Bangu cantou! Unidos erra, mas faz desfile digno e animado

Por Thiago Barros

bangu_desfile-2018_040Que “Bangu ia cantar”, todo mundo sabia. Afinal, o samba da parceria de Diego Nicolau e parceiros é um dos melhores do ano. Mas e o resto? Uma escola voltando da Série B, após dois anos, no primeiro desfile do Carnaval 2018, em um ano de crise… E, de fato, houve alguns deslizes na apresentação dessa sexta. Em quase todos os quesitos. Inclusive, encerrou o desfile com 56 minutos, e deve perder 0,1 por estourar o tempo.

Com o enredo “A travessia da calunga grande e a nobreza negra do Brasil”, assinado pelo carnavalesco Cid Carvalho, a Vermelha e Branca da Zona Oeste fez um desfile bastante animado, com a comunidade banguense e o carro de som cumprindo muito bem seus papeis. A temática abordada foi bem desenvolvida pelo carnavalesco, apesar dos problemas visuais – provavelmente, mais financeiros do que de concepção.

bangu_desfile-2018_054Entretanto, o casal de mestre-sala e porta-bandeira apresentou problemas de sincronia, as fantasias eram extremamente simples, normalmente compostas por macacões de só uma cor e alguns adereços, e as alegorias, com exceção do bonito abre-alas, deixaram a desejar, especialmente nos acabamentos. Mas não chegaram a ser falhas graves, e o desfile foi bem digno. A escola brigará para ficar na Série A.

Harmonia

O grande destaque do desfile da Unidos de Bangu foi seu povo. Com um carro de som inspirado, comandado por Leandro Santos e Thiago Brito, que depois que entraram no segundo recuo com a bateria aproveitaram para brincar bastante com os componentes, e um samba forte, a Harmonia foi de alto nível.

bangu_desfile-2018_012Os componentes passavam na Avenida bradando o samba, especialmente, claro, o tal do “Eabadeiaia”, um dos refrões mais chicletes (e elogiados) do ano. A bateria ousou e até fez uma paradona nesse trecho em alguns momentos – com um resultado até bem satisfatório levando-se tudo em consideração.

A cabeça da escola veio cantando bastante no começo do desfile, com destaque para a ala 2, Clã do Camaleão. No fim, claro, o ritmo não era mais o mesmo, mas ainda assim, foi muito bom. E se manteve pelo restante da escola. Elogios justos também para a Ala 7, Agotime, Rainha do Daomé, e Ala 17, Um Altar Para A Nobreza Negra.

Samba-Enredo

bangu_desfile-2018_084-1O samba da Unidos de Bangu, de autoria de Diego Nicolau, Dudu Senna, Richard Valença, Renan Diniz, Orlando Ambrósio, Rafael Tinguinha, Rafael Prates, André Kaballa, Marcio de Deus, Washington Motta e Ivan Câmara, rendeu muito bem na Avenida. Letra simples, melodia valente e empolgante.

A obra foi uma das mais exaltadas do pré-carnaval, com o refrão do “Eabadeiaia”, e apresentou exatamente o que se esperava na Sapucaí. Se fosse em uma escola que considera-se para a disputa do título, certamente seria um sacode grande. E é muito bacana quando o samba é traduzido pelo desfile.

Foi exatamente o que aconteceu nessa sexta-feira com a Unidos de Bangu, na Sapucaí. Analisando os versos e vendo passar as alas e os carros alegóricos, notava-se que A Travessia Da Calunga Grande E A Nobreza Negra No Brasil estavam sendo muito bem cantados por Thiago Brito e Leandro Santos.

Alegorias e Adereços

bangu_desfile-2018_055-1O abre-alas, Majestosa África: Xangô e Ginga, veio com um Leão representando a Realeza Africana. Os antílopes, as Girafas e as Máscaras compõem a ambientação de Palácio estilizado em homenagem à Rainha Ginga e ao Rei Xangô. Todo dourado e com um leão que se movimentava, foi a melhor alegoria da escola; de longe. Causou um bom impacto, que infelizmente não se repetiu no restante.

O segundo carro representava A Travessia da Calunga Grande, com uma escultura da senhora das águas conduzindo a embarcação estilizada que faz a travessia da Calunga Grande e desembarca no Brasil. Todo azul, ele tinha uma lateral pouco inspirada e duas falhas de finalização: na escultura principal e no lado direito traseiro. Além disso, dava para ver os ferros da parte frontal, inclusive com um “Apoio” aparecendo.

bangu_desfile-2018_039A terceira alegoria era Galanga, Chico Rei, mostrando a força do negro e sua luta por liberdade, representada por uma escultura imponente de Chico Rei quebrando as correntes do cativeiro. Era uma alegoria bem “afro”, com tons de marrom e preto. A escultura frontal vinha com rasgos nos “sovacos”, porque era feita totalmente com tecido e os movimentos acabaram causando o problema.

Maracatu: A Coroação da Nobreza Negra no Brasil foi a quarta e última alegoria do desfile da Unidos de Bangu, destacando a coroação dos reis negros na época do Brasil colonial, com templos dedicados à Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. Branca com dourado, ela passava bem a ideia do que desejava remeter, especialmente com as laterais decoradas com flores dos estandartes de santos católicos.

Fantasias

bangu_desfile-2018_060-3O primeiro setor tinha cinco fantasias inspiradas nestes clãs de animais. Além do leão, representado pelas baianas, foram retratados também o camaleão, o crocodilo, as aves e os peixes. Todos exatamente da mesma forma: macacão de uma só cor, um chapéu e algum adereço. Soluções repetitivas e pouco inspiradas. Especialmente na ala de peixes que sequer tinha adereços nos braços.

Todo o trabalho de fantasias, aliás, foi bastante simples. Houve poucos destaques muito positivos, como a ala 13, Fartura e Liberdade nos Quilombos, que parecia até uma ala de passistas, com homens e mulheres bonitos, vestidos com uma segunda pele que não era tão visível e alguns detalhes em verde, branco e dourado dando um efeito bem bacana. A velha guarda, Nobreza Preservada, também estava muito bem vestida.

bangu_desfile-2018_084-4Os compositores, por outro lado, que fecharam o desfile da Unidos de Bangu, estavam apenas com uma calça branca e uma camisa do enredo. Normalmente, essa é uma ala que não conta com grandes fantasias em nenhuma escola, porém costumam ter, pelo menos, um terninho ou algo do tipo. Na Vermelha e Branca da Zona Oeste, não houve essa preocupação com os poetas do samba, que sequer usavam chapéus.

Enredo

“A travessia da calunga grande e a nobreza negra do Brasil” foi o enredo da Unidos de Bangu para o Carnaval 2018, desenvolvido pelo carnavalesco Cid Carvalho. “Somos herdeiros do Alafin de Oyó. Em nossas veias corre o sangue da rainha Ginga de Matamba”, dizia trecho a sinopse do enredo, que aborda a herança africana no Brasil;

bangu_desfile-2018_067-2A escola foi dividida em quatro setores: Nobre Ancestralidade, Os Fundamentos dos Reinos Milenares, A Nobreza Sobrepôs o Cativeiro e Festa da Coroação; tudo muito claro, sem grandes dificuldades de leitura. Apesar dos problemas visuais, que parecem ter sido mais financeiros do que de concepção, foi um bom trabalho de enredo.

Um detalhe interessante do desfile da Unidos de Bangu: muitos personagens citados já foram outros enredos outras agremiações, como Chico-Rei (Salgueiro 64), Agotime (Beija-Flor 2001), Zumbi (Vila Isabel 88), Tereza de Benguela (Viradouro 94) e Ganga Zumba (Tijuca 96). Uma justa homenagem à negritude brasileira.

Evolução

bangu_desfile-2018_067A evolução da escola foi um pouco problemática. Tanto que ela terminou o desfile com 1 minuto a mais do que o regulamento permite e será penalizada com a perda de 0,1 na apuração da Quarta-Feira de Cinzas. Isso aconteceu, muito provavelmente, porque a saída do primeiro setor não foi das melhores.

Além disso, a escola apresentou alguns problemas de compactação. As alas estavam muito juntas, especialmente entre o terceiro e quarto módulo de julgadores. Elas não chegavam a se embolar, mas os destaques de chão passavam quase batidos. Como entre as alas 12 e 13 – e entre esta e o terceiro carro alegórico.

No outro ponto que se analisa em evolução, que é a desenvoltura dos componentes, como eles sambam e brincam na avenida, a Unidos de Bangu não tem do que reclamar. A grande maioria fez um bom carnaval. Claro, sempre há um ou outro que não evolui (nem canta) tanto, mas no geral, foi uma boa apresentação.

Comissão de Frente

bangu_desfile-2018_024-7A comissão de frente da Unidos de Bangu foi coreografada por Jorge Teixeira e Saulo Finelon, que também assinam a comissão da Mocidade. O grupo contava com um total de 15 componentes – todos homens – e representava A Coroação de Chico Rei. Foi uma coreografia simples, mas bem executada no geral. Houve somente uma falha na frente do terceiro módulo, quando um componente deixou o seu “tronco” quase cair e se enrolou um pouco nos passos.

Todos eles estavam totalmente pintados de negros e dançavam com “troncos”, que serviam também para guardar as surpresas da comissão: tecidos que faziam com que eles virassem estandartes e também exibiam imagens de santos. Em dois momentos de ápice, os panos se juntavam e formavam a bandeira e o nome da escola, com o Chico Rei sendo coroado. A arquibancada reagiu bem.

Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira

bangu_desfile-2018_033Diego Falcão e Jackeline Gomes, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Unidos de Bangu, desfilaram logo atrás da comissão de frente, fantasiados de Nobreza Africana. Suas apresentações foram bastante inconstantes, e pode ser que eles percam pontos preciosos para a escola na avaliação dos julgadores.

Isso porque houve problemas em todos os módulos. Especialmente de falha de sincronia nos passos. Além disso, a coreografia tinha muitos passos “interpretando a letra do samba”, como nos trechos “olhar de serpente”, “quebra a corrente” e “valentia de um leão”, e isso já foi criticado por julgadores em outros carnavais.

Além disso, Diego deixou seu bastão cair logo no começo da apresentação em frente ao terceiro módulo de julgadores, e seguiu sem ele para o quarto. Ou seja, não foi uma boa noite para o casal banguense.

bangu_desfile-2018_070Paradona empolga

A cantora Lexa era a rainha de bateria da escola, que vem representando Ganga Zumba, nascido no Congo, chamado de “Grande Filho do Senhor”, e primeiro líder do Quilombo dos Palmares, antecessor de seu sobrinho Zumbi. A bateria, aliás, levantou a Sapucaí ao fazer muitas bossas – incluindo uma paradona sem o canto do carro de som.

No geral, a arquibancada reagiu bem ao desfile. Especialmente no Setor 1, que tinha uma grande quantidade de torcedores da Unidos de Bangu. Muitos deles com camisas do time de futebol Bangu e também bandeiras vermelhas e brancas. O canto da galera, inclusive, foi bem alto no começo do desfile.

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