Cara a cara com Dudu Azevedo: ‘O carnaval precisa de um calendário anual’

dudu01No momento que o carnaval carioca é acusado através de seus dirigentes por estar mergulhado na mesmice e na falta de visão de futuro, Dudu Azevedo, diretor de carnaval da Grande Rio, apresenta uma visão totalmente antagônica desse processo. O dirigente recebeu a reportagem do CARNAVALESCO no barracão da Grande Rio para a série ‘Cara a cara’. Dudu defende a criação de um calendário anual para o carnaval, diz que a Grande Rio hoje tem muito menos celebridades que outras escolas e revela que a logística de desfile ganha ou perde carnaval.

Qual é a principal função de um diretor de carnaval?

Dudu Azevedo: “Prover a infra-estrutura e execução do projeto delineado pela escola. O que for projetado. a estrutura é responsabilidade da direção de carnaval. O elo entre os segmentos e a diretoria da escola. Muitos diretores de carnaval, de acordo com a sua vivência acaba participando de outros processos do desfile, mas basicamente as funções são essas que citei.”

Muitos carnavalescos reclamam do diretor de carnaval e dizem que preferem assumir essa responsabilidade. Qual é sua opinião?

Dudu Azevedo: “Eu acho que quando se há diálogo não tem problema. Ninguém é absoluto, nem o carnavalesco nem o diretor de carnaval. Eu sou um cara do diálogo. Se alguém me faz uma sugestão eu costumo ouvir. Geralmente o carnavalesco reclama da função de diretor quando falta essa conversa. Aí a reclamação basicamente vem relacionada a corte de projeto.”

Vamos falar de Salgueiro. Você era tratado como da família da presidente Regina e deixou a escola. Rolou um clima ruim. Como está hoje?

Dudu Azevedo: “Aquilo já passou. Tenho amigos na escola, Falo com a presidente Regina normalmente. Já é uma página virada. Tenho carinho pela equipe toda do Salgueiro.”

E você saiu e voltou para Grande Rio. Foi dinheiro, projeto ou as duas coisas?

Dudu Azevedo: “Passei dez anos aqui. O que aprendi de carnaval foi na Grande Rio. Consolidei nos meus cinco anos de Salgueiro. Eu tinha intenção de executar tudo que aprendi na escola. O que motivou minha volta em primeiro lugar foi esse desejo de ser campeão e um projeto ambicioso, aliado claro ao meu especial carinho pela agremiação que me formou como profissional do carnaval.”

O que você acha que deixou de legado na Grande Rio e o que recebeu quando voltou?

Dudu Azevedo: “Quando saí era diretor de harmonia. O principal legado foi um trabalho de ambientação do município com a escola. As pessoas com mais de 30 anos tinham carinho por ser a escola da cidade, mas que tinha uma escola de coração. Acho que conseguimos fazer com que as pessoas se tornassem de fato torcedoras da Grande Rio. Quando voltei encontrei essas pessoas e ainda muitos jovens que tem a agremiação no coração de maneira prioritária. Vínhamos de um sétimo lugar em 2016, a comunidade precisava desse abraço. O que fizemos foi voltar a fazer essa engrenagem funcionar. Isso é um trabalho diário.”

No Salgueiro você era um dos caras que controlava o Renato no tamanho das alegorias. E como está sendo isso na Grande Rio?

dudu02Dudu Azevedo: “O Renato sempre fez carros nas medidas corretas da avenida. Se não fossem não entrariam na pista, isso é matemático. O que demos foi uma solução para o volume. Quanto mais encaixes são necessários em um carro mais atrapalha a logístico. Através de um bate-papo a gente chega em um consenso. Não me meto em um paetê, uma cor da plástica do Renato. O que eu considero é que o número de encaixes na concentração deve ser a menor possível, pois é isso que complica o acesso na avenida.”

Não podemos deixar de tocar na saída do Jefferson. O que fica de lição sobre isso?

Dudu Azevedo: “Uma troca de equipe natural, que a direção achou necessário.”

Como você aguenta todas brincadeiras da dupla dinâmica Thiago Diogo e Emerson Dias?

Dudu Azevedo: “São pessoas de uma energia muito boa, bastante verdadeiros. Conseguimos extrair o melhor deles para o bem-estar da escola. Eu adoro formar equipe, não gosto de ser sozinho. Somos um time aqui na Grande Rio. Isso gera uma energia que facilita. Apesar de toda a brincadeira deles ambos são muito competentes naquilo que fazem.”

O que você fez para não desmotivar o Thiago Diogo depois do desfile de 2017?

Dudu Azevedo: “Thiago faz um trabalho exemplar. O profissional do carnaval que está sob julgamento e ficar muito tempo lamentando não pode trabalhar no carnaval. As notas não dependem de nossa avaliação, depende de terceiros.”

Emerson Dias parece ter a escola na mão. Qual o segredo?

Dudu Azevedo: “Emerson é motivacional. Ele tem a alegria só de olhar para ele. Tem esse sentimento na própria voz. O carnaval precisa de pessoas assim. Não pode haver uma sisudez exagerada. As pessoas esperam a festa para se fantasiar, para brincar, é uma festa profana. O Emerson ajuda muito com essa tua maneira de ser. Ele é o combustível do componente.”

Muita gente diz que a Grande Rio é só escola de artistas, mas quem vai em Caxias sabe da força da comunidade. Qual é sua resposta para essas críticas?

Dudu Azevedo: “Não consigo levar todas as pessoas que possuem preconceito com a escola em Caxias. Mas sugiro que visitem a escola e vejam a alegria de um povo com uma escola de samba. E não vejo demérito na presença das celebridades. Eles estão aqui na escola porque querem estar. Em alguns carnavais as pessoas não aceitavam uma escola tão jovem estar em colocações melhores que algumas coirmãs mais tradicionais. Isso criou esse estigma que rotulou a escola. Hoje tem agremiações que tem muito mais celebridades em seus desfiles que a Grande Rio.”

O que falta para a Grande Rio finalmente levar esse campeonato?

Dudu Azevedo: “Cada ano é uma história. Não sei precisar um único fator que está falta. O que os nossos presidente ainda não fizeram por essa escola? O que a comunidade precusa ainda fazer para mostrar a força do seu chão na avenida? Perdemos o carnaval em 2017 em bateria e casal, quesitos que foram 40 em 2016.”

Sobre os quesitos de julgamento, o que você mudaria e o que faria?

Dudu Azevedo: “Eu acho que o julgamento tinha que ser mais imediato. É um espetáculo bastante subjetivo. Se quem avalia não gosta de determinada coisa ele tira ponta. Acho complicado você comparar uma escola com outra. Os enredos são diferentes, as propostas não se comparam. Eu tiraria esse modo comparativo. Eu acho que a nota deveria ser fechada na hora.”

E durante o ano como ficar uma escola de samba e ter interação com o público. Quais suas sugestões?

Dudu Azevedo: “Eu acho que as escolas precisam conversar mais. Defendo um calendário permanente de carnaval. Depois dos desfiles deveriam ter uma festa, ensaios técnicos no meio do ano, revivendo os desfiles porquê não? A Liga se prepara para um desfile. Porquê não criar um calendário para vender para patrocinadores, até mostrando o carnaval para outros públicos?”