Carlinhos do Salgueiro enfrenta preconceito, vence desafios, conquista respeito e diz: ‘Gay também sabe sambar’

salgueiro_final2017_0710-193Lá vem ele, esbanjando simpatia e alegria, mas sem deixar de fazer seu ‘carão’, sua marca registrada. Carismático, o coordenador e coreógrafo da Academia do Samba, Carlos Borges, mais conhecido como Carlinhos do Salgueiro, se entrega de corpo e alma ao trabalho, tem um enorme amor pela família e amigos, mas, confessa possuir um gênio difícil de lidar. De coração grande, é verdadeiro, fala o que pensa, e sua vida é baseada na arte da dança e do carnaval. Em entrevista ao site CARNAVALESCO, ele abriu o coração, falou da infância, das dificuldades encontradas pelo caminho, e
finalmente do reconhecimento de seu trabalho e muito mais.

Carlinhos sempre gostou de dançar, e desde criança vivia, ou pelo menos tentava, no mundo da dança. Iniciou sua carreira bem cedo, com 13 anos, dançando quadrilha em um grupo no bairro do Andaraí, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde nasceu e se criou.

– Eu comecei bem cedo, tinha 13 anos, e a única coisa que minha mãe me deixava dançar era quadrilha, festa junina. Um dia o marcador do grupo saiu e eu vi ali a oportunidade de ficar no lugar dele, consegui. Foi minha primeira experiência como professor.

Determinado, Carlinhos acreditava que aquilo ainda era muito pouco para ele e foi em busca de maior compreensão sobre o mundo da dança. Ainda com 15 anos, ele buscou estudar sobre o que mais gostava de fazer, e foi assim que chegou ao Acadêmicos do Salgueiro.

– Minha mãe tinha muito preconceito com a dança, não me deixava participar de nada, mas aí meu irmão se inscreveu para participar do concurso de samba da Aprendizes do Salgueiro, junto com Leonardo Bessa, e o pessoal todo da antiga. Aí, ela me deixou entrar para a escola mirim e desfilar em uma ala que representava os times do Brasil. Isso foi em 1990, bem no começo da Aprendizes, e ali comecei, acabei sugerindo uma coreografia para a ala e foi um sucesso. Fiquei três anos na Aprendizes, depois saí, fui estudar, trabalhar, e depois voltei em 95.

Naturalmente ligado a arte da dança e da interpretação, Carlinhos entrou para um grupo de teatro na própria comunidade do Andaraí, o “Cia Étnica”, esse curso o levou até a” Cia Nós da Dança”, onde se formou.

– Nessa época, eu era muito gordo, trabalhava na Coca-Cola, era ajudante de caminhão, mas era a única oportunidade que eu tinha de estudar e trabalhar com o que eu gostava. Pedi demissão e usei o dinheiro para custear todas as despesas com o curso na Cia Nós da Dança. Fiz o curso profissional, e na minha primeira apresentação fui chamado para dançar Dança Afro, com o Charles Nelson. Foi onde me encontrei. Encontrei uma dança adequada ao meu corpo, porque sempre tive essa bunda muito grande, além de ter visto que com a idade que estava, na época com 21 anos, eu não seria um bailarino, poderia ser no máximo um dançarino, e aí investi na dança afro e no jazz – conta Carlinhos.

A partir daí, o destino coloca mais uma vez em seu caminho a vermelha e branca. Um amigo convida Carlinhos para participar da disputa de samba na quadra do Salgueiro, e ele mais uma vez mostra seu talento.

carlinhos2– Eu cheguei na quadra e falei assim: gente, eu sei sambar que nem esses caras aí! Na época a tia Glorinha, me empurrou pro meio e eu comecei a sambar, depois participei de um concurso e passei. A minha carreira de passista foi muito curta, muita gente acha que eu tenho anos como passista, mas na verdade eu só tenho 6 anos. Tudo foi muito rápido pra mim, porque quando eu voltei para o Salgueiro, em 95, fui convidado para ser coreógrafo da Aprendizes, cargo que ocupo até hoje e até passo mal se não estiver lá com as crianças. Só que, quando voltei, já estava com outra bagagem e comecei a questionar do porque que eu tinha que fazer aquele samba malandreado, se eu sou uma pessoa bem resolvida sexualmente, sou uma pessoa que, na minha dança, mostro minha personalidade. Então porque tenho que usar chapéu panamá e dançar curvado feito malandro. Decidi que eu queria usar meu braço, meu corpo, a expressão que aprendi no teatro e comecei a misturar a dança afro com o samba.

Em meados de 2002/2003, devido aos trabalhos realizados fora da comunidade do Andaraí, Carlinhos é convidado para viajar para Moscou, e o coreógrafo revela ser esse convite o divisor de águas na sua carreira. Ele fala ainda das críticas que recebeu no início dessa nova jornada.

– Essa ida para Moscou foi o divisor de águas na minha carreira, sem dúvida. Eu ainda era passista aqui no Rio, e tive a oportunidade de ir para lá como coreógrafo. Cheguei lá e foi um sucesso, coreografei durante 6 meses um show chamado “Regiões”. Quando voltei em 2004, já voltei com outra cabeça, foi quando me fizeram a proposta de ser coreógrafo. E aí questionei se não poderia fazer o show que eu havia levado para o exterior aqui no Salgueiro. Se fiz sucesso com uma coreografia de dança afro em Moscou, na terra do ballet, porque não poderia infiltrar o que eu sabia no samba. Isso martelou na minha cabeça, mas eu consegui fazer. Fui muito criticado, fui humilhado, era a bicha maluca, a harmonia foi toda contra, foi muito difícil, mas acreditava que um dia eu ainda ia mudar isso. Fui o primeiro, ninguém fazia isso em escola nenhuma, fui o pioneiro. E nesse percalço, uma pessoa que nunca vou esquecer na minha vida é Aldione Sena, até hoje a chamo de madrinha, porque ela falava: seja você, o dia que você for você, vai explodir! Eu coloquei isso na minha cabeça e fui estudar ainda mais, entendi que os sambas do Salgueiro tinham muitas coisas afros, e aí botei a cara, fiz.

Em 2005 o samba show estava dominado, Carlinhos já era diretor, e com o passar do tempo esse tipo de apresentação foi chegando a outras agremiações. Ele revela um pouco de mágoa pela falta de reconhecimento dos próprios colegas.

– Todas as escolas hoje fazem o que faço, mas eu nunca tive a oportunidade de falar, porque antigamente não existia essa coisa de internet. Os diretores foram levando isso para as escolas deles, não que não pudessem, pelo contrário, mas faltou o reconhecimento de que aquilo foi criado por mim, e isso me magoou. Fiquei muito triste porque não tive a oportunidade de expor isso. É muito difícil ser um gay e ter que ditar como as coisas vão ser. Um gay também pode sambar, também temos uma vida, somos diferentes, e eu fazia questão de expor isso.

Em 2008, fora do país, Carlinhos recebe uma ligação da presidente do Salgueiro Regina Celi. A escola levaria para a Avenida no ano seguinte o enredo “Tambor”, que Regina acreditava ser a cara de Carlinhos.

calrinhos1– A Regina me ligou dizendo que eu tinha que voltar, porque o enredo era a minha cara e eu precisava estar no Brasil. Quando cheguei ela disse que eu representaria um príncipe negro no desfile e que, além disso, iria coreografar a, hoje famosa, ala do maculelê. Mas eu achava aquela dancinha do maculelê, com aquele pau, muito chata, não era legal. Então fiz todas as danças que o enredo do tambor permitia, fiz o funk, samba, jazz e no fim juntei a capoeira com o maculelê. Consegui interpretar o samba e foi um sucesso. O sucesso foi tamanho que no dia do desfile oficial eu acabei desfilando na frente da ala.

De lá para cá a carreira de Carlinhos só cresceu, hoje ele é responsável pelos shows dos passistas na quadra do Salgueiro, coreografa as composições de alegorias, além da ala maculelê. Possuiu total liberdade para escolher os figurinos, e o mais importante, se sente feliz fazendo o que mais ama.

– Eu me sinto muito feliz fazendo o que amo, que é a dança, o samba. Ganhei inúmeros prêmios como passista, outros inúmeros como coreógrafo. Regina me proibiu de viajar (rs), mas eu também gosto de fazer meus trabalhos lá fora. Já viajei para 21 países representando o Salgueiro, já ganhei título de Imperador do Samba, e até Rei já fui em uma escola de samba em Londres. Aqui no Brasil foi muito difícil chegar aonde cheguei, fiquei muito tempo à sombra de artistas, dei aula para muitas famosas, treinei muitas rainhas, mas com o passar do tempo e do meu esforço, o reconhecimento também veio. Eu sou um astro do samba e assumi isso como propósito de vida. Ter a aceitação do público é muito bom – conta.

Enfim o respeito e reconhecimento chegaram. Hoje em dia, com seu projeto Samba no Pé, Carlinhos já formou mais de mil passistas, inclusive, fora do país e caminha para seu décimo ano no Salgueiro.

– Hoje, aonde chego sou respeitado, reconhecido. O carão e a personalidade forte viraram a minha marca, e uma defesa também. Carlinhos do Salgueiro acabou virando uma personagem, mas sem perder a minha essência, meu caráter. Virei padrinho de várias alas, vários grupos, já fui convidado para sair em outras escolas, e me sinto muito, muito feliz de todo mundo fazer o que faço, de todos terem seguido esse meu exemplo de pioneirismo. Hoje sou padrinho da ala de passistas do Tuiuti, Alex está fazendo um excelente trabalho por lá. É incrível isso pra mim – finaliza Carlinhos.