Beirando a perfeição técnica, Vila mostra a força de seu samba

 

Ela esteve longe de ser a mais luxuosa da noite, mas a Unidos de Vila Isabel foi a escola que menos errou ao longo dos sete desfiles do primeiro dia do Grupo Especial. O sucesso do desfile da Vila está baseado no rendimento de seu belíssimo samba, a força do canto de sua comunidade, uma evolução equilibrada e o apreço conhecido de Rosa Magalhães no acabamento de suas alegorias e fantasias. Temiam pela África de Rosa, mas a carnavalesca mostrou que, se não fez um belíssimo desfile plástico, não ficou tão abaixo das outras seis escolas que desfilaram neste domingo. O enredo da Vila Isabel foi extremamente bem desenvolvido e fiel à sua proposta inicial da primeira à última ala. Esquentando com Kizomba – a festa da raça, samba que deu o título à escola no Carnaval de 1988, a Vila Isabel espalhou a negra vocação de sua alma e segurou grande parte do público presente no Sambódromo.

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Análises das cabines 1 e 4

A comissão de frente da Vila Isabel, à exemplo do ano passado, trouxe um grande tripé. Na verdade era uma savana africana, de onde saiam animais da fauna local e nativos, que executaram passos de dança afro e foram aplaudidos por todos os setores. Mesmo não apresentando uma coreografia muito complexa e elaborada, o grupo coreografado por Marcelo Misailidis conseguiu exprimir com exatidão o sentido do enredo. Além das movimentações já citadas, grandes adereços de mão formavam a silhueta de alguns animais da fauna africana. Nas duas cabines a comissão da Vila apresentou-se em problemas e o presidente Wilsinho não escondia a empolgação.

* Rosa Magalhães se emociona na Avenida

* Tiroteio provoca tumulto na dispersão

Os elegantes Julinho e Rute Alves, primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Vila mostraram toda a classe que rege a dança deles. A coreografia apresentava passos claros e bem definidos, que com a bela execução da dupla chegaram a emocionar muitos dos presentes. Rute teve um pouco dificuldade para manter a bandeira esticada no primeiro módulo, mas acabou conseguindo manter o padrão de qualidade da sua dança. Apenas na terceira cabine de julgadores, houve uma falha de sincronismo entre os dois.

A bateria da Vila Isabel tocou com correção e imprimiu um andamento maravilhoso ao samba. Serviu com perfeição ao desfile da escola e não deixou fazer suas bossas, entre elas a do Kuduro, muito bem executadas. Apenas no quarto módulo, houve falta de precisão dos tamborins na hora de uma bossa. A afinação dos surdos esteve perfeita e respeitou as características do ritmo da Azul e Branco.

O temido contra-canto não atrapalhou em nada o desfile da Vila. Tinga cantava a primeira parte, os intérpretes auxiliares respondiam junto com os componentes e não houve quebra melódica. Aliás, foi difícil encontrar algum componente da Vila Isabel sem cantar a bela obra de André Diniz, Evandro Bocão e Arlindo Cruz. A cada repetição do refrão, a Avenida, principalmente depois dos 50 minutos de desfile, respondia com força. O samba foi crescendo e o final do desfile se transformou em festa na Praça da Apoteose.

A evolução da Vila Isabel beirou a perfeição. Primeiro pela alegria e espontaneidade mostrada pelos componentes. E segundo pela maneira correta com que a escola distribuiu suas alas. A entrada no segundo recuo transcorreu de forma perfeita. O único deslize foi um pequeno espaço entre o segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira e ala da frente. O ritmo do desfile foi bastante agradável, sem lentidão no início e correria no fim, cenário bastante visto neste domingo.

As alegorias da Vila Isabel não estiveram longe de serem as melhores da noite, mas em clareza de leitura e não deveu as de nenhuma outra escola. Rosa apostou no grafismo africano na abertura do desfile, passeou pelo seu rococó e encerrou o desfile com mais África. Seja qual for a avaliação dos julgadores no que diz respeito á qualidade das alegorias, sabe-se que a carnavalesca provou que é capaz de se adaptar a diferentes temas e propostas. A quarta alegoria mostrou pequenos problemas de acabamento na parte de trás.

Em termos de fantasia, a simplicidade vista nas alegorias se repetiu, mas Rosa colocou em prática soluções originais, principalmente nas fantasias dos primeiros três setores – a ala das Girafas é um exemplo. A ala que apresentou maior qualidade foi a que representava os orixás. A clareza na leituras das fantasias também é algo que precisa ser destacado.

Cabine 2

Um desfile monumental. Assim pode ser definida a apresentação da Vila Isabal diante do segundo módulo de julgadores. A Comissão de Frente estava impecável, simulando uma savana africana. Os componentes realizavam movimentos na floresta e saiam para samba, numa linda coreografia. A comissão da Vila Isabel foi a melhor da primeira noite de desfiles do Grupo Especial.

* Coreógrafo da Vila Isabel explica o Abre-Alas da escola

O casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira mostrou entrosamento. Ruth Alves sempre mantinha o pavilhão bem reto e aberto.

A Bateria parou em frente da cabine de julgadores e realizou uma bossa. Os ritmistas dançaram kuduro e apresentaram uma bela coreografia.

* Mestre Paulinho ressalta o bom samba da Vila Isabel

Harmonia e evolução perfeitos. A escola cantou muito, inclusive os componentes das alegorias. O que pode ser um problema foi um pequeno espaço no segundo casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, que dependendo do jurado, a escola pode perder algum décimo.

As alegorias estavam com fácil entendimento do enredo, porém, algumas estavam mal acabadas. Já as fantasias, estavam totalmente enquadrada com o enredo, com destaque para ala das baianas, que impressionou o público.

Ao final do desfile, a Vila Isabel foi única escola da noite a empolgar todo o sambódromo.

Cabine 3

Com 26 minutos de desfile, a Comissão de Frente chegou a cabine 3. Babi, esposa de Arlindo Cruz veio descalça. A comissão chegou dentro de um tripé, que representava uma savana, e possuía uma única mulher como componente. O grupo simulara uma luta pela sobrevivência na mata. Os componentes saiam debaixo do tripé uma a um e se posicionavam para realizar a apresentação. Os integrantes fizeram dança afro, capoeira e encerraram a apresentação com um ritmo angolano do kuduro, levando o público ao delírio. Quando terminaram a apresentação eles retornaram ao tripé, voltando para a formação inicial.

A apresentação mais emocionante da noite foi do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Ruth Alves e Julinho. Com uma coreografia espetacular, em determinado momento, o Mestre-Sala parou, abaixou e a Porta-Bandeira continuava na dança.

O abre-alas, um carro acoplado, trouxe girafas em movimento. Os componentes estavam com a cara pintada e representavam onças. O segundo carro, apesar de pequeno, representava uma árvore. O terceiro carro veio com componentes com a cara pintada. No quarto carro, era visível falhas na parte traseira, com a ausência de um pedaço. No sexto carro, falha no acabamento entre a parte lateral e a traseira direita, além de um saco de lixo preso na traseira do carro. Destaque entre as alas 23 e 24 desfilou com parte da fantasia aberta. No sétimo carro, onde estava o Martinho da Vila, passou na cabine 3, com 1h10 de desfile. Um empurrador veio tirando foto.

A Bateria não parou na apresentação aos jurados. Havia um componente sem a parte da cabeça da fantasia, na fileira de frente para os jurados. Arlindo Cruz e seu filho estavam no carro de som, mas não cantaram o samba.

Era perceptível a garra, alegria e forte emoção dos integrantes da Vola Isabel. Alguns componentes desfilaram chorando após a melhor apresentação da primeira noite de desfiles do Grupo Especial.

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