Beija-Flor eleva o tom crítico, bota o dedo na ferida e conquista público em desfile com erros em quesitos

Por Guilherme Ayupp

beija-flor_desfile_2018_053Novamente, a Beija-Flor de Nilópolis trouxe um desfile carregado de propostas diferentes e ousadas. A azul e branca elevou o tom crítico em seu enredo, conquistou os presentes no Sambódromo e a opinião pública. Ficou deixou um pensamento dúbio na cabeça das pessoas. O que vai acontecer com a escola? Os jurados irão julgá-la na letra fria dos quesitos e regulamento ou a ousadia que lembrou Ratos e Urubus irá conduzir a escola ao seu 14º título? Apesar da pesada crítica e do discurso em tom elevado, os quesitos como enredo e alegorias apresentaram falhas no desfile.

Samba-Enredo

beija-flor_desfile_2018_33-7Funcionamento perfeito da obra nilopolitana. O intérprete Neguinho da Beija-Flor levantou as arquibancadas com a condução de uma das obras mais populares do carnaval. O refrão que trazia uma mensagem forte acabou sendo bastante cantado pela escola e pelas próprias arquibancadas. Em perfeita harmonia com a bateria o carro de som foi o ponto alto da atuação do samba.

Evolução

Com fantasias volumosas os componentes não se fizeram de rogados e evoluíram e cantaram no padrão Beija-Flor de desfiles. A escola teve coesão e sequenciamento sem dificuldades. As alas não precisaram correr ou parar por muito tempo, além das naturais paradas técnicas, para apresentações. Os componentes evoluíram com alegria e desenvoltura.

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beija-flor_desfile_2018_033Harmonia

A Beija-Flor voltou a exibir o seu padrão rolo compressor de harmonia. As alas cantaram forte o samba-enredo. Em todos os setores houve a mesma intensidade de canto. A comunicação com o público ocasionada acabou impulsionando arquibancadas e frisas a também cantarem o que deu ainda mais volume.

Comissão de Frente

A realização da coreografia se deu de maneira confusa e sem clareza, dificultando sensivelmente sua compreensão. A apresentação abordou a síntese do enredo através da representação ‘Frankenstein ou o Prometeu Moderno’. A obra de terror gótico, da autora Mary Shelley, inspirada na semelhança de caráter entre a personagem do mito ‘Prometeu’ e o ‘Dr. Victor Frankenstein’. Não houve comunicação com o público.

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beija-flor_desfile_2018_29-3Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Claudinho e Selminha Sorriso parecem vinho. A cada ano que passa fazem melhores apresentações. A porta-bandeira portava uma fantasia deslumbrante. O entrosamento de mais de vinte carnavais fez mais uma vez grande diferença. A indumentária toda em branco vinha na sequência do tripé depois da comissão de frente. A concepção da apresentação foi baseada no preâmbulo de abertura do livro que inspirou o enredo.

Fantasias

beija-flor_desfile_2018_33-21Um acerto da comissão de carnaval a concepção das fantasias. Estavam bem adequadas ao enredo e a realização dos figurinos teve uma das leituras mais compreensíveis de todo o Grupo Especial. Destaque para a ala de baianas, ‘Santinhas do pau oco’, que representou uma das primeiras ações de sonegação de imposto do país: que usavam as imagens santas para esconder o ouro e outros artigos de valor. A ala 4 que fazia referência à corte da mamata também se destacou no conjunto. A sétima ala do desfile, que representava os escândalos de corrupção da Petrobras, também merece citação. Para conferir ainda mais leitura ao conjunto de fantasias foram usados muitos objetos que todos têm acesso na reprodução das roupas.

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beija-flor_desfile_2018_051Alegorias

Acostumada a oferecer ao público um conjunto alegórico de alto nível, a Beija-Flor pecou seriamente no quesito. Houve falhas de concepção e realização em praticamente todos os carros. O tripé que trazia uma geleira tinha falhas de acabamento e o girar do rosto que ele formava falhou ao longo de sua passagem pela avenida. O abre-alas, que trazia um barco viking, tinha também falhas de acabamento em seu casco na parte inferior.

O acabamento também deixou a desejar no tripé ‘O banquete’. A segunda alegoria falhou na concepção ao misturar no mesmo elemento a Petrobrás e o Congresso Nacional, que ficam em cidades diferentes. A terceira alegoria, ‘O abandono’, até trazia uma forte mensagem contra a intolerância. Mas as partes que formavam o rosto do Frankenstein passaram desmontadas pelo terceiro módulo de julgamento. O quarto carro, ‘A intolerância’, foi o mais bem realizado pelo conjunto alegórico.

beija-flor_desfile_2018_058Enredo

A Beija-Flor propôs mostrar na avenida a relação do Frankstein com o seu criador. A partir daí trouxe o questionamento: quem é o monstro da história? Ficou evidente que os monstros que causam as mazelas sociais do Brasil. A concepção agradou o público que se identificou com a proposta, motivado pelo momento complicado vivido pelo país. A identificação foi imediata. Entretanto, o desfile teve falhas graves de realização da proposta. A setorização não se mostrou de maneira clara na avenida, carecendo de uma melhor continuidade entre um setor e outro. No final do desfile o tripé ‘A redenção’ veio à frente do ato 9, ‘Passeata Popular’. Porém, segundo o roteiro oficial de desfiles fornecido pela Liesa, ele deveria encerrar o desfile.

beija-flor_desfile_2018_070Outros Destaques

A Beija-Flor levantou a avenida com a sua passagem. Os primeiros minutos do desfile sacudiu os setores 3, 4 e 5. Um momento tenso antes da apresentação da comissão de frente aconteceu no terceiro módulo de julgamento. Um desavisado oriundo de um camarote se posicionou à frente da cabine. O filho do patrono da escola, Gabriel David, o puxou para não atrapalhar a visibilidade dos jurados. O clima ficou tenso. O povo, identificado com a proposta da Beija-Flor, veio junto com a escola no final do desfile, que terminou de maneira apoteótica.