Barracões da Série A: Rocinha fará desfile irreverente e escrachado para homenagear povo brasileiro

Quem assistir ao desfile da Rocinha em 2016 irá se deparar com muito bom humor e irreverência. É o que promete o carnavalesco da escola, Alex Oliveira, que escolheu retratar com alegria a saga do povo brasileiro, em seu enredo inspirado na obra do antropólogo Darcy Ribeiro. Segundo o carnavalesco, havia a possibilidade de a escola fazer um enredo patrocinado, sobre o Piauí, o que acabou não ocorrendo. Assim, Alex teve a oportunidade de desenvolver um enredo autoral, atendendo a um pedido do presidente, Ronaldo Oliveira, por uma temática que falasse do morro da Rocinha e ajudasse a trazer a comunidade de volta à escola. Daí Alex viu a oportunidade de falar do povo brasileiro e, de quebra, homenagear a mistura de raças que deu origem aos milhares de mestiços que hoje vivem na Rocinha.

* OUÇA AQUI O SAMBA DA ROCINHA PARA 2016

– Darcy Ribeiro diz que a gente é o povo mais humano, mais alegre e mais festeiro do mundo. Apesar de todas as violências que sofremos nesses mais de 500 anos, o Brasil tem todas as caras, todas as identidades. Acho que está faltando carnaval nos desfiles das escolas de samba. Está faltando prazer, alegria, irreverência. Não sei se por conta de patrocínio, ou de medo de ousar dos dirigentes das escolas ou dos próprios carnavalescos. A Rocinha tem a tradição de fazer enredos diferenciados e isso veio a calhar. Nosso projeto de desfile tem luxo, acabamento, mas tem muito bom humor também, pois esse é um item fundamental no perfil do brasileiro.

* OUÇA AQUI OS SAMBAS DA SÉRIE PARA 2016

​Em seu processo de pesquisa para o enredo, Alex se deparou também com fatos inusitados da história do país. O público poderá ver, já no carro abre-alas, curiosidades sobre a vida sexual dos nativos indígenas. Em outro setor, referente à presença lusitana no país, será mostrado que a Marquesa de Santos era adepta da prática do 'pompoarismo'.

– Eu me surpreendi com muitas coisas durante a pesquisa. Estava pesquisando sobre tribos indígenas da Serra da Capivara, no Piauí, e descobri que havia uma tribo que cultuava símbolos fálicos. Nessa tribo, o homem tinha o “dom da vida” e a mulher seria apenas um “animal”, que cuidava do filho por nove meses. Por isso, temos um ritual no carro abre-alas que faz alusão a isso.

Alex aponta que o público deve prestar atenção na ala das baianas da escola. Elas virão no quarto setor, bem ao fim do desfile, diferentemente do que a maioria das agremiações tem apostado, e prometem causar emoção em quem estiver assistindo.  Uma novidade da Rocinha para o próximo carnaval é que todas as fantasias estão sendo produzidas no próprio barracão, ao contrário do que antes acontecia, quando elas eram feitas em ateliês.

– Era um risco que acontecia e com o qual a escola já sofreu algumas vezes. Se você não tiver dinheiro pra pagar uma roupa, os ateliês não entregam. A gente aqui no barracão trabalha para que as fantasias fiquem o mais fiéis possíveis aos desenhos. Eu acho que carnaval tem que ter brilho, mas não necessariamente o luxo pelo luxo. Nós temos que enxergar uma fantasia e saber o que está simbolizando. No setor indígena do nosso desfile, vou trazer materiais alternativos, com sementes, por exemplo, de acordo com o que se usava naquela época. Outra solução diferente que vou trazer é usar piaçava de vassoura. Temos que aliar beleza à questão dos custos.

Com 4 carros alegóricos, sendo o abre-alas acoplado, e 21 alas, além da Velha-Guarda e compositores, a Rocinha irá abrir os desfiles da Série A no carnaval 2016. A comissão de frente, comandada por Luciana Yegros, poderá vir com um tripé, caso a Lierj volte a permitir a presença de pequenos elementos cenográficos nos desfiles, decisão que ainda está pendente, segundo Alex Oliveira. O carnavalesco irá abordar no desfile dois livros de Darcy Ribeiro, “Aos trancos e barrancos” e “O povo brasileiro”, mostrando as três principais etnias formadoras do país (índios, brancos e negros) e terminando com a mestiçagem e o morro da Rocinha.

– Começo o desfile com o livro “Aos trancos e barrancos”, do Darcy Ribeiro, que sintetiza a nossa história e estará representado na nossa comissão de frente. Em seguida, começo com o enredo mesmo, o livro “O Povo Brasileiro”, que faz uma analogia da história de Roma com a do Brasil. Nós, brasileiros, somos definidos por três itens básicos: sangue, suor e sexo. Darcy diz que nós devíamos ser o povo mais revoltado do mundo, por conta de todas as violências que sofremos constantemente, mas, apesar disso tudo, somos o povo mais alegre e festeiro do planeta. No desfile, eu trago basicamente as nossas matrizes básicas, os índios, os portugueses e os africanos. No setor dos negros, já começo a retratar a mistura de raças. No último setor, trago o mestiço, que possui variações: o mameluco, o cafuço, e muitos outros. São os rostos de todos os moradores da Rocinha, cuja a maior parte das famílias tem origem nordestina. Pessoas que nasceram com limitações, mas que esperam a possibilidade de esperança no final.

SETORES:

1° setor – Indígena
2° setor – Lusitano
3° setor – Negro africano
4° setor – Mestiço

EQUIPE DO BARRACÃO:

Diretor do barracão: Leonardo
Diretor do ateliê: Glauber Rocha
Diretor de almoxarifado: Victor Viegas
Ferreiro: João