Caio Barbosa: ‘o carnaval mais especial que participei’

Por Caio Barbosa

mangueira_desfile_2018_76-23Desfilar na Sapucaí ou cobrir os desfiles de escola de samba é um prazer que tenho há 20 anos, renovado a cada carnaval com doses generosas de emoção. Nunca, no entanto, havia feito as duas coisas num ano só. Sabia que não conseguiria dar conta do recado. Este ano, porém, foi diferente. E, sem dúvida nenhuma, o mais especial de todos que participei. Um ano em que poderei contar para o resto da vida que desfilei na Mangueira, a convite de um carnavalesco ousado e talentoso, que tem na simplicidade a característica da genialidade que o alçou rapidamente ao posto do “cara” do carnaval nesta segunda metade de século.

Desfilar na Mangueira – e foi a primeira vez -, já seria especial em quaisquer circunstâncias. Desfilar na Mangueira num ano em que o enredo é um claro protesto a todo desgoverno do prefeito Marcelo Crivella, declaradamente um opositor da maior festa popular do planeta, teve um significado especial para quem tornou-se uma das primeiras vítimas de uma gestão que, além de tudo, não mede esforços para censurar críticos e a imprensa que faz o seu papel.

Poucos, muito poucos sabiam que eu desfilaria. Um pedido de Leandro Vieira que, claro, não tive como não atender. Aliás, atendi a todos. Com o rigor de um iniciante. Sem muito planejar. Apenas instinto, pois minha intenção nas semanas que antecederam fazer do desfile minha apoteose particular, sem qualquer tipo de preocupação que não fosse a diversão, esquecendo que o desfile não seria da GRES Caio Barbosa, mas da Estação Primeira de Mangueira.

Ontem, entretanto, amanheci com outro propósito: brincar o crnaval, óbvia e evidentemente, mas sem abstrair de tudo o que havia ao redor. Queria aproveitar cada pedacinho daquela noite. Cheguei cedo, confraternizei com colegas, paquerei os desfiles do Império Serrano e São Clemente, e fui para o Setor 1 ver a Vila. Aliás, uma estranha Vila com Paulo Barros, que de longe me parecia sem muita identidade. Mas assisti apenas ao início, pois era hora de ir para a concentração da Mangueira, fazer o credenciamento com Tânia Bisteka e tomar lugar no carro alegórico.

mangueira_desfile_2018_76-10Tudo isso sozinho. O meu prazer estava ali, em percorrer toda a escola, passar a Central do Brasil em direção à Candelária e dali, no escuro, entre empurradores de carro, ambulantes e foliões anônimos, descalço e sem camisa, ver todo aquele universo nascer.

O carro onde desfilei era espetacular. A ideia do carnavalesco era resumir ali um pouco do gigantesco Carnaval de rua do Rio de Janeiro, em clara afronta ao prefeito, em clara ode à folia. E ele foi além da perfeição. Havia de tudo. Além de representantes dos mais tradicionais blocos da cidade, o carnavalesco da Mangueira catou a dedo foliões que capricham nas fantasias e fazem sucesso nas esquinas e redes sociais. Havia preto-velhos, drags, bate-bolas, Cristo Mendigo, demônios, presidiários, ali babás, pierrôs, colombinas, mais de mil palhaços no salão e jornalista censurado vestido impecavelmente em terno rosa.

E se neste ano eu deixei (graças ao prefeito), a cobertura das escolas de samba, pelo menos por enquanto a cobertura das escolas não me deixou. Curioso, ansioso, pelo celular acompanhei o desbunde que foi a passagem da Tuiuti, e senti um certo pesar por não poder ver tudo de perto. Uma escola que entrou na avenida com o carimbo do rebaixamento na testa, mas saiu na dispersão com o sonho de voltar no Sábado das Campeãs, no maior desfile da história da agremiação, que teve como ponto alto a crítica política, incluindo o ilegítimo governo Temer.

O interesse por tudo o que acontecia na Avenida, ainda na concentração, denunciou minha profissão aos colegas de alegoria que, apreensivos, queriam saber a quantas andava o desfile da Grande Rio e os problemas no carro alegóricos, pois já estávamos todos ansiosos para entrar na passarela do samba. Virei, mais do que nunca, folião-repórter, informando a todos sobre a situação da coirmã. Claro que o burburinho me rendeu uma bronca de um diretor da escola, posto que o uso de celulares é terminantemente proibido durante o desfile. Mas assim que justifiquei o que fazia, e pude informá-lo sobre os contratempos na Grande Rio, fui perdoado e tive o uso do celular liberado. Censura na Mangueira? Claro que não! E o melhor ainda estava por vir.

mangueira_desfile_2018_76-12Findo o desfile da Tricolor de Caxias, era chegada a hora de fazer a nossa parte. Foi quando, definitivamente, me incorporei do papel de folião. Mas era Impossível não se emocionar com guardas, policiais, ambulantes e foliões de pés descalços, ainda na Presidente Vargas, emocionados pedindo que não deixássemos de cantar o samba e representá-los quando dobrássemos a Marquês de Sapucaí.

Impossível não se emocionar ao ver que todo o sambódromo, de fato, para para ver a Mangueira passar. Dos ricaços e subcelebridades nos camarotes aos que juntaram seus caraminguás para comprar uma frisa ou arquibancada, dos bombeiros às autoridades, passando pelos garis, dava para ver as lágrimas escorrerem do rosto de todos. E aí, o jornalista que já carrega fama de chorão não aguentou. A metade final do desfile foi uma catarse. E no final, era difícil de encontrar palavras para escrever esta crônica. Mas eu precisava de mais. A ficha ainda não havia caído.

Abdiquei de assistir à Mocidade. Deixei a Sapucaí junto com a comunidade, voltei à Presidente Vargas vazia, escura, e incrivelmente reencontrei meu tênis velho que havia malocado num banheiro químico antes do desfile. O pessoal do morro não acreditou. Eu sorri. E segui com a galera para uma padaria na Rua de Santana, para uma necessária média com pão na manteiga. Um jovem da bateria apontou para a rua e exclamou: “o céu está rosa! Sinal de sorte!”. Um senhor da Velha Guarda se levantou calmamente da mesinha de plástico com seu sanduíche de queijo e lata de cerveja, e parodiou Cartola com a serenidade de um mestre: “Alvorada, aqui no asfalto, que beleza / ninguém chora, não há tristeza / ninguém sente dissabor…”.

Eu iria prosseguir o samba, mas quem disse que consegui? O pão entalou e eu só fazia chorar. Era a certeza de que a crônica estava pronta. E de que a noite será, para sempre, inesquecível.
Viva a Mangueira!
Viva Leandro Vieira!
Pecado é não brincar o Carnaval!