Barracões do Especial: Leandro Vieira aposta em Mangueira ‘subversiva’ em enredo crítico

barracao_2018_manga4‘Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco’. O enredo da Mangueira para o Carnaval 2018 passará longe de criticar o corte de verbas da Prefeitura do Rio para as escolas de samba. Na série de reportagens em que a equipe do CARNAVALESCO visita os barracões da Cidade do Samba, conversamos com Leandro Vieira, carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira. É o próprio quem diz que a crítica se dará a todo o sistema atual de financiamento dos desfiles.

– Na época da divulgação do enredo acho que ainda não havia clareza com relação ao posicionamento perseguidor em relação às manifestações da cultura popular por parte do bispo. O enredo da Mangueira não vai se propor a falar de corte de verbas, não é isso. O corte evidencia uma crise do modelo de desfile. Seguido do posicionamento da Liga, de ameaçar não desfilar, ficou explícito o quanto o pensamento atual é de que o capital determine a realização dos desfiles. Eu acredito no contrário. Quanto menos engessado mais carnavalesco. Essa discussão é responsável pelo nascer do enredo da Mangueira. A gente se propõe a pensar essa relação – avisa.

Leandro Vieira aposta na transgressão para conquistar os jurados. A Mangueira completa 90 anos em abril deste ano e o carnavalesco busca apresentar um desfile que fugirá totalmente aos padrões históricos da verde e rosa.

barracao_2018_manga3– A escola sempre foi tida como tradicionalista e ultra conservadora. Recentemente passou por uma transformação que rejuvenesceu sua aparência plástica e conceitual. O enredo que ela apresenta ao completar 90 anos mostra o quanto a escola é, atualmente, contemporânea. Acho emblemático para a própria Mangueira essa questão. A escola nunca se viu tão jovem, tão subversiva, tão contestadora. E isso, para a própria escola é importante uma vez que, de fora, pode-se observar o quanto a Mangueira está viva e o quanto manifestações culturais – como as agremiações são – vivem de ciclos – destaca.

O título do enredo mangueirense veio da marchinha ‘Eu Brinco’, de Francisco Alves, que diz que dá para brincar carnaval com pandeiro ou sem pandeiro e com dinheiro ou sem dinheiro. Leandro Vieira insiste que a força do dinheiro não é determinante no aspecto artístico e ressalta quem vem brincando sem dinheiro desde seu primeiro desfile em 2015.

– É possível brincar sem dinheiro e eu venho demonstrando com meus trabalhos esse discurso, não é só em 2018. Quem presta atenção no meu trabalho pode confirmar essa tese. Na minha estreia na Caprichosos em 2015 eu tinha um setor que questionava essa dança de cadeiras dos profissionais do carnaval. Em 2016 a Mangueira foi campeã gastando muito menos que se imagina. Gosto de criar figurinos e carros bonitos depois da reunião de materiais simples – conta.

Embora já tenha conquistado um campeonato no ano de sua estreia no Grupo Especial, algo muito raro, Leandro revela ao CARNAVALESCO que ainda está em busca de encontrar um estilo de carnaval, pois, segundo o artista, não foi possível atingir em tão poucos trabalhos autorais.

– O meu trabalho segue o desenvolvimento de um estilo, que eu ainda não encontrei. Em quatro carnavais não é possível construir nada. O que tenho buscado é atingir um conceito, de acordo com as minhas referências do que é bom artisticamente. Procuro dar outro significado para materiais, objetos. Sou bem tradicionalista no sentido de fazer carnaval. Gosto de comandar o barracão – afirma.

Leandro acredita ser um artista tradicionalista, mas bebe em algumas referências da modernidade dos desfiles. Com o barracão nas mãos, rechaça dar pistas do que o desfile da Mangueira possa apresentar e prefere não esmiuçar os setores da apresentação da verde e rosa em 2018. Segundo ele, a setorização diz muito sobre o desfile. Leandro afirma que o hábito de ler constantemente facilita na hora de realizar pesquisas.

– De uma maneira geral eu sou um carnavalesco que tem por hábito a leitura. Gosto de ler. Isso de uma certa forma me dá um repertório e eu tenho vontade de falar sobre determinados assuntos. Nesses três anos na Mangueira eu desenvolvi enredos autorais. De uma maneira geral todos os enredos que propus aqui fazem parte da minha realidade. Dessa forma a minha pesquisa já é existente – comenta.

Questionador, Leandro sai em defesa de uma medida polêmica adotada pela Mangueira no desfile de 2018. O corte da ala das crianças. O artista esclarece que não foi um decisão orçamentária e afirma que a escola veste 2 mil crianças da Mangueira do Amanhã no desfile mirim.

– Sobre a ala das crianças cabe um esclarecimento. Foi divulgado que a Mangueira estava finalizando a ala devido ao corte de orçamento. O não desfile da ala esse ano não teve nada a ver com isso. Infelizmente é muito difícil, por conta de uma burocracia enorme, colocar uma ala de crianças na avenida. Em 2016 e 2017 a escola pagou uma multa altíssima por estar em desacordo com as regras do juizado. Não foi uma questão financeira, mas burocrática. Ano passado a ala das crianças foi proibida de entrar com o desfile iniciado. Só desfilaram porque o presidente assinou um termo se comprometendo. Para ter esse desgaste, é melhor o investimento nas 2 mil crianças que desfilam na Mangueira do Amanhã – pondera.