Barracões do Especial: Tuiuti terá sete representações de Debret em alegoria com pintura de arte

tuiuti08‘Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?’. O enredo do Tuiuti para o Carnaval 2018 é uma pergunta. Será que estamos de fato vivendo em liberdade? Ou as correntes sociais dos dias de hoje são as novas práticas escravocratas do século XXI. Indagações que a azul e a amarela de São Cristóvão pretende colocar na cabeça das pessoas. O carnavalesco Jack Vasconcelos recebeu nossa reportagem no barracão da agremiação para a série de reportagens que está contando os bastidores da criação dos desfiles para o Carnaval 2018.

Segundo o artista responsável pelo desenvolvimento do enredo do Tuiuti, as respostas às perguntas que o desfile vai fomentar ficará à cargo de cada um. Mas perguntado sobre o posicionamento dele, Jack não se furtou em responder.

– A gente joga esse questionamento para quem vai assistir. Não tomamos partido, isso será a visão de cada um, através de um desenvolvimento histórico. A resposta do Jack é não, a escravidão não está extinta. Mas sempre tem um maluco para dizer que sim. O nosso encerramento mostra o explorador e o explorado para as pessoas perceberem o contexto em que estamos inseridos. Esse discurso de que é possível negociar com o patrão como se fosse uma situação igualitária não existe na prática – questiona.

tuiuti07Seguindo no aspecto atual do enredo, apesar de o desfile apenas tocar na contemporaneidade em seu último setor, Jack Vasconcelos afirma que basta assistir ao noticiário para perceber toda a temática que a escola levará para a avenida diariamente na casa de todos os brasileiros.

– Esse enredo é nutrido diariamente, é só ligar a TV. A gente caminha para transformar as carteiras de trabalho em novas cartas de alforria. Os acontecimentos nos abasteceram. E isso para a gente é muito bom. Estou tendo até que cortar algumas coisas, mediante tanta informação que surge – opina.

Pintura de arte em alegorias é xodó do carnavalesco

O Tuiuti terá um trabalho de pintura de arte na quarta alegoria de seu desfile, com representações do artista Jean-Baptiste Debret, pintor francês que integrou a Missão Francesa que passou pelo Brasil em 1817.

– Temos um trabalho impressionante de pintura de arte com o Filé. O carro quatro possui sete murais de representações de Debret pintados à mão, não são plotters. A Lei Áurea do tripé também será pintada à mão. O assoalho do navio negreiro também na própria alegoria – conta.

tuiuti01Ainda de acordo com o carnavalesco do Tuiuti, o desfile da escola apostará em materiais metálicos e muita digitalização, para suprir a escassez de materiais.

– A gente tem muito material digitalizado em tecido, para conseguir manter o projeto, pois o acesso aos importados foi difícil. Muita coisa metálica, como acetato. É um carnaval de design forte. Parto do princípio da estética da corrente – conclui.

Ao falar sobre a crise, Jack Vasconcelos afirmou ao CARNAVALESCO que já fez carnavais em maior dificuldade que este e que os artistas que já passaram pelo acesso tem maior facilidade em lidar com aspectos de limitação financeira.

– Para mim não é o pior, não quer dizer que não esteja fácil. Nessa hora quem tem uma experiência mais recente de Acesso leva uma pequena vantagem, de já estar acostumado a fazer carnaval com menos dinheiro e mais dificuldade. Não foi necessário realizar grandes adaptações ao projeto, mas uma certa escassez de materiais me obrigaram a realizar pequenos ajustes. Tivemos um problema mais relacionado a isso que corte no projeto por decisão da escola – explica.

tuiuti03Entenda o desfile

Setor 1: “A gente vai traçar um paralelo de nossa comunidade com um quilombo. Onde é necessário resistir é porque existem mazelas. Será uma analogia com o morro do Tuiuti”.

– Setor 2: “O hábito da escravidão nas civilizações antigas”.

– Setor 3: “O crescimento mercadológico da escravidão na África, que se tornou o maior mercado da história da humanidade”.

– Setor 4: “Chegaremos ao Brasil. Como essa mão de obra chega aqui e aquece os ciclos econômicos”.

– Setor 5: “Os abolicionistas e como chegamos à Lei Áurea por consequências muito mais econômicas que humanitárias”.

– Setor 6: “A consequência disso tudo. A continuação do uso da massa da população como braço e a manipulação disso”.