Cara a cara com Renato Lage: ‘A Mocidade foi o meu PHD’

Para muitos o mais revolucionário artista dos desfiles. Para outros uma figura controversa e polêmica. Mas ninguém fica indiferente quando Renato Lage fala sobre algo. Na série de entrevistas ‘Cara a cara’ do site CARNAVALESCO, conversamos com o artista que estreia na Grande Rio, depois de 15 anos como carnavalesco do Salgueiro. Renato explica o que motivou sua saída da vermelha e branca, responde ao críticos das super alegorias e dos desfiles como grande espetáculo e revela o carinho eterno pela Mocidade: ‘Foi o meu PHD’.

Qual foi o seu melhor desfile e o motivo?

renato_grande_rioRenato Lage: “Tem vários momentos bacanas. É claro que os campeonatos te marcam muito e alguns desfiles perdidos por alguma injustiça. Não tenho como não citar ‘Vira, Virou’ né? Ali foi o meu despontar entre os grandes. A Mocidade foi o meu PHD. Ganhei antes no Acesso com a Tijuca, mas o que marcou mesmo foi 1990. Eu não esperava e ganhamos com 10 em todos os quesitos. Foi o maior momento da minha carreira. Estreando em uma escola que tiveram dois grandes artistas anteriores a mim e consegui marcar época”.

A maior parte do público na faixa dos 30 anos torce para Mocidade e por sua causa. Você sente essa admiração do Independente? E o que representa a Mocidade na sua vida?

Renato Lage: “A Mocidade foi um estado de graça. Uma química impressionante entre eu e a escola. Meus trabalhos pegaram na veia. Eu fico muito lisonjeado com esse carinho dos independentes. Recentemente fui no aniversário do jornalista Fábio Fabato e na festa dele tinham três rapazes de uns 30 anos que me abordaram dizendo que foram integrantes da ala de crianças na minha época. Isso é uma coisa que me emociona muito”.

E o Salgueiro, Renato. 15 anos lá. Achou que ficaria para sempre?

Renato Lage: “O desgaste nas relações é natural. O mar de rosas não dura para sempre. É uma situação normal. Você acaba se acomodando na convivência. É como um casamento. O Salgueiro foi a escola onde tive minha primeira oportunidade. Minha primeira memória afetiva dos desfiles foi assistindo a escola. Eu tenho um respeito muito grande pela agremiação. Mas nada e nem ninguém são unânimes. Me sinto muito honrado de ter sido um participante do resgate do Salgueiro, a retomada dos carnavais competitivos. Hoje todo mundo aguarda a escola para disputar título”.

Qual foi o seu melhor desfile no Salgueiro?

Renato Lage: “Candaces e Rio no Cinema foram os mais marcantes. Acabamos não conquistando o campeonato por problemas que fugiram à minha alçada”.

Leandro diz que é seu fã, Alex de Souza também, Fabio Ricardo também. Qual sua análise do trabalho dessa turma jovem que está chegando no carnaval?

Renato Lage: “O Alex começou comigo, mas já tem uma longa estrada. Falta para ele um título, aquele que marca. O Leandro não é uma revelação há muito tempo. Ele fazia carnaval, apenas não assinava. É um artista com um trabalho limpo, bem cuidado, desenha. Eu venho da época que o carnavalesco desenhava e executava. Se não for dessa forma fica pasteurizado. Leandro é inteligente e sabe o que quer. Me sinto responsável pela mudança que teve a vida dele. O aconselhei a botar a cara, começar a fazer. Foi quando ele pegou a Caprichosos e todos viram do que ele era capaz. O início do Leandro se assemelha muito ao meu”.

É possível carnavalizar qualquer ideia e virar enredo?

Renato Lage: “Depende. Eu acho que de acordo com as circunstâncias e das condições qualquer ideia pode ser carnavalizada. O carnavalesco é como aqueles repentistas do Nordeste, que vão criando os versos no improviso de acordo com o que veem. Um tema vazio pode se transformar em um enredo interessante. O artista tem a função de criar, de ver o que é carnaval dentro daquilo. É claro que temos situações em que fica mais difícil. No enredo do Salgueiro em 2013, sobre a fama, houve a rejeição de um grupo ali dentro da escola. Um pessoal que achava que falava em nome da agremiação inteira. Houve o patrocínio de uma revista, que todo mundo sabe. Criamos o link da busca pelo estrelato, que é algo que já vinha lá de trás. Aí você vai construindo a história através deste fio condutor. Os xiitas deram muita porrada”.

Muita gente vem pedindo menos alegorias e diminuição do volume. Você é um cara conhecido como o mestre dos carros. O que sente quando falam que o carnaval tem que voltar ao passado e valorizar mais o samba e bateria?

Renato Lage: “Isso não tem nada a ver. Queiram ou não o carnaval virou um espetáculo. É um evento grandioso. Eu quero ver se esse pessoal que diminui as alegorias vai lá assistir o desfile na Intendente Magalhães, pois lá existe tudo isso que eles pedem. Valorização das comunidades, uma alegoria apenas, bem pequena. Mas eu quero ver qual deles vai para lá. São demagogos”.

Uma escolha: ter o carro alegórico com leitura do enredo ou com beleza artística. O que você escolhe?

Renato Lage: “Meu trabalho é mais voltado para o aspecto da leitura. Eu não gosto do belo pelo belo. Coisas bonitas que não dizem nada eu não vou fazer. Tanto em fantasia como alegoria a mensagem tem que ser clara”.