Cara a cara com o carnavalesco Jack Vasconcelos: ‘A arte vem acima da competição’

Jack Vasconcelos é um dos artistas de maior personalidade do carnaval. Não se furta de emitir opiniões sobre quaisquer assuntos em suas redes sociais e em entrevistas. Ele recebeu a reportagem do CARNAVALESCO para a série ‘Cara a cara’. No bate-papo disse que os enredos estão críticos este ano, pois há uma política de rompimento com o poder público, que até 2017 não havia. Ressalta a importância da carreira acadêmica para a maturidade profissional, diz que o acidente envolvendo o Tuiuti ano passado jamais será esquecido e confidencia que a passagem no Império Serrano em 2007 foi uma de suas maiores decepções no carnaval.

Qual foi seu desfile mais importante e o motivo?

tuiuti09Jack Vasconcelos: “Tenho desfiles que guardo com carinho. O Boi Mansinho que eu sempre quis fazer, desde a faculdade. O Hans que foi o meu retorno ao Tuiuti. Sabíamos que seria uma coisa escalonada, com uma melhora gradual um ano depois do outro. O título da Ilha em 2009, afinal, sou um dos únicos campeões da história da escola. Na verdade, são só dois”.

O que significa a União da Ilha na sua vida profissional e pessoal?

Jack Vasconcelos: “A Ilha foi a escola que eu mais fiquei junto com o Tuiuti. Entrei lá menino e saí profissional. Meu primeiro carnaval lá foi o meu segundo desfile profissional. Estava me formando como artista. A Ilha tem um papel fundamental em minha formação. A comunidade entrava de sola mesmo, pois ajudavam na reprodução do carnaval. Eu levei esse conceito até hoje”.

No Tuiuti, você vem desenvolvendo enredos muito culturais e agora um que gera reflexão. Podemos falar que você é um carnavalesco que acima da competição gosta de passar arte, cultura e conhecimento para quem assiste seus desfiles?

Jack Vasconcelos: “Para mim a arte vem acima da competição. Não que eu não queira alcançar alguns objetivos, mas a arte chama todo o restante. Ela é o carro-chefe. Não adianta uma proposta de carnaval que contemple apenas um julgamento ou algo sem vida. Dessa forma, eu não vou cativar e o artista tem essa função”.

Qual é a importância para o seu trabalho ter feito a Escola de Belas Artes?

Jack Vasconcelos: “Total. A EBA te dá o conceito acadêmico. Você só tem método para as coisas se tiver o acadêmico. Eu me tornei outra pessoa depois que passei por lá. O acesso à cultura te deixa eternamente inquieto e insatisfeito. Isso é fundamental”.

E o que você acha desse retomada de carnavalescos jovens que vem de Belas Artes e que estão crescendo no meio?

Jack Vasconcelos: “Na minha cabeça não é obrigatório vir especificamente da EBA, você pode vir de outra academia. Mas eu vejo como importante o raciocínio diferenciado que a visão acadêmica te dá. Eu preciso ter um olhar de distanciamento diferente do cara que é apaixonado, caso contrário eu não acrescentaria em nada”.

thor_jackVocê fez Império Serrano no ‘Ser diferente é normal’. Por que o desfile não aconteceu?

Jack Vasconcelos: “Basicamente por preconceito. O projeto já nasceu mau falado. O Império fez das tripas coração para colocar aquele carnaval na avenida. Lembro-me de uma jurada que disse que não entendia como os carros estavam tão perfeitos se o enredo falava sobre deficiência física. Ali foi uma lição muito dura que eu aprendi. Foi meu primeiro projeto no Especial e a resposta foi bastante difícil para mim, mas me orgulho muito até hoje”.

Qual carnavalesco você mais admira e o motivo?

Jack Vasconcelos: “Profissionalmente é a Rosa. Sou oriundo da Imperatriz, minha mãe era baiana e hoje desfila na velha guarda. Eu quis estar na EBA por causa da Rosa, mas, infelizmente, não consegui ser seu aluno. Ela sempre vai estar presente no meu estilo, na inquietação de fazer algo diferente. Mas no aspecto de referência pessoal preciso citar o Fernando Pinto, pois foi assistindo Tupinicópolis que eu passei a gostar de carnaval e de escola de samba”.

O que você sentiu quando soube do acidente em 2017 com o carro alegórico?

Jack Vasconcelos: “Eu soube na hora que estávamos no estúdio de vidro da TV Globo, ao término do desfile. Até chegar lá eu não sabia de nada. Para mim era um sentimento de felicidade até ali, pois o desfile foi bom. Eu acabei sabendo ao vivo. Você leva aquela bordoada e você vai respondendo qualquer coisa. Em um monitor aparecia a imagem e eu não conseguia acreditar naquilo. Ninguém espera uma coisa dessas. Ninguém está preparado para isso”.

E do cenário político do Rio e do Brasil. Acha que falta o carnaval voltar a ser mais crítico nas suas mensagens?

Jack Vasconcelos: “Eu acho que é positivo a gente poder se posicionar. Muito disso tem relação com a troca de governo. Hoje somos oposição e antes éramos parceiros do poder e não podíamos arranhar a relação. Enredo mais críticos não eram incentivados. Agora com uma guerra declarada tem essa abertura maior. Os dirigentes nos deixam livres, e temos mais é que fazer”.

O que você mudaria no regulamento na parte de enredo, fantasias e alegorias?

Jack Vasconcelos: “Não acredito no ponto perdido, mas no conquistado. Eu incentivaria os jurados a pensarem mais e não serem apenas detentores de uma caneta e um bloco para dar um ok. O carnaval é muito mais que um ok. Uma alegoria perfeitamente acabada não significa que ela é nota 10. E a concepção? E se eu fizer uma alegoria desconstruída de maneira proposital? O julgamento de uma forma geral está emburrecido. Há de se julgar o artístico.”