Cara a cara com o CARNAVALESCO: a despedida de Ney Filardi da União da Ilha

Foram 11 anos de gestão. De uma escola que estava há quase uma década amargando o Grupo de Acesso para um desfile apoteótico em 2014 que para muitos poderia conquistar o título do Grupo Especial. Ney Filardi deixa em abril a presidência da União da Ilha do Governador. O dirigente que colecionou polêmicas e realizações falou em entrevista exclusiva para a série ‘Cara a Cara’ do CARNAVALESCO sobre esses dez carnavais.

Qual o seu balanço dos 11 anos como presidente da Ilha?

ney07Ney Filardi: “Algumas realizações e outras frustrações. Dei sorte em contar com uma grande equipe. Acho que minha maior vitória foi unir a União da Ilha, pois a escola era muito fragmentada. Conseguimos sair do Acesso e consolidar novamente a Ilha na elite, lugar de onde jamais deveria ter saído. Aqui na Cidade do Samba, não tínhamos dinheiro para colocar uma cadeira no barracão. Hoje, temos maquinário completo, o crescimento do patrimônio. Fundamos a escola mirim, a velha guarda musical e a capela de São Jorge. E a nossa nova quadra, que é a melhor do Rio de Janeiro. E minha principal frustração foi não ter dado o título”.

Como será a vida do Ney sem a Ilha? Vai conseguir não opinar em nada da escola?

Ney Filardi: “Com certeza eu darei opinião, mesmo não querendo. Mesmo passando por todos os cargos aqui dentro eu sou um apaixonado pela União da Ilha. Naturalmente que não sou o dono da verdade, mas aquilo que eu considerar errado irei reclamar sim (risos)”.

E na eleição já tem seu nome? E o que você acha que a Ilha precisa para o futuro?

Ney Filardi: “A eleição é dia 08 de abril e meu nome é Djalma Falcão. Acho que a Ilha precisa ser auto-suficiente, sem necessitar de dependência de dinheiro público. Acredito que todas as escolas precisam disso na verdade. Hoje em dia para fechar um grande patrocínio a única contrapartida que podemos oferecer é uma logo nas costas dos empurradores, além de camarotes na quadra e avenida. É imprescindível que as escolas tenham no mínimo um patrocinador master”.

O seu maior desafio foi pegar a escola na Série A, colocar no Especial e manter. Como foi esse processo? E quais problemas enfrentou?

Ney Filardi: “Quando me elegi a bateria não tinha nem instrumento. Com a ajuda de todos superamos cada dificuldade. Meu primeiro ano foi sofrido, complicado. Escolhemos um belo enredo naquela ocasião, o Jack Vasconcelos era nosso carnavalesco e fez um belo trabalho”.

Vamos falar de dívidas. Lembra o que valor que estava quando você assumiu e como a Ilha se encontra hoje?

Ney Filardi: “Eu já paguei R$ 4,8 milhões em dívidas. O que temos hoje não chega nem a 1/3 disso. Esperamos entregar a escola depois do carnaval com uma dívida bem menor e nada que não seja possível ser paga. Não deve chegar no milhão”.

Na sua gestão a Ilha ganhou uma quadra nova e a capela. Conta para gente essas duas iniciativas?

ney01Ney Filardi: “Fui eleito em 15 de abril de 2008. Consegui na época um corneteiro da Marinha e no dia 23 de abril fizemos uma alvorada às 06h. Fizemos uma feijoada totalmente gratuita. Com três pessoas eu prometi que teríamos nossa capela do Santo Guerreiro. Com relação à quadra eu procurei o prefeito Eduardo Paes, depois que nossa quadra foi interditada. Como folião ele entendeu nosso problema. Foi ele próprio quem anunciou que botaria a quadra abaixo e faria uma nova. Promessa cumprida. A União da Ilha deve muito ao Eduardo Paes. Onde ele estiver terá um eleitor, que sou eu”.

Sobre samba-enredo, você sempre se envolveu, contornou brigas e já foi muito criticado. É difícil comandar uma escola de samba na época das disputas? E como resolver isso?

Ney Filardi: “Eu já tive várias desavenças, perdi amizades, mas ouço a comunidade. Não colho opinião de quem tem interesses. Se uma chefe de ala tem algum participante na disputa eu não vou ouvir essa pessoa. Eu projeto aquele samba na avenida. É dessa forma que eu escolho o samba. Não aceito dinheiro, nem interferência de quem quer que seja”.

O desfile de 2014 foi quarto lugar, mas poderia até mais. Sonhou com o título?

Ney Filardi: “Cheguei a pensar em coisa melhor, mas confesso que o título não, pois tinham outras escolas a desfilar. Mas a escola toda cantava e chorava. De manhã as fotos dos jornais eram da comissão de frente. O sentimento ao final foi de uma alegria muito grande. Isso me levou a tirar um pouco o pé do freio. Mas em 2015 abusei e acabei gastando um pouquinho mais”.

Você considera o desfile de 2016 o mais decepcionante da sua gestão? Ficou frustado pela falta de apoio?

Ney Filardi: “Me arrependo de ter anunciado o enredo antes de ter a certeza do aporte financeiro. Se ele viesse o desfile seria outro. Mas por um lado fiquei feliz pois ninguém acreditava que os Jogos do Rio seriam um sucesso e eles acabaram sendo. Esse desfile se eu pudesse eu riscaria da minha história na escola”.

Quando você colocou o Ciça no comando ninguém acreditava nele por ter vindo de um desfile ruim na Grande Rio. E ele deu resposta positiva. E aí?

Ney Filardi: “A verdade é que o Ciça dispensa apresentações. Não pestanejei em trazer ele depois da saída do Thiago Diogo. Ele é agregador, ensaia o ano todo. Possui trânsito em todos os segmentos da escola”.

E o Ito, você lutou muito para ele não sair, apesar das grandes propostas. Acha que sem você será fácil segurar ele?

ney04Ney Filardi: “O Ito ama a Ilha. O presidente Djalma vai conseguir segurá-lo assim como eu consegui. As co-irmãs podem tirar o cavalinho da chuva. O Ito é nosso”.

E o Ney polêmico. É um personagem ou você fala mesmo tudo que sente doa a quem doer?

Ney Filardi: “Não é uma questão de gostar de falar. Eu me sinto mal em me calar. Quando advogado eu sempre critiquei as instituições quando eu achava que deveria. O tempo da mordaça já acabou faz muito tempo. Sempre que eu achar que devo eu vou me posicionar”.

Qual é o futuro das escolas de samba em termos de desfiles, ensaios de quadra, verbas?

Ney Filardi: “O esvaziamento das quadras justifica-se pela crise, pela violência, pela Lei Seca e no futuro precisa haver mudanças. Alguém pode comprar um camarote na avenida com esse preço que está aí? Mudanças são imprescindíveis. Os valores do carnaval estão fora do controle. Rever o contrato com a Globo, que é uma grande parceira, mas tentar construir um diálogo de maneira flexível. A vendagem de ingressos deveria seguir o que é feito nos grandes eventos, com um tempo maior para se comprar”.