho e missão. Produz, assim, noites mágicas em sua busca eterna pela perfeição. E nas madrugadas de inegociável teimosia, Laíla inventou sua mais preciosa contribuição à grande festa – a máquina de cantar e evoluir em azul e branco que a tribo do samba apelidou de Rolo
Compressor.

Após bater na trave em 2001 e 2002, desandou a enfileirar títulos – oito em 18 Carnavais, transformando a Beija-Flor na terceira maior campeã da festa, com 14 títulos, atrás apenas das “inventoras” Portela e Mangueira. Se um dia, a azul e branco da Baixada ganhou o mundo como a escola de Joãosinho Trinta, na sua fase mais vencedora foi a comunidade do Laíla.

beija_laila_desfileA vocação do homem para CEO do samba veio de longe. Aos nove anos, cumpria basicamente o mesmo papel de comando na Independente da Ladeira, escolinha que fundou no Morro do Salgueiro. Na vermelho e branco, estreou campeão, no enredo “Quilombo dos Palmares” (ironia: o mesmo do início da virada estética de Pamplona, Arlindo e etc), em 1960. Como diretor de Harmonia, conquistou o primeiro título aos 25 anos, em 1969, no lendário “Bahia de todos os deuses”.

Ainda no Salgueiro, formou com Joãosinho Trinta uma espécie de goiabada com queijo, ou Bebeto e Romário, do Carnaval. Dupla perfeita, um delirava, o outro materializava. Mas a queda de braço da autoria azedou em 1989 – Laíla garante serem dele a ideia de cobrir o Cristo Mendigo censurado pela igreja e a frase “Mesmo proibido, olhai por nós” da imagem-emblema. Ficou para o carnavalesco, eternizado até por Caetano Veloso na genial “Reconvexo” (Quem não seguiu o mendigo Joãosinho Beija-Flor?”). Foi a semente da comissão, que o diretor de Carnaval sustentou muito além do recomendado pelo bom senso.

Mas nem adiantava argumentar com ele. Dono de fisionomia fechada, sorrisos bissextos e palavras temperadas por uma sinceridade sem freio, Laíla não se importa em fazer amigos, tampouco de perdê-los. É escravo de suas certezas. Tais características renderam-lhe desafetos variados, mas mesmo os mais ferozes críticos reconhecem sua competência e honestidade.

beija-flor_campeas_2018_033(Em 2014, no trágico Carnaval de homenagem a Boni, quase rompeu com o signatário, que se atreveu a criticar aquele samba, aqui mesmo, no querido CARNAVALESCO. Reclamou um monte, que aquela desimportante avaliação estava errada e prejudicaria a escola. O apocalíptico sétimo lugar sepultou a contrariedade.)

A excessiva centralização desgastou Laíla também internamente. Muita gente deixou a Beija-Flor pela exaustão do modelo criado no fim do século XX. E ele mesmo cometeu erros que custaram colocações à azul e branco em desfiles recentes.

Mas nova ironia: para 2018, a escola reencontrou (ainda que de um jeito torto) o modelo. O projeto concebido e executado por Marcelo Misailidis gerou muito estresse no barracão, mas acabou por deixar Laíla cuidando somente dos quesitos de chão. E neles, o homem continua insuperável. Sob seu comando, da escolha do samba – havia pelo menos três obras em condições de ganhar, mas o melhor foi eleito – ao desfile, a turma de Nilópolis bateu um bolão. O título se materializou pelos quesitos “dele”. Enquanto os itens do visual perderam pontos, a parte de ritmo, dança e samba (além do sempre espetacular casal Claudinho e Selminha Sorriso) teve pontuação máxima.

Agora, vem aí um enredo impensável: Laíla e Beija-Flor separados. Como serão os antes mágicos ensaios de quinta? Como vai se dar a convivência entre o mestre e os comandados de seu novo pouso?

Seja qual for o futuro, Laíla vira a página nilopolitana como maior sambista em atividade – e um dos maiores artistas do Carnaval em todos os tempos. Tais honrarias garantem ao filho de Xangô Luiz Fernando Ribeiro do Carmo lugar definitivo na História de nossa grande festa popular.