Bela arte, pouco canto. Jorge Silveira bota São Clemente deslumbrante na avenida mas escola peca em evolução e harmonia

Por Guilherme Ayupp

sao-clemente_desfile_2018_037Jorge Silveira estreava em 2017 no carnaval carioca pela Unidos da Viradouro, na Série A, na ocasião, na crônica do desfile da vermelha e branca, a equipe do CARNAVALESCO apontava que o artista havia dado nome e sobrenome na estreia. Pois em seu primeiro trabalho no Grupo Especial, pela São Clemente, o artista provou que não é uma mera promessa e que deve se juntar ao grupo dos promissores nomes da folia. Jorge vestiu a preta e amarela da Zona Sul de maneira deslumbrante no desfile da escola neste domingo de carnaval. Como bem lembra o samba da agremiação, a bela arte foi oferecida pelo artista. Ocorre que no que tange aos quesitos técnicos de pista a apresentação da escola deixou bastante a desejar, principalmente, em evolução e harmonia. O canto praticamente foi inexistente, o que deve afastar novamente a escola de uma boa colocação.

Fantasias

sao-clemente_desfile_2018_24-8Jorge Silveira fez um trabalho com muito esmero em detalhes. A São Clemente passou tão bem vestida na avenida que ninguém deve ter sentido falta de Rosa Magalhães, artista consagrada que assinou os desfiles da escola entre 2015 e 2017. Ele exibiu na avenida uma paleta de cores bastante variada, um verdadeiro tapete exposto na avenida. Foram muitas as alas que merecem destaque, mas sem dúvida aqueles que mais seduziram os olhos de quem esteve na avenida foram as baianas. As matriarcas de Botafogo passaram trajando a fantasia ‘Negra tatuada vendendo cajus’. A roupa ilustrava uma das aquarelas mais famosas de Debret, de mesmo nome.

No quarto setor do desfile merecem citação a ala 17, ‘Flores de todas as cores’, que representava novas experimentações dos artistas da academia, pintando em contato direto com a natureza e a ala 18, ‘Aves Coloridas’, que estava inserida no mesmo contexto da anterior. Jorge encerrou seu show de bom gosto com o setor que homenageou carnavalescos que passaram pela Escola de Belas Artes. As alas lembravam antigos carnavais que passaram pela avenida, como o Salgueiro de 1960 (Fernando Pamplona), a União da Ilha de 1977 (Maria Augusta), a Tradição de 1994 (Lícia Lacerda), a Imperatriz de 1994 (Rosa Magalhães) e o Império Serrano de 2008 (Márcia Lage).

Alegorias e Adereços

sao-clemente_desfile_2018_41O bom apuro estético pode ser averiguado também nas alegorias e adereços apresentados no desfile. O abre-alas, um dos mais imponentes da história da São Clemente, representava a chegada da missão artística francesa e a fundação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. Embora muito bonita, algumas pilastras do lado direito da alegoria apresentavam problemas de acabamento. Quando o samba alcançava o trecho ‘a força da mata’, as pilastras se abriam e folhas eram exibidas. O Rio de Debret foi o segundo carro, que reconstruiu um fragmento do Rio Colonial. O conjunto alegórico seguiu de alto nível com o carro que trazia os salões da academia, evento onde os artistas exibiam seus trabalhos. Nesta alegoria um artista realizava uma pintura em tempo real. Outra alegoria que causou impacto foi a quarta, que abordava a fase moderna da academia. O carro trazia uma mescla de tradição e modernidade. A escola encerrou o seu desfile com o carro ‘Belas artes, belos carnavais’, com a presença de professores da Escola de Belas Artes.

Enredo

sao-clemente_desfile_2018_052Jorge Silveira, além de um trabalho plástico de muita categoria, exibiu toda a sua capacidade de contar uma história na avenida com coerência e clareza. As fantasias e alegorias, belíssimas como citado, traziam uma mensagem clara e com uma leitura bastante fácil de entender. Os setores bem divididos e com coerência entre aquilo que foi defendido no argumento do enredo e o que passou na avenida. Concepção e realização em perfeita consonância. O último setor do desfile, que trazia a relação da EBA com os desfiles de escola de samba, foi o mais bem desenvolvido. Uma solução interessante foi a presença de guardiões nas laterais de todas as alas do setor, relembrando as famosas decorações na Avenida Rio Branco. E as alas rememorando carnavais de artistas oriundos da academia.

sao-clemente_desfile_2018_016Comissão de Frente

Sob a coreografia de Kiko Guarabira, o grupo desfilou representando ‘O Atelier’. Com um tripé cênico, representaram o mágico espaço de um atelier, onde as ideias circulam em eufórica dinâmica. Onde a arte ganha vida, cores e formas através da criatividade dos artistas. Faltou clareza na apresentação, que foi bastante confusa e com muita informação. Um painel de led presente no tripé do grupo não funcionou no segundo módulo de julgamento. Além disso, o elemento tinha defeitos de acabamento. Um dos participantes deixou a aquarela cair bem na altura do segundo módulo de julgamento.

sao-clemente_desfile_2018_022Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Fabrício Pires e Amanda Poblete vieram representando o encontro. A missão artística ao chegar o Brasil, promoveu o encontro de conhecimentos entre as matrizes indígenas com os saberes oriundos da África. O choque cultural origina uma nova nação. A fantasia era belíssima mas a apresentação se deu de maneira burocrática. A dupla estava distante entre si, embora não tenha cometido nenhum erro grave.

Harmonia

sao-clemente_desfile_2018_044Em seus ensaios de rua e comunidade a comunidade da São Clemente indicava que melhoraria um de seus calcanhares de aquiles: o canto. Entretanto, o que se viu na pista foi um desempenho abaixo da crítica. As alas passaram a avenida toda praticamente sem cantar. Para mudar o status de escola que se consolida no Grupo Especial para uma agremiação que realmente almeja colocações ousadas essa deve ser a prioridade para os próximos anos.

Evolução

A escola enfrentou dificuldades neste quesito em sua apresentação. O mais grave deles foi um buraco aberto na altura da primeira cabine de julgamento. Ele ocorreu pois o casal avançou após sua apresentação e a ala imediatamente posterior não acompanhou, permitindo a abertura do espaço. Além disso, as belas fantasias eram bastante volumosas e isso atrapalhou a evolução dos componentes. A escola não evoluiu mas andou pela pista. O sequenciamento de desfile também foi excessivamente lento, com a escola concluindo sua apresentação em cima do laço.

sao-clemente_desfile_2018_062Samba-Enredo

O samba teve bom rendimento na avenida graças à atuação do intérprete Leozinho Nunes, que poderia ter reduzido a quantidade de cacos na avenida. As chamadas no meio da obra aconteciam em excesso, talvez pela dificuldade encontrada por ele para motivar o canto do componente.

Outros Destaques

A rainha de bateria, Raphaela Gomes, chamou a atenção com seu figurino representando Iracema. A maquiagem da beldade era muito bem feita. O mestre de bateria, Caliquinho, ‘explicou’ o que fazia nas bossas em apresentação para as cabines de julgamento, apenas movimentando os lábios para o entendimento dos julgadores. O público do setor 5 se empolgou com a apresentação da São Clemente e aplaudiu a escola.

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