Bate-papo na Uerj avalia situação das escolas dos Grupos C, D e E

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Distante dos olhos da grande mídia e da merecida assistência por parte do poder público, as escolas de samba dos Grupos de Acesso C, D e E foram o assunto da vez na mesa de bate-papo do Centro de Referência do Carnaval da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) na manhã desta quarta-feira. Ricardo Barbieri – mais conhecido como Ricardo Delezcluze -, colunista do CARNAVALESCO, Chico Frota, que ao lado de Ricardo produz dvd´s com imagens dos desfiles, e o carnavalesco e comentarista Luiz Fernando Reis foram os debatedores do evento, que teve a mediação de Felipe Ferreira, professor da UERJ.

De maneira informal e descontraída, o encontro possibilitou a participação do público presente nas questões levantadas pelos convidados, que pediram uma profunda mudança na maneira com que as escolas são tratadas pelo poder público e até mesmo pelos amantes do Carnaval. O bate-papo foi batizado com o tema ''Pequenas Escolas de Samba'' e Luiz Fernando Reis começou falando sobre a definição de uma escola considerada de pequeno porte.

– Achei o nome até meio preconceituoso no início, mas na essência é isso aí mesmo. São escolas de um investimento financeiro e comunidade menores. Nós precisamos olhar para as agremiações desses grupos com uma outra ótica. O Carnaval dos Grupos C, D e E é outra manifestação cultural, é Carnaval de rua. Totalmente diferente das escolas do Grupo Especial. As escolas grandes vendem o espetáculo, as pequenas fazem o espetáculo. A Prefeitura sim, deve olhar com o mesmo olhar, dar condições para que elas desenvolvam o seu Carnaval com dignidade. É um absurdo decretar que escolas virem bloco. Está totalmente fora do contexto – disse Luiz, citando as agremiações que ficam nas últimas colocações do Grupo de Acesso E e são suspensas do desfile do ano seguinte.

Para Ricardo Delezcluze, as escolas tidas como pequenas precisam ser enxergadas de uma maneira diferente por todos que acompanham o Carnaval.

– Elas não podem ser vistas como coitadinhas, mas sim com um potencial para se tornarem grandes um dia. No Grupo C, por exemplo, existem muitas escolas que já passaram pelo Grupo Especial. Isso sem contar a Unidos de Lucas, que venceu este ano o Grupo E e é queridíssima por todos. Essas escolas não fazem parte nem dos folhetos culturais que a Prefeitura distribui durante o Carnaval. São esquecidas. Outra coisa que precisa mudar também é essa história de sobe uma e cai uma nos grupos de cima. Isso praticamente impossibilita algumas escolas de chegarem à Marquês de Sapucaí. Cria um comodismo que não é benéfico para o Carnaval.

Já Chico Frota, além de concordar com alguns pontos da vista dos colegas sobre a questão, lembrou outros aspectos. Ele elogiou o trabalho feito pela Associação das Escolas de Samba na administração do atual presidente Eduardo José, o Zezinho Orelha, e explicou o porquê de caírem quatro escolas por grupo em 2011.

– O que acontece hoje é uma medida contra o inchaço que os grupos de acesso sofreram nos últimos anos. Antigamente havia uma comissão de avaliação dos blocos que quisessem se transformar em escolas de samba que, na verdade, não avaliava nada. As escolas compravam uma vaga no Grupo E, isso não pode acontecer. Existiram vários casos disso. O desfile não pode começar às sete da noite e terminar às dez da manhã. Este ano, por exemplo, tivemos 16 escolas no Grupo C – afirmou o produtor musical.

Entre outros temas, a diferença no valor das subvenções públicas entre os grupos foi abordada. Para dar dimensão da disparidade entre o montante de verba recebida pelas escolas do Grupo Especial e do Grupo E, os convidados comentaram os valores de R$ 5 milhões para as agremiações da elite do Carnaval e os R$ 40 mil para as que integram a ''sexta divisão'' carioca. Além disso, pediram mais fiscalização para  rumo que os dirigentes dão a esse dinheiro 

Ainda baseado na questão da diferença entre os desfiles da Intendente de Magalhães e os da Marquês de Sapucaí, Luiz Fernando Reis pediu mudanças também na forma de julgamento. Para ele, quesitos como harmonia, por depender de um sistema de som eficiente, e alegoria, pela situação financeira das agremiações, acabam perdendo o sentido nestes grupos. Chico Frota discorda, na visão dele uma escola de samba, seja ela do Grupo E ou C, precisa estar em conformidade com tudo aquilo que é existente no Grupo Especial. Dentro, é claro, das devidas proporções.

– Se tirar comissão de frente e outras coisas vai virar bagunça. O julgamento é comparativo dentro do Grupo que está sendo julgado. Não adianta o julgador comparar com o Grupo Especial. Ele tem que dar dez para a melhor comissão do Grupo que ele está julgando –  afirmou Chico.

Luiz Fernando também pediu novos modelos de gestão para que as escolas consigam driblar a limitação financeira. Ele lembrou que o pensamento dos dirigentes das agremiações ainda  é muito retrógrado.

– Você colocar algo na cabeça de um presidente de uma escola de samba é muito difícil. Eles são, em sua grande maioria, muito vaidosos e acabam perdendo algumas oportunidades boas. Essas escolas, às vezes, tem mais representatividade dentro de suas comunidades do que as escolas grandes – conclui o carnavalesco, que pediu mais democracia e menos despotismo nas agremiações

A diferença na estrutura necessária para uma escola que sai do Grupo C para o Grupo B também foi lembrada por Chico Frota. Para explicar isso, ele falou sobre uma situação bem recorrente às escolas de samba: a figura do patrono.

– Não tem jeito! Para que essas escolas consigam pelo menos se segurar no Grupo B, tem que ter alguém por trás investindo. Exemplos para isso não faltam. A União do Parque Curicíca é uma escola que hoje briga para chegar ao Grupo A exatamente por isso. A Renascer é a mesma coisa. Se não tiver alguém ajudando acontece como o que aconteceu com o Corações Unidos do Amarelinho, que estava no B em 2010 e em 2012 estará no Grupo D. Com a Unidos de Lucas também, que teve uma queda vertiginosa.

Luiz Fernando Reis lembrou a necessidade de assuntos debatidos nas mesas de eventos, como o ocorrido nesta manhã na Uerj,  cheguem até os dirigentes das escolas de samba. Ele avalia que os mandatários tem dado de ombros para as iniciativas.

– Vou usar uma expressão até baixa para definir isso, mas às vezes acho que eles cagam e andam para o que nós discutimos aqui. Isso aqui é muito importante. Todos nós gostamos de Carnaval e queremos ver o melhor para as escolas. Acho que eles pensam que somos loucos que ficam escrevendo bobagens na internet. Temos que mudar esse cenário.

O próximo tema a ser debatido no Centro de Referência do Carnaval na Uerj, que já promove encontros do tipo desde dezembro de 2008,  deverá ser a participação da imprensa na Carnaval.        

    

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