Barracões do Especial: Salgueiro olha para o passado para mostrar empoderamento feminino em desfile cercado de expectativas

Para buscar a sonhada décima estrela e bordá-la em seu pavilhão, o Salgueiro pretende unir o passado e o presente com o enredo ‘Senhoras do Ventre do Mundo’. O estreante na Academia do Samba, Alex de Souza, conversou com a reportagem do CARNAVALESCO sobre o desfile. Na última década essa será apenas a terceira vez que o enredo salgueirense terá uma temática afro. E revisitando sua identidade histórica que o desfile da vermelha e branca pretende trazer temas bem atuais.

alex_souza– É um enredo que não foi proposto por mim. Já estava sugerido pela presidente Regina. Tem a ver com o Salgueiro, com o empoderamento feminino. E é negro. Esse material que chegou até mim eu tive de transformar em um desfile de escola de samba. Vi nele coisas muito interessantes, principalmente com relação à identidade salgueirense. Em 1963 o Salgueiro homenageou uma mulher negra desconhecida. A década de 60 salgueirense marca até hoje. Vez ou outra a escola se afasta dessa linha. Voltar justamente comigo é uma responsabilidade maior. O enredo tem afinidade com o componente, o torcedor. E ao mesmo tempo tratar de algo muito contemporâneo. Nos últimos anos com essa polarização das discussões políticas, em um ano eleitoral, o posicionamento das mulheres negras é muito importante – explica.

Alex de Souza chega a um Salgueiro diferente, como gostam seus torcedores. Depois de 15 anos da Era Renato Lage, um de seus maiores pupilos, foi o escolhido para conduzir os caminhos da Academia do Samba. Alex diz que foi surpreendente o convite, mas não tem medo em apontar que esse é o seu melhor projeto no aspecto criativo e visual.

– O Salgueiro é uma escola muito forte. Pelo seu histórico e carisma que possui. Sempre é uma expectativa grande pelos desfiles salgueirenses. Foi uma surpresa para mim ser convidado para estar aqui. Mesmo não sendo um enredo meu você tem uma base do que é o desejo da agremiação. É um de meus melhores trabalhos em termos de criação e visual – considera.

Ao contrário do que muitos pensam, o Salgueiro não está nadando em dinheiro. Assim como todas as agremiações encontrou muitas dificuldades financeiras para concluir este projeto. Segundo Alex de Souza, não foi apenas o aspecto financeiro que impôs dificuldades este ano, mas também a escassez de tempo.

– Além da crise o pior foi a interdição do ministério do Trabalho, Ficamos praticamente um mês parados para atender as exigências deles em relação à segurança. Era algo que poderia ter sido feito após os desfiles. Mas perdemos tempo em um mês importante da produção do carnaval. Um ano atípico, complicado mesmo. Nosso papel é tentar criar de uma forma muito mais prática. É preciso ter noção daquilo que se projeta do que pode não fazer tanta falta. A dificuldade com os materiais também foram muito grandes esse ano. Dinheiro é importante, mas tempo é fundamental – lembrou.

O que esperar da escola cromática salgueirense? Depois de uma inundação vermelha e branca em 2017, a proposta é uma escola com maior variação de cores em 2018 e uma maior variedade de materiais, uma vez que, segundo Alex de Souza, os jurados pedem uma grande quantidade de variação.

– O início da gente, quando falamos da grande mãe vermelha, temos cores quentes. A partir daí vamos para um tom laranja e ouro com toque de rosa e lilás na parte egípcia. A parte da guerra é bem vermelha e branca, as cores da escola. Depois teremos um predomínio branco com toques de ouro, laranja e verde. Depois puxamos pelo amarelo e encerramos novamente com o vermelho e branco tradicional salgueirense. Os materiais estão bastante variados, pois eu vejo que julgadores pedem essa variação – explica.

Entenda o desfile

“A gente inicia tanto com o lado espiritual quanto científico, relacionado ao surgimento do homem. Existe um estudo científico que diz que a espécie humana vem da África. Depois vamos contando a história das mulheres negras como regentes, divindades, civilização egípcia, grandes guerreiras e generais na África e no Brasil. No nosso país toda a parte colonial, na formação do povo brasileiro como a culinária. Depois atingimos a parte espiritual. A grande família africana através dos cultos. No fim teremos as cantoras, escritoras. Homenageamos as mulheres que fizeram a história do Salgueiro”.