Carlinhos de Jesus aposta em comissão de frente sem bailarino profissional e com angolano na equipe

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A União da Ilha é uma das escolas que mais modificou seu time pós-carnaval 2016. Junto aos novos contratados está Carlinhos de Jesus. Um dos mais conceituados do carnaval, coleciona quatro títulos, mais de 10 comissões diferentes e muito respeito por onde passa. Em meio aos ensaios frequentes para levar uma excelente comissão para o desfile da Ilha, o coreógrafo recebeu nossa equipe e confidenciou como está se sentindo de casa nova, e assinando pela primeira vez uma comissão de frente na comunidade insulana.

carlinhos2– Estou em casa, me sinto muito a vontade. Pela forma que fui recebido, desde o convite a entrada na escola. É um carinho da comunidade que veio de forma muito familiar. Sabe quando um filho retorna pra casa? Então, eu já fiz ilha, tanto desfilando quanto fazendo comissão, não assumi porque estava na Mangueira e não podia meter a cara diretamente, mas meu assistente conduziu. Já morei na Ilha, minhas irmãs moram, então meio que estou em casa de verdade. Não só por isso, mas principalmente pela forma que a diretoria me recebe e me trata. São muito gentis e respeitosos, há uma relação muito legal, do respeito. O Severo, Wilsinho, todos do barracão, presidente, o Djalma. Estou muito feliz também por poder ter tido a liberdade de trazer sugestões e ideias, isso é muito bom para a criação – disse o coreógrafo.

Carlinhos confessa que seu processo criativo vem nas horas mais inevitáveis, e assim como fez no “Parto de um Obá” em 2000, irá levar uma comissão sem mirabolância, mas muito impactante.

carlinhos3– As comissões não são imposições minhas, quando leio o tema começo a pirar, sou um artista sonhador. Sonho, visualizo as coisas, vejo você na rua e imagino o que pode acontecer, as ideias surgem aleatoriamente. Em “O parto de um Obá”, estava chegando 4h da manhã de um ensaio, e como minha mulher é obstetra pediu para que eu a levasse ao hospital. Fiquei esperando no estacionamento e não consegui dormir, pensei no parto o tempo todo e me veio a mente o nascimento do Obá na avenida. É uma mente que fica em ebulição, penso o tempo todo. Aqui na Ilha trouxe a proposta e prontamente o carnavalesco aceitou. Não trouxe nenhuma mirabolância, foi tudo de acordo com o que o Severo estava imaginando, segui exatamente a sinopse. A ideia dele, a característica da escola e criamos uma brincadeira lá na frente. É uma comissão simples, não vem com nada que tape a visão do casal, nós nos apresentamos e após a apresentação reverenciamos o casal esperando eles terminarem e saímos juntos. Não há relação coreográfica, mas vamos em conjunto. Vem bem limpa, pé no chão, com muita dança e empatia.

O carnaval de 2017 será para o coreógrafo marcante, pois serão dois fatos inéditos: assinar pela primeira vez uma comissão na Ilha e não possuir nenhum bailarino profissional entre os componentes.

– A comissão tem 17 pessoas, 15 atuantes e 2 para qualquer emergência e se precisar haver substituição. Sempre trabalhei com pessoas que já trabalham comigo desde a primeira comissão na Tijuca, hoje muitos não dançam, mas estão na minha equipe de ensaio, de limpeza e etc. Não conduzo, venho na comissão de frente, mas deixo alguém focado na quilo. Tenho todo um staff que atua em função da comissão. Pela primeira vez, estou com caras que não conheço, tendo a oportunidade de lidar com pessoas novas. Tem gente que nunca desfilou e nem dança, mas eu queria negros e o biotipo deles me atraiu. Eu não precisava só de dança, para fazer a execução do segredo eu precisava de alguém de pulso forte, então teria que ser alguém que não era bailarino. Tem um que não dança nada, mas me atende perfeitamente no que preciso, então adaptei a coreografia de forma que ele acompanhasse o movimento. Meu trabalho é muito cênico, centralizado e coreográfico, com sangue no olho. Você pode não dançar absolutamente nada, mas eu falo com eles como lido com todos: olho no olho. Ele pode ser o Baryshnikov da vida, pode ser o maior bailarino do mundo, mas se eu não ver o sangue no olho está fora. Porque é muita entrega, a nossa execução é de alto risco, não apertamos botão pra nada mecanizado. É tudo no braço, na força, na cabeça do bailarino.

Um dos detalhes diferentes na comissão é a presença de um dançarino angolano. Segundo Carlinhos, a presença dele é essencial, tendo em vista que o enredo da Ilha possui cunho africano.

carlinhos1– Acredito muito na espiritualidade, numa vida superior a nossa, num comando, num cara que nos entrega o caminho e nós decidimos como será trilhado, mas meu começo ao fim já está traçado. Sinto uns arrepios, quando eu durmo tem um bloquinho na cabeceira, no carro, na minha mala, por onde vou carrego. De repente pego aquilo e escrevo, no final cato tudo e passo a limpo. Apesar de estar tudo tranquilo na comissão, fico várias noites sem dormir como se fosse a primeira vez. Quando fui fazer a audição, a primeira foi num domingo de chuva e só apareceu uma pessoa. Pensei: ‘estou ferrado’, que prestígio é esse que eu tenho, que faço audição e não vem ninguém. Mas era antes do Natal e marquei outra pra depois. Precisava de pessoas com de terminada altura, bem negros. De repente olho para um cara que me chamou atenção, fui conversar com ele e perguntei de onde era, ao me responder falou com sotaque que era angolano. Eu disse prontamente: ‘está aprovado!’ Ele é um puta dançarino, nós fazemos uma brincadeira que ele é o Carlinhos de Jesus de Angola, porque dizem que ele quando anda nas ruas de lá todo mundo quer tirar foto, é conhecido. Me trouxe a possibilidade que eu já queria fazer coreograficamente, não Orixá e nem Inkice, não queria dançar Ogum, Xangô e etc, mas eu tinha que ter elementos coreográficos que retratassem Inkices tratados no enredo. Então, fiz alguma movimentação, mas queria passar por semba, samba e kuduro. Não vou dizer que kuduro é de Angola, nós falamos da África especificamente do povo bantu de Angola, da etnia bantu angolana, queria ter uma licença poética porque efetivamente o kuduro é uma das maiores representatividades da dança quando falamos em dança africana contemporânea e moderna. Temos uma série de movimentos, se você me perguntar o que é a comissão de frente vou dizer que é uma grande louvação. Um grande culto ao senhor Kitembo. Com um angolano, que veio para abençoar.

Confiante numa Ilha de volta nas campeãs, o coreógrafo finaliza dizendo que a comunidade pode aguardar um carnaval bonito e de extrema qualidade.

– Confio plenamente no objetivo de voltar para o desfile das campeãs. Quando você olha o barracão e vê desde a comissão de frente, até a última ala você percebe qualidade do trabalho que a escola está desenvolvendo. Nós viemos para somar um time já existente. Igual a um time de futebol, sou mais um jogador nesse grande time. Você não chega ao topo de uma escada sem pisar no primeiro de grau. Então, todos são importantes. Vim para somar e acredito sim. Porém, assim como a Ilha, tem outras escolas que estão com mesmo empenho e com equipe de qualidade, com mesmo sangue no olho. Então, é ponto a ponto a ser disputado. – finalizou.

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