Cara a cara com Leandro Vieira: ‘O meu trabalho não se sujeita à aprovação de ninguém’

O carnaval carioca viu surgir em 2015 o talento e a arte de Leandro Vieira. Como um cometa ele ascendeu rápido. Depois de ser a revelação de 2015 para o júri do prêmio Estrela do Carnaval, chegou à Mangueira e em sua estreia na elite conquistou um campeonato. Algo que nem os maiores pilares da festa conseguiram.

Estreando a temporada 2018 da série ‘Cara a Cara’, o CARNAVALESCO entrevista Leandro Vieira. Além do reconhecido talento, o artista não se furta em exibir seu posicionamento. Na conversa reafirma a admiração por Rosa e Renato, é sincero ao afirmar que jamais imaginaria alcançar o que conquistou tão rápido, conta como é sua relação com Chiquinho e dispara: “Não coloco meu trabalho à disposição de nenhum tipo de mecanismo de aprovação ou reprovação”. Leia abaixo a entrevista com Leandro Vieira:

O que você sente quando olha para trás e vê que vai para o terceiro desfile no Especial já com um título e com muitos elogios sobre o trabalho?

leandro_mangueiraLeandro Vieira: “Eu não imaginava nem ser carnavalesco. O que dirá três anos depois da Caprichosos estar onde estou. Eu não gosto de fazer esse tipo de projeção, de como estarei daqui tanto tempo. Ser o carnavalesco da Mangueira no ano que a escola vai completar 90 anos. É uma doideira isso”.

Os carnavalescos preferem ousar nas fantasias do segundo casal, mas você ousou no primeiro e em 2017 ousou no segundo. O que você pensa sobre a fantasia do casal? E para 2018, você pensa em ousar ou não no primeiro?

Leandro Vieira: “Eu acho que dá para ousar desde que se entenda o que representa isso. Com relação ao casal sou um artista que respeito o significado e o papel de um casal. Eu adoro fazer baiana e casal. Eu tenho a sensação de estar vestindo o que existe de mais tradicional no carnaval. Por isso, eu busco o bom senso. No caso do casal eles valem muitos pontos. O meu trabalho enquanto figurinista tem de estar no limite da ousadia para que contribua para o sucesso da apresentação do casal. Muitos me perguntam porque a Squel não foi a Nossa Senhora Aparecida em 2017. Eu tinha certeza que a maneira como o figurino precisava ser produzido poderia causar alguma dificuldade na evolução dela, e isso vale nota. Eu poderia ter prejudicado. Fiquei feliz que na estreia do Matheus que eles tiraram os 40 pontos e o segundo casal foi ovacionado. Eu não quero o sucesso só para mim”.

A comissão de frente é nova na escola e no Grupo Especial do Rio, mas já participou ativamente em alas coreografadas no Rio, e no Vai-Vai. Como será feita a coreografia e indumentária? Você participa ativamente do processo?

Leandro Vieira: “Da mesma maneira que eu gosto de liberdade para produzir meu trabalho, também entendo que dar liberdade a todos os processos é importante. Desde a Caprichosos eu nunca exigi nada da comissão. Eu trabalho desenvolvendo o meu projeto, apresento o que é a abertura, dou sugestões do que pode vir a ser, chegamos a um consenso pautado na confiança e eu apenas me encarrego de produzir a concepção visual. Eu sempre acho que a indumentária deve ser do artista que assina o desfile. Fora isso não gosto de determinar o que a comissão vai fazer”.

Incomoda a você estar sob chefia do presidente Chiquinho que politicamente defende posições contrárias às suas?

leandro_vieiraLeandro Vieira: “Eu tenho ótima relação com o presidente da Mangueira. Sou contratado da escola que o Chiquinho é presidente. Nunca tivemos um debate político. Ele sabe meu posicionamento diante das coisas e eu também sei o dele. Eu não vejo nenhuma relação entre o enredo da Mangueira e a posição política do presidente. Aliás, de qualquer escola. Ali está exposto o que o artista acredita. A proposta e o discurso são dos carnavalescos e não de seus dirigentes. Se escola de samba fosse seguir o pensamento dos presidentes ninguém poderia falar nada a respeito de pacifismo, politicamente correto. O presidente da Mangueira é uma coisa. O deputado fica na Alerj. Eu duvido que qualquer outro presidente da Cidade do Samba, por mais progressista que fosse, tivesse a coragem de fazer o que fez o Chiquinho que apostou no meu trabalho depois de um 7º lugar na Série A”.

Após o Carnaval 2017, você recusou uma proposta alta do Salgueiro. Foi difícil? E por que ficar na Mangueira mesmo tendo que fazer desfiles com menos recursos?

Leandro Vieira: “Eu aprendi a gostar de carnaval por causa do trabalho de dois carnavalescos que priorizaram um longo período, desenvolvendo assinaturas. Rosa Magalhães e Renato Lage. Eles foram a minha inspiração. Renato ficou 10 anos na Mocidade e mais de 15 no Salgueiro. Rosa na Imperatriz quase duas décadas. Eles ganharam dinheiro? Acredito que sim. Mas o desenvolvimento de uma assinatura é fundamental. Às vezes, não é o quanto eu vou ganhar que vai determinar meu sucesso. A minha fase é de buscar caminhos para minhas propostas. Claro que tenho meus projetos pessoais, mas no momento preciso de uma afirmação. Tenho muita segurança na Mangueira. Eu e a Mangueira tínhamos tudo para não dar certo e rolou uma química legal. A escola aprendeu a gostar do meu trabalho e eu estou aprendendo a fazer uma Mangueira diferente, que parece a mesma, mas tem se apresentado renovada”.

Vivemos uma nova fase de carnavalescos. A nova geração trabalha mais com a arte. É possível fazer arte e ainda entreter o público? Se é possível qual é o segredo?

leandro_vieiraLeandro Vieira: “Eu tenho a minha maneira de fazer. Ela é proposta em cima naquilo que eu penso. Faço aquilo que eu acredito, não fico olhando outros trabalhos. Não acredito em um modelo vencedor pré-estabelecido. Se o meu estilo tem agradado, eu acho bacana. Mas eu não faço meu trabalho pensando no que vai causar impacto. O que eu faço tem que estar afinado com meu pensamento como cidadão”.

Você já foi censurado com a imagem do Cristo e Oxalá. O que sentiu na hora e o que pensa sobre a liberdade artística no carnaval? E foi uma estratégia não mostrar o tripé antes do desfile?

Leandro Vieira: “Vivemos em uma sociedade hipócrita. Ela quer ser enganada. Eu até aqui não tenho permitido que meu trabalho seja submetido à aprovação. Sempre achei uma tolice essa visita da Arquidiocese para dizer o que pode e o que não pode. Eu desenvolvo arte e não admito nenhum tipo de censura. Não coloco meu trabalho à disposição desse tipo de mecanismo. O que eu fiz foi respeitoso, um diálogo cultural existente no Brasil. Existem centenas de estudos acadêmicos que validam aquele tripé. Mas diante da hipocrisia ele poderia ser restringido. Por isso decidi não mostrar. Foi uma imagem marcante no carnaval. Em qualquer retrospectiva que conte a representação de Jesus Cristo nos desfiles aquela imagem estará representada. Minha rebeldia não foi a de tentar mudar, mas foi de não submeter o meu trabalho à aprovação de quem quer que seja. O Chiquinho foi meu cúmplice quando decidimos não mostrar o Cristo para a Arquidiocese. Ele decidiu comprar o barulho comigo”.