Barracões do Especial: Mocidade terá bateria e Camila Silva representando cravo e canela em enredo sobre a Índia

mocidade01Em busca do bicampeonato a Mocidade Independente de Padre Miguel não vai mexer em time que está ganhando. O enredo ‘Namastê: a estrela que habita em mim saúda a que existe em você’ não versará apenas sobre a cultura, a sociedade e a religiosidade da Índia. Como fez no vitorioso enredo sobre o Marrocos, a Estrela Guia procurará relacionar a brasilidade com o país homenageado. O carnavalesco Alexandre Louzada conta em conversa com o CARNAVALESCO que poucos países tiveram tanta influência na formação do Brasil como a Índia. Ele confessa que propôs à escola uma mudança na linha inicial do enredo.

– A proposta tinha a ver com a Índia, mas era só boi. Quando surgiu essa ideia eu fiquei bastante preocupado. Com tantos anos de trabalho a Índia já passou por mim algumas vezes. Ofereci uma segunda linha de pensamento dentro do que a escola vendeu e aí eles toparam. Ele se tornou um grande enredo graças ao auxílio luxuoso do jornalista Fábio Fabato. Suas orientações foram decisivas para eu chegar nesse tema como ele é hoje – conta.

mocidade03Alexandre Louzada tem um estilo de carnaval característico. Alegorias enormes, fantasias muito luxuosas. Ele diz o que será visto no desfile da Mocidade em termos de materiais.

– Tem muita pedraria. Vou colocar uma escola bastante colorida na avenida. O meu estilo está um pouco mais clean que o normal. Podemos esperar uma escola luxuosa. Mas eu esse ano tenho até cesta de pão de plástico. Essas coisas facilitam nossa vida, para ter algo que ninguém tem. Na bateria da Mocidade por exemplo terei broches que são lembrancinhas de casamento, que farão a função de uma flor de lótus. Estou buscando coisas que não são comuns, só eu tenho. Podem copiar depois, mas aí já estou em outra – provoca.

Campeão do carnaval seis vezes por quatro escolas diferentes, Alexandre Louzada não teme a pressão por mais um título na escola. Segundo ele, mais difícil que agradar os jurados é contemplar o gosto da exigente torcida da Mocidade.

– Trabalhar na Mocidade, por vários aspectos, é uma tarefa difícil. Quem conhece a torcida da escola sabe o quanto eles podem te ajudar a ganhar mas também a perder. O meu maior desafio é com os próprios independentes. Pode parecer um exagero, mas o nível de exigência deles é até maior que o próprio júri – brinca.

mocidade07Louzada explica que novamente irá buscar apresentar um projeto didático para que haja uma compreensão fácil do corpo de julgadores, que possui o perfil de procurar falhas em detrimento de valorizar o todo dos desfiles.

– O público precisa ver o samba dentro da avenida. É preciso compreender que cada julgador tem um gosto e percepção de mundo. Fazer carnaval é trabalhar com sensibilidade. A Mocidade foi punida por aquele jurado por uma falta de destaque que não interferia em nada no entendimento do enredo. Eles irão buscar isso novamente. Por isso nós temos que ter essa ideia de deixar o entendimento bem simplificado. Minha maior escultura esse ano não se compara com nenhuma outra que já coloquei na avenida, em termos de altura. Vamos seguir essa característica esse ano – opina.

Sobre a crise financeira que atingiu o carnaval das escolas de samba Louzada diz que falta de dinheiro não é uma novidade para quem trabalha no meio, mas que as paralisações atrapalharam a construção do projeto sensivelmente.

– Eu acho que para todos foi bastante difícil. Quando se tem um problema financeiro você resolve com criatividade. Mas as paralisações prejudicaram demais. A Mocidade não foi interditada mas paralisou em solidariedade às demais. Foram cerca de 45 dias contando todas as pausas e em um momento em que as agremiações começam o carnaval. Nesse sentido foi o ano mais difícil dessa minha trajetória – relata.

mocidade10Conheça o desfile

Setor 1: “A Mocidade tem como símbolo uma estrela. O hinduísmo é baseado em uma trindade: o início, o fim e o meio. Brahma é o princípio de tudo. Vishnu mantém e Shiva é o fim. Fizemos esse casamento vindo do céu, como a nossa estrela, Na mão de nossa Shiva teremos as seis estrelas, que são nossos campeonatos. Nosso abre-alas é a grande celebração de um casamento. Cintia Abreu e João Batista (destaques) são os dois primogênitos do mito da criação”.

Setor 2: “O enredo começa e termina na Índia mas o meio é o Brasil. Mostramos as caravelas aqui chegando com todo aquele paraíso verdejante que contaremos de uma forma indiana, como se árvores fossem torres de palácio. Associamos os nativos brasileiros com as divindades hindus. Toda mitologia de uma cultura é relacionada à uma historia de amor”.

Setor 3: “A primeira coisa que veio da Índia foi a cana. O símbolo é o arco e flecha do Deus Khama, que é feito de cana. Foi a primeira coisa que chegou aqui originária do país indiano”.

mocidade06Setor 4: “Ainda na Colônia se desenvolvem a seda, perfume, leques, shitas. Depois os temperos que geram nossa culinária. Foram imortalizados produtos que são indianos, como banana e côco, todos originários da Índia. Assim como entidades do samba, como a Mangueira, a Jaqueira e a Tamarineira. Fazemos um interessante casamento de dois temperos clássicos indianos com a bateria e a rainha, que serão cravo e canela e a própria Gabriela”.

Setor 5: “O boi. Todas as matrizes de gado que deram certo no Brasil são indianas. Quando chegou ao Brasil virou folclore. Arte na mão de mestre Vitalino, o boi de mamão, o pintadinho, o boi do Maranhão e o boi de Parintins. Aqui, além de alimento, se tornou parte de nossa cultura”.

Setor 6: “Existe um festival indiano chamado Holly, que comemora a vitória do bem sobre o mal. Ele acontece no mesmo período do carnaval e tem uma filosofia parecida. No nosso Holly fazemos uma manifestação contra o xenofobismo e os preconceitos, pedindo tolerância. Em Nova Dheli existe um templo em formato de uma flor de lótus onde estão representadas todas as religiões. A gente traz esse momento na avenida, fazendo uma reunião de respeito às crenças. Quando falamos de Nehru, Dom Helder, Chico Xavier, é uma mensagem de paz, pois foram pessoas que vieram ao mundo para pacificar. Encerramos louvando a unica santa indiana, Madre Tereza de Calcuthá”.