Barracões do Especial: Beija-Flor se despe do luxo para colocar o dedo nas feridas sociais do Brasil

beija02A Beija-Flor virá totalmente repaginada no desfile de 2018. Depois de muitas críticas em 2017 a escola mudou peças importantes em sua comissão de carnaval e optou por um enredo de cunho social, que a agremiação não desenvolvia desde 2003. Com ‘Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu’ a Deusa da Passarela irá não apenas expôr as mazelas sociais brasileiras, mas pretende tocar o dedo nas feridas com um desfile que vai fazer a azul e branca deixar um pouco de lado sua tradicional opulência histórica.

A reportagem do site CARNAVALESCO foi recebida por Cid Carvalho, um dos integrantes da comissão de carnaval, no barracão da agremiação na Cidade do Samba. De volta à escola depois de 11 anos afastado, Cid dá detalhes do aspecto estético que a escola pretende implementar e ressalta que as pessoas vão ver um padrão diferente daquele que a Beija-Flor tradicionalmente procura ostentar quando pisa na avenida.

– É um enredo que nos permite variar no aspecto dos materiais. Teremos uma escola marcada pela colcha de retalho, busquei inspiração no próprio Frankstein. É uma amarração estética ao longo do desfile. Temos setores em que usamos utensílios de cozinha, bobs de cabelo. Teremos o acetato utilizado de forma inteligente, não apenas batido em forma de placa. Tem um trabalho de espuma muito interessante. A cada setor temos uma estética amarrada pela linguagem da colcha de retalhos, mas com abordagem específica dentro do enredo. Não teremos uma escola luxuosa – avisa.

beija07Não é apenas a temática do enredo que fará a Beija-Flor optar por uma estética menos luxuosa. A crise que atingiu todo o mundo do carnaval este ano também força que os artistas da festa busquem atingir o luxo da criatividade para manter o alto nível do chamado maior espetáculo da terra. Cid Carvalho fala sobre as dificuldades encontradas, que atingiram até a Beija-Flor, outrora imune às crises.

– É o pior ano para todas as escolas. Nesses 11 anos fora da Beija-Flor passei por muitos problemas em outras agremiações. Eu fiz Acesso e Intendente. As dificuldades se apresentam todo ano. Tenho essa experiência de buscar caminhos e soluções. Para mim o que mais pesa é carga de trabalho. A Beija-Flor nos dá estrutura para desenvolver o projeto. Para conseguirmos atingir o luxo da criatividade se trabalha mais, até mesmo fisicamente falando. Mas falta pouco para as férias – brinca Cid Carvalho.

‘Parece que fiquei fora uma semana’, diz Cid Carvalho sobre retorno

Cid Carvalho foi revelado na Beija-Flor. Na azul e branca nilopolitana que conquistou seus títulos e viveu o auge de sua carreira, entre 1998 e 2006. A saída se deu em 2007 e o voo solo do carnavalesco o deixou distante da escola por 11 anos. De volta às origens, Cid revela ao CARNAVALESCO que esses mais de dez anos pareceram uma semana.

beija08– Voltar para a Beija-Flor é regressar para casa. A primeira vez que voltei à quadra era como se eu tivesse ficado apenas uma semana afastado. Não senti essa década. Muita felicidade, ouvi aquela história de resgate daquela Beija-Flor. Os profissionais do barracão da minha época seguem aqui – pontua.

A Beija-Flor pretende fazer as pessoas pensarem com o seu desfile. Escola com projetos sociais consolidados e com tradição de enredos sociais, novamente a Deusa da Passarela pretende colocar um ponto de interrogação na cabeça do público que vai assistir ao desfile já na manhã de terça-feira de carnaval.

– A Beija-Flor fez ‘Ratos e Urubus’ em 1989 como um grito de alerta. Quase 15 anos depois veio um novo enredo sobre nossas mazelas, que foi ‘Saco vazio não para em pé’, que eu participei. E cá estamos nós novamente, 15 anos depois clamando para que as pessoas atentem para os menos favorecidos do Brasil. A situação infelizmente só piora. É claro que um desfile de escola de samba é um momento de alegria, pois eu insisto: estamos no carnaval. Mas o desfile da Beija-Flor vai fazer todo mundo coçar um pouco a cabeça. O que posso garantir é que a escola não vai ter medo de expor as mazelas do país. Faz parte da história da escola, que não abandona seus filhos. É um clamor por respeito. Teremos momentos fortes e impactantes – alerta.

Conheça o desfile

beija05Cid Carvalho fez mistério com relação à sequência e o roteiro do desfile da Beija-Flor, mas fez uma ampla explanação para os fãs de carnaval sobre como se dará o desenvolvimento do enredo da agremiação no Carnaval 2018.

– A Beija-Flor apresenta um carnaval que parte da obra ‘Frankstein’, de Mary Shelley. O livro completa 200 anos este ano e conta a história de um jovem médico que cria uma criatura a partir de pedaços de outras pessoas. Esse ser ganha vida e é monstruoso. O doutor abandona sua criação à própria sorte. A partir daí fazemos um espelhamento com a realidade deste país. Na história do livro quem é o monstro? A criatura feia e sem nome ou o seu criador que o abandona? Esse questionamento será feito ao longo de nosso desfile. Quem são os monstros do Brasil? Quem são os filhos abandonados? Vamos falar de corrupção, da ganância de empresários, de preconceitos. Mas isso aqui é carnaval e encerramos com uma mensagem positiva. Depois de tocarmos nas feridas vamos dar voz ao sambista. Fomos marginalizados ao longo da história. Apesar de tudo o espaço do samba é amplamente democrático, a qualquer tipo de grupo social. Deve ser o mais democrático do país. Respeite o que lhe parece feio, é a mensagem que pretendemos com nosso enredo – finaliza.