Boi com abóbora: saudades, manchetes, família, fogo e baianas

… E por falar em saudade

O grande bloco de camarotes que formava o setor 2 da Marquês de Sapucaí já não existe mais. Vai ficar na retina de quem viu, na memória de quem viveu e nas dores cervicais de quem se esticou todo para ver a sua escola passar pelo janelão cujo centímetro quadrado era disputado a tapa.

Foi-se embora. E vai-se embora também a fábrica da cervejaria do badalado camarote que já deu samba, já deu briga, já deu casamento, já desfez casamento… e fez história. Contradições já traçadas na própria geografia da cidade, que tinha ali pelas bandas da Praça Onze o monumentalprédio erguido entre cortiços.

A foto é de 1908 e mostra a fábrica ainda na sua primeira versão, anterior ao monstrengo branco onde hoje até árvore cresce dos lodos das paredes decadentes. Nada mais sobrará. Só lembranças.

Que o futuro seja generoso com o lugar tanto quanto o passado lhe foi.

Confete da Manchete

A Manchete tinha uma equipe e tanto. Olhe só a mobilização de profissionais para botar no ar o Primeiro Concurso de Músicas de Carnaval, realizado em 1984. E o número 19 da foto é nada mais, nada menos que o saudoso Osvaldo Jardim, da equipe de figurinos da TV dos Bloch. Talento indiscutível do nosso carnaval, que faz muita falta aos desfiles de hoje.

Álbum de Família

Com a fantasia de campeões. Essa era a família Raposo, com o patriarca Marcelo na bateria e os filhos Renato e Rodrigo se preparando para embarcar na viagem mais aplaudida de um navio na história do carnaval. Para eles, o amor pela escola é como um nó de marinheiro:difícil de desatar.Continuam na agremiação firmes e fortes, com o coração mais salgueirense do que nunca. Que assim seja pelas próximas gerações.

 

Fogo!!

Esse vídeo é da escola de samba Aparecida, de Manaus. Com o sugestivo enredo “Um Facho de Luz…Um Renascer na Floresta”, a escola vinha bem no desfile, com alegorias grandiosas até que o fogo começou a consumir uma das esculturas do segundo carro. Veja que cena impressionante do incêndio na cabeça do dragão. Repare também na composição que vem parte de trás da alegoria, em amarelo, que não está nem aí pro fogo e continua sambando como se as labaredas fossem mero efeito especial.

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E vamos continuar pelo giro das baianas que teve início na semana passada. Uma seleção dos grandes momentos das reverenciadas mães do samba na Avenida.

 

Imperatrizes

 
Assim mesmo, no plural, elas são a própria arte em movimento. E no desfile de 1997 em homenagem à Chiquinha Gonzaga, deram um show de evolução com o auxílio luxuoso de uma fantasia verde-água e dourada ao representar o cordão Rosa de Ouro, no enredo de Rosa Magalhães sobre Chiquinha Gonzaga. Garbosas, belas, coroadas. Imperatrizes!

Roda a Roleta

 

Craque do traço carnavalesco, Roberto Szaneick se excedeu ao criar as flamejantes baianas do Salgueiro de 1994. Botar a roleta pra girar na saia das damas alvirrubras foi um achado.Com o espetáculo visual de criatividade e de beleza garantido, o Salgueiro tropeçou na evolução, mas acertou o número da sorte com toda a elegância!

Reinvenção

 
Flutuantes. Foi assim que as Senhoras de Atlântida chegaram à avenida pelas mãos criativas do carnavalesco Paulo Barros, na Unidos da Tijuca, em 1995. A leveza do tecido e a inventiva armação que fez a saia flanarforam dignas do maior aplauso. Uma bela solução valorizada pelos tons fechados de azul e chumbo.

Muambeiras

 

Mais do que uma fantasia, um conceito. Foi assim que o inventivo Fernando Pinto encarou as baianas da Mocidade no debochado “Mamãe, Eu Quero Manaus”, de 1984. Agora convenhamos: é muita coragem da escola encarar uma pedreira dessas. Podia dar muito certo. Podia dar muito errado. Mas o que ficou foi a lembrança de uma ala diferente de tudo o que já passou na avenida. O risco valeu a pena.

Ouro, luxo e misticismo

 
Viradouro 1992. Um carnaval místico, de muitas histórias e lendas. E a escola, na sua ala mais tradicional, apostou alto em uma fantasia do maior quilate. Placas, paetês e contas se transformaram em ouro de um brilho raro para representar as tribos ciganas do Oriente. Mas não parou por aí. Ainda teve as baianas cartomantes, tão belas quanto as primeiras, todas em vermelho, como manda a tradição mística dos povos andarilhos. Belíssimos figurinos na trajetória de grandes trabalhos de Max Lopes.