Cara a cara com Cahe Rodrigues: ‘Sempre vi no Leandro Vieira o despertar de um talento’

imperatriz01O carnavalesco Cahe Rodrigues completa em 2018 seu sexto desfile à frente da Imperatriz Leopoldinense. É o mais longo ciclo de sua trajetória, iniciada no Acadêmicos do Sossego em 1998. O atista é o personagem da série ‘Cara a cara’ do site CARNAVALESCO. Em uma franca conversa no barracão da Rainha de Ramos, Cahe fala da relação com Leandro Vieira, de quem é o mentor, cita os problemas que impediram a Imperatriz de ganhar o carnaval em 2014 e 2016 e traça um comparativo entre três enredos que marcam sua trajetória, ao homenagear as figuras populares de Zico, Xuxa e Zezé di Camargo e Luciano.

Xuxa ou Zico, qual foi o desfile mais importante e o motivo?

Cahe Rodrigues: “Foram fases diferentes. A Xuxa foi meu terceiro carnaval, eu tinha 20 e poucos anos. Me lembro que iríamos fazer um enredo sobre a China na Caprichosos. Depois veio a proposta de falar dela, foi meio louco. Foi um carnaval muito bacana. A Caprichosos foi uma das escolas onde eu mais gostei de trabalhar. Não havia uma estrutura ali e fizemos um trabalho muito interessante. O Zico já me pega mais maduro, em uma escola de bandeira pesada. Foi um desafio, pois eu não gosto de futebol. Precisei criar um carnaval que eu gostasse de ver. Dessa forma nasceu o enredo. Os reinos distantes fizeram o carnaval não serem só Flamengo. Eu não sei como precisar qual dos dois foi melhor. Tenho carinho pelos dois”.

Falando no Zico, você sentiu que era campeão do carnaval até quase a parte final do desfile?

Cahe Rodrigues: “Perdemos o carnaval na concentração, que foi péssima. Erros primários dificultaram o andamento da escola. Montaram alegorias antes do viaduto. Para completar a chuteira do abre-alas emperrou. No último carro um motorista inexperiente desligou o motor na curva. A alegoria não ligava mais, abriu o clarão e já era tarde demais. O título escorreu pelos dedos”.

Falando nisso de ser quase campeão você que só não ganhou em 2010 porque houve um tal de ‘É Segredo’?

Cahe Rodrigues: “Engraçado que não perdemos na comissão de frente, pois também tiramos notas boas. Mas a magia daquela comissão causou uma overdose de impactos no desfile da Tijuca. O mérito total foi deles. O presidente Helinho, antes da gente desfilar, quando vimos aquele desfile ele me disse que perderíamos o carnaval. Tínhamos tudo para vencer , mas não tinha como”.

Muita gente diz que o Leandro Vieira era o cara dos seus desfiles. Qual a importância dele nos seus trabalhos anteriores e como é a relação de vocês hoje?

Cahe Rodrigues: “O Leandro trabalhou comigo nove anos, nos conhecemos na Portela. Em 2007 no desfile do Pan foi nosso primeiro trabalho. Ele seguiu na equipe alguns anos timidamente. A minha vontade de tê-lo por perto vinha do comprometimento dele com o trabalho. Sempre se mostrou interessado demais. Ele tinha muito receio de dar um passo à frente. Levei para a Grande Rio. O primeiro carnaval que ele começou a desenhar para mim foi o ano da superação, em 2012. Ele estava na equipe como assistente, mas desenhar mesmo é partir daquele ano. Eu o forçava a fazer figurinos. Na Imperatriz fizemos juntos o Pará e o Zico. Sempre respeitei muito o Leandro. Aprendi bastante com ele. Quando eu disse para ele caminhar com as próprias pernas, eu sabia o talento que havia ao meu lado. É um orgulho ver o reconhecimento dele como artista”.

O que falta para Imperatriz voltar a brigar no topo?

Cahe Rodrigues: “Essa é a pergunta que eu mais respondo. Já sofri muito com isso, mas hoje nem tanto. Ser campeão não depende apenas do artista. O que me preocupa é ver minha criação dar certo na avenida. O título é consequência de uma série de outras coisas. Estive perto na Grande Rio, na Portela e na Imperatriz. Tenho trabalhado, me esforçado muito. Uma hora a vitória vai chegar. Gostaria muito que fosse comigo aqui”.

Por que o tão esperado desfile sobre Zezé Di Camargo e Luciano não funcionou? E 2017 ficou o gostinho de que a escola merecia estar campeãs?

Cahe Rodrigues: “O ano do Zezé e do Luciano a escola criou uma grande expectativa que na hora não aconteceu. A comissão de frente atrapalhou, pois o trabalho não empolgou. Uma de minhas brigas foi esse quesito. A ideia eu fui contra desde o início. Faltou um elemento explosivo, algo que devesse acontecer. As pessoas murcharam e acabou refletindo no restante do desfile. Em 2017 eu acho que tínhamos duas escolas com a temática indígena e na reta final a Imperatriz sofreu uma pesada perseguição do agronegócio. A repercussão foi mundial e recebíamos emails críticos de todos os lados. As pessoas entenderam que a crítica era ao agronegócio, e isso repercutiu muito negativamente. Isso acabou influenciando o julgamento. Tivemos problemas de concentração. O carro da arara passou quebrado, já demonstra um certo problema. Acho que foram essas coisas que tiraram a escola das campeãs”.

Você é novo de idade, mas muito experiente no carnaval. Qual sua análise sobre os comentários que a nova geração é craque e o pessoal da antiga está perdendo espaço?

Cahe Rodrigues: “Eu acho o máximo e vibro com a chegada desses garotos. O Jorge Silveira sempre desenhou para todo mundo aqui na Cidade do Samba. A rapidez dele é impressionante. Foi mais um que encorajei a fazer carnaval. Os meninos do Cubango têm um conhecimento e um bom gosto que são encantadores. Marcus Ferreira, Wagner Gonçalves, o próprio Jack Vasconcelos, que não é propriamente da nova geração, mas muito talentoso. O carnaval tem que dar oportunidade a essa garotada que sabe fazer. A questão não é ter talento, mas conseguir driblar o sistema do carnaval”.

Chamam a Rosa de professora, o Renato de Mago, como você gostaria de ser reconhecido na história do carnaval?

Cahe Rodrigues: “Me perguntam qual é meu estilo. Vou me adaptando de acordo com a escola e o enredo. Meu perfil é a versatilidade. Talvez, eu queira ser lembrado dessa maneira”.