Beija-Flor: O rolo compressor da Passarela

"É ela maravilhosa e soberana, de fato nilopolitana". O seminário realizado na noite de ontem, na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), teve como tema: "Beija-Flor: do Governismo ao Surrealismo, 35 anos de revoluções". O curador e mediador do evento foi o pesquisador Fábio Fabato, e os convidados foram Laíla (diretor de carnaval), Neguinho da Beija-Flor (intérprete), Selminha Sorriso (porta-bandeira), Pinah ( eterna destaque que hoje faz parte da diretoria), Milton Cunha (carnavalesco na agremiação de 1994 a 1997), Marcelo de Mello (jornalista do jornal O Globo).
 
A escola, fundada no Natal de 1948, conquistou o seu primeiro título no carnaval de 1976, com o enredo "Sonhar com rei dá leão", entrando  de vez no hall das grandes campeãs do carnaval carioca. Passados 35 anos, a Beija-Flor totaliza 12 campeonatos e 11 vices. A proposta do seminário foi entender mais sobre a força da escola no evento. Os debatedores falaram sobre o próprio carnaval que deu início os títulos, sobre a tão falada comunidade ou "chão" da escola, a ida do Laíla para a agremiação, carnaval inesquecíveis, comissão de carnaval, entre outros assuntos.
 
Logo de início questionado por Fabato, o jornalista Marcelo de Mello explicou sobre a revolução da Beija-Flor em 1976:
 
– No início da década de 70, as alegorias e as fantasias já tinham um peso para levar dar a vitória à escola. A Beija- Flor soube aproveitar isso. Já existia uma necessidade de furar o bloqueio das quatro grandes da época. Em 76, a Beija-Flor ganha e depois conquista o bi e tricampeonatos, consolidando esse processo. Isso não foi por acaso; você ter um patrono com bom investimento financeiro e um grande carnavalesco eram quase uma garantia de ganhar o carnaval. E como a escola não tinha figurado nem entre as quatro primeiras posições ajudou muito o estilo de Joãosinho Trinta e do Laíla em implementar novos recursos. A Beija-Flor é consolidada, foi um processo a longo prazo, tanto é que ela hoje figura sempre entre as melhores.
 
Em seguida, foi a vez de Laíla explicar sua chegada à escola de Nilópolis.
 
– Eu tomei a decisão de sair na frente do Joãosinho (Trinta), em 75, após o carnaval. O enredo de 76, a ideia é do Anísio. Ele queria falar do Natal, fazer uma alusão ao jogo e aí surgiu esse título do João. Não houve negociação nenhuma, foi apenas na palavra. E queria aproveitar e dizer que, em 76, eu não saí na Beija- Flor, apenas colaborei. Por exemplo, a escola queria um samba e eu, na época, tinha falado que o melhor era o do Neguinho. Eu tinha dúvida do Salgueiro e Beija. O João disse que, se ganhasse o título, iria falar que eu ajudei e que se fosse para ganhar no ano seguinte iria precisar de mim. Depois disso, como todos sabem, eu sou espírita, procurei meus caminhos espirituais e tive o aval que me dizia  "vai que você será muito feliz".
 
Laíla continuou e falou sobre comunidade da agremiação:
 
– Quando nós começamos foi com a ala de baianinhas, era o que tinha. O resto eram alas comerciais. Em 95, o Milton Cunha queria colocar pessoas no Cisne. E eu perguntei para ele o porquê de não colocar pessoas em todos os cisnes.
 
Com isso nós tivemos 150 pessoas, no ano seguinte já tinhamos 600. Durante essa época, a escola estava confusa, departamentos se metendo em outros departamentos, aí comecei a analisar que a escola não ganhava devido à desorganização. Então comecei a conviver da minha maneira. E, hoje, nós temos a felicidade de termos 2.800 pessoas que vamos dar de roupa no próxima ano. Criamos a comunidade em 1995.
Laíla também deixou claro que quem faz essa comunidade não são apenas moradores de Nilópolis, e sim de outras regiões, como Ricardo de Albuquerque, Anchieta e outras partes da Baixada.
O único intérprete atualmente que até hoje defendeu uma única escola de samba é Neguinho da Beija-Flor. Ele, que chegou na agremiação como compositor (venceu o samba de 1976), hoje é um ícone da escola. Neguinho contou sobre sua chegada à agremiação e o surgimento do famoso grito de guerra:
 
– O Anísio ficou sabendo de mim na época do Leão de Nova Iguaçu. Ganhei o samba em 76. O cantor da escola era o Abílio Martins, que não conseguiu gravar o meu samba e pedi ao Anísio para fazer essa gravação. Na época, ainda era o Neguinho da Vala. Um amigo de Belford Roxo, muito amigo do Anísio e meu também, pediu para tirar o "Vala" e colocar o Beija-Flor no lugar. E ficou isso desde então. Já o grito de guerra, antigamente eu gritava "olha o camburão". O produtor na época era o Lourival Reis, e ele perguntou "de quem era a vez". Eu estava cochilando e dei um grito "Olha o Beija-Flor aí gente", e ficou, porque o microfone estava perto. Depois disso, escutei no disco.
 
Pinah, está na Beija-Flor há 33 anos. Foi destaque da escola durante muitos desses anos. Desfilou também no Salgueiro antes de ir para a agremiação Nilopolitana. Hoje faz parte da diretoria da escola, porém tem uma trajetória de muito sucesso, chegando a sambar com o príncipe Charles. Ela aproveitou para explicar a vida de modelo e a mudança para o carnaval:
 
– Eu fazia moda, e nessa área conheci o Oscar Ribeiro, que fazia o desfile de fantasia do Teatro Municipal. Ele me perguntou se tinha coragem de raspar o cabelo e eu disse que sim. Depois disso, abandonei tudo – a contabilidade, a moda -, e fui tomar esporro do Laíla (risos). Esporro não mais; na Avenida ele empurra (risos). Em 83, participei do enredo da escola.

O sempre irreverente Milton Cunha, carnavalesco da agremiação por quatro oportunidades, falou sobre como foi ser um novato no carnaval em uma escola tão grandiosa:
 
– A profissão de carnavalesco não era uma das possibilidades da minha vida. Eu sonhava com moda e diretor de teatro ou ópera. Eu queria fazer um balé sobre a Margareth Mee. O Anísio escutou esse meu papo e pediu para eu desenhar sobre. Eu desenhei umas 70 alas e uns 40 carros. Quando ele viu, ele disse "não, é muito" e cortou para 40 alas e 12 alegorias. Aí eu dormi psicólogo e acordei carnavalesco da Beija. O problema foi que depois ele foi preso. Com isso, estar naquele turbilhão que era a Beija-Flor sem o Anísio foi um "Deus nos acuda" total. Então, nos meus três primeiros carnavais, ele estava ainda preso. Só o tive no último ano. A figura dele é muito importante, e eu não conhecia a escola com ele dentro. No primeiro ano, não tive Laíla, só no ano seguinte. Conversamos e fizemos um concurso na quadra com pessoas da comunidade. A escola é um sopro na minha vida.
 
Selminha Sorriso aproveitou para falar sobre sua trajetória até a chegada à escola de Nilópolis:
 
– Quando estava no Império Serrano, eu tive uma nota 6,5. Se não me engano, até hoje é a menor nota dada. Quase desisti do meu sonho de ser porta-bandeira. No ano seguinte, os mesmo jurados que me deram essa nota baixa me exaltaram, me dando só 10 na Estácio, quando chegamos ao título em 92, e ainda ganhei o Estandarte. O destino me proporcionou isso (chorando). Depois que vi uma pessoa ser destratada na escola (Estácio), pensei comigo mesma: "se estão fazendo isso com eles, o que podem fazer comigo?". Aí saí e fui para a Beija-Flor.
 
Neguinho falou sobre convites de outras escolas e sair da Beija-Flor:
 
– Tive vários convites de quase todas as escolas. Eu odeio ingratidão; tanto a escola quanto a família me abraçaram. Se alguém tiver que pagar, sou eu à Baija-Flor. Quando fui convidado para ir para Nilópolis, tinha convite da Portela, Império e Mangueira. Fiquei na dúvida e pensei "sou de Nova Iguaçu, é daqui mesmo, vou ficar por aqui".
 
Laíla fala sobre o carnaval de 1989 e o grande feito da escola:
 
– Esse carnaval teve a ideia do título pelo João e projetado pelo Viriato. Ninguém consegue fazer e desenvolver tudo sozinho. Existem as pessoas que colaboram, colocam a mão na massa, entre outros. O mentor é o João. A frente da escola foi uma inovação, o restante para mim foi normal. A escola já fez outros grandes carnavais. Acredito que foi o mais polêmico, mas o melhor não acho. Nós temos um grande pai, um homem que é o fio condutor de tudo isso: o Anísio. Ele não se mete em nada, apenas pede opinião. Queria saber de alguém aqui quem dá a estrutura que ele dá? Ele coloca o dinheiro dele no fogo para trabalharmos. Quando ele se for eu saio. Não só eu e sim todos que confiam nele. As pessoas que não lidam com o Anísio não sabem o grande homem que ele é.
 
Marcelo de Mello falou sobre o grande diferencial da Beija-Flor:
 
– A grandiosidade da escola. Sempre foi. E sobre "Ratos e urubus", eu vejo como uma resposta do Joãosinho, porque falavam que era uma escola de muito luxo e muita riqueza, e naquele ano eles fizeram um carnaval de impacto com material barato. A agremiação consegue manter pessoas de nome na escola durante tanto tempo. Quem hoje no Rio valoriza tanto quanto a Beija-Flor o canto? Então, isso é diferente.
Milton Cunha falou da identificação com a escola de Nilópolis:
 
– Só a Beija-Flor tinha a coragem de deixar um iniciante fazer os enredos, e isso dava alegria e traz felicidade. Eu me divertia tanto, era bárbaro. Liberdade, essa é a palavra. O prazer de fazer a Beija-Flor.

Logo em seguida, Laíla falou sobre a formação da comissão de carnaval da escola:
 
– Isso aconteceu com a saída do Milton para a Ilha. Eu pedi para ele não sair. As coisas começaram a se encaminhar para umoutro lado e o Anísio pensou que eu fosse também. O Anísio pediu um nome e eu não tinha no momento. Eu pensei no Renato Lage, sendo que o ganho dele a Beija-Flor não ia bancar. Aí pensei: "tenho o Fran, Vitor Santos, Carvalho e podemos formar uma comissão". Ele não acreditou, assim com a escola na ocasião, que isso poderia dar certo junto com a garotada. Surgiu o Amarildo também. Desenvolvemos com oito pessoas. O problema que ganhamos o carnaval; a maioria achou que era carnavalesco e eu disse para cada um seguir seu rumo, porque só iria continuar quem quisesse trabalhar em equipe. Ficamos com um grupo reduzido, mas o trabalho continuou. Ninguém trabalha sozinho. Eu acho que será difícil a escola retroagir. Conseguimos uma nova linguagem para fantasias e alegorias. Vamos vir muito forte no ano que vem.
 
Finalizando, Neguinho falou sobre o status de intérprete da escola:
 
– Eu não tinha muito isso de intérprete ou puxador. Quando eu cheguei no velório do Jamelão, a viúva do mestre falou que o último pedido dele tinha sido para que eu não deixasse ninguém me chamar de puxador. Então, depois desse pedido, agora peço para me tratarem apenas como intérprete.

 

Veja Neguinho da Beija-Flor, cantando no final do debate