Carnaval Histórico 2014: Homenagem para poesia imperiana

 

 

Uma coroa estilizada decorava o palco, o verde predominava por todos os cantos, faixas brancas caiam do teto e cercavam, como véus, o espaço. Sorrisos, tensão, felicidade, emoção, tudo se misturava aos cabelos brancos que davam o tom do ambiente. Os jovens respeitosamente saudavam aqueles que traziam nas suas rugas, as marcas do tempo e um pedaço da história. Certamente, ali estava uma das maiores escolas de SAMBA do carnaval. Sim, samba com letras maiúsculas, como as obras imortais de seus poetas que se perpetuam pela eternidade. O “Carnaval Histórico”, promovido pelo jornal Extra, relembrou grandes desfiles do Império Serrano e fez reverência aos compositores que, através de sua genialidade, escreveram seus nomes na história definitiva do carnaval e da música popular brasileira.

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Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Beto Sem Braço, Arlindo Cruz, Aloísio Machado e Dona Ivone Lara foram os escolhidos para homenagear os grandes responsáveis por eternizar em nossa memória afetiva os desfiles que vemos nas Avenidas da vida. Quando se promove um evento como o que aconteceu, nesta terça, no Imperator (Centro Cultural João Nogueira), se faz uma grande homenagem a todos os compositores, esses bravos que lutam contra todas as dificuldades para levar sua poesia aos nossos ouvidos. Afinal, para ver sua obra embalar um desfile de escola de samba é preciso mais que superar a genialidade de seus adversários. Atualmente, é preciso derrotar a grande estrutura formada pelos “escritórios”. Verdadeiras fábricas de samba-enredo que investem pesado nas disputas e suplantam o sonho de jovens e antigos compositores menos abastados.

A noite começou quando o inspirado Quinzinho, antigo intérprete do Império Serrano, surgiu no palco do evento e Clóvis Pê, atual cantor da escola, apareceu no fundo do teatro. Lembrando clássicos como “Alô, alô, taí Carmem Miranda” (1972) e “A lenda das sereias, rainhas do mar” (1976) levaram o público ao êxtase. Enquanto uma senhora derramava lágrimas, talvez por lembrar os carnavais que passaram, o senhor dizia no pé e riscava o chão se acabando de sambar. A criança olhava fixamente para o palco e um jovem de voz grossa cantava com vigor os sambas que ecoavam no ambiente.

A primeira homenagem da noite foi para aquele que é considerado o maior poeta imperiano. Silas de Oliveira renasceu no imaginário popular recentemente, por causa da reedição de Aquarela Brasileira, que aconteceu em 2004. Porém, o compositor assina composições imortais como "Os Cinco Bailes da História do Rio" (1965), "Glória e Graça da Bahia" (1966), "Pernambuco, Leão do Norte" (1968), "Heróis da Liberdade" (1969), entre outros. Silas de Oliveira, o filho, foi ao palco receber a placa de homenagem e não conteve a emoção, misturada com o sorriso de satisfação pelo reconhecimento das obras compostas por seu pai, tão importantes dentro da história do carnaval.

Com ginga e sorriso em face, novamente o filho de um dos homenageados ganhou o palco para louvar o pai. Com o microfone em riste, como nos tempos em que defendeu as cores de sua escola de coração na Avenida, Jorginho do Império relembrou as músicas de Mano Décio da Viola. Com os olhos marejados, fez o público presente no vibrar com “Exaltação a Tiradentes” (1949). Mano Décio, que talvez tenha sido o maior parceiro de Silas de Oliveira, coloca o nome em sambas que foram campeões no desfile do Império Serrano. "Batalha Naval do Riachuelo" (1950), "Exaltação a Duque de Caxias" (1955) e "Medalhas e Brasões" (1960). O compositor ainda assina “Tocou Reunir” que se tornou um dos sambas de exaltação da Verde e Branco.

Com a missão de receber a placa em homenagem a Beto Sem Braço, um de seus maiores parceiros, Zeca Pagodinho proporcionou um dos grandes momentos da noite. Quando fazia os agradecimentos, o intrépido cantor identificou a irmã do poeta na platéia e, para delírio de quem assistia à festa, quebrou o protocolo e pediu para ela subir no palco. “Alguém da família do Beto tem que receber essa placa, eu só estou aqui pra cantar”, disse Zeca. Na guerra de vaidades do carnaval, esse tipo de atitude mostra que a humildade e o reconhecimento daqueles que fazem a festa é o maior legado que os verdadeiros ídolos podem deixar. Acompanhado do inseparável copo de cerveja, o maior nome do pagode atual transformou o evento em uma verdadeira roda de batucada e colocou todo mundo pra dançar ao interpretar alguns clássicos do homenageado como “Camarão que dorme a onda Leva”. Beto Sem Braço, entre outros, é um dos autores de jóias como “Bumbum Paticumbum Prugurundum” (1982) e “Mãe baiana mãe” (1983).

A “ovelha verde e branca” de uma família de portelenses. Foi assim que Arlindo Cruz se definiu, ao lembrar que todos os parentes torciam pela Portela. Porém, o amor pelo Império Serrano o pegou de jeito e aflorou, ainda mais, desde que venceu sua primeira disputa de samba-enredo na escola com “Axé Brasil – Jorge Amado” (1989). De lá pra cá, a carreira do sambista decolou e se consolidou como cantor e compositor de sambas de “meio de ano”. Arlindo não largou as disputas e emplacou alguns dos maiores sambas da história recente da escola da Serrinha como o hino à humildade “Verás que um filho teu não foge à luta” (1996), em homenagem ao sociólogo Herbert de Souza, “O Império do divino” (2006), sobre as crenças religiosas brasileiras, além da reverência a grande dama do samba, Ivone Lara, no desfile de 2012.

Sambando, com se estivesse em câmera lenta, Aluísio Machado ganhou o público e o palco, fazendo a apresentadora Ana Paula Araújo pedir umas dicas de como dançar daquela maneira e arrancar gargalhadas dos presentes. Brincadeiras à parte, o compositor é um dos maiores expoentes da ala de compositores do Império Serrano. São 12 sambas ao longo dos anos. Entre estes, se destacam “Bumbum Paticumbum Prugurundum” (1982), último título conquistado pela escola, “Eu quero” (1986), “Império Serrano, um ato de amor” (1993), “Verás que um filho teu não foge à luta” (1996) e “O Império do divino” (2006). Aluísio Machado é um dos maiores parceiros de Arlindo Cruz nas disputas. Os dois amigos de prosas e versos carregam uma curiosa coincidência em suas histórias pessoais. As esposas de ambos foram porta-bandeiras em outrora. Como se não fosse suficiente, toda a reverência prestada pela homenagem principal, Aloísio Machado ainda venceu a eleição para “Cidadão Samba” de 2014, uma eleição que é feita pela internet, e recebeu das mãos de Zé Katimba, “Cidadão Samba” do ano anterior, a faixa comemorativa.

A luz diminuiu, Arlindo e Aluísio conversavam na mesa de botequim colocada no centro do palco. Eis que um enorme frisson tomou conta de todos. No descortinar do pano de fundo, o tom esverdeado dos refletores iluminou o sorriso maroto da maior dama da história do samba. Era Ivone, dona Ivone! O público explodiu em aplausos e cantou com força o lá-rá-iá imortalizado em desfile na Sapucaí recentemente. Ivone Lara, pioneira e corajosa que sempre foi, não se fez de rogada, pegou o microfone e mandou ver junto com os amigos, Arlindo, Aluisio, o neto que a acompanhava no cavaquinho e todo o público presente. Foi um momento mágico, desses que só o carnaval sabe proporcionar. Quando Sérgio Cabral, o pai, lhe entregou a placa comemorativa, Ivone Lara repetiu em alto e bom som: “muito obrigada”. Agradecimento que vai ecoar na memória por muito tempo. Foi como se a grande dama do samba incorporasse a escola que tanto ama e agradecesse por receber aquela homenagem em vida. Não era Ivone, mas a própria escola de samba Império Serrano que se curvava no alto de um palco e saudava quem a aplaudia.

As luzes ganham força. De repente, a corda cerca o espaço. Como em um passe de mágica surge a comissão de frente saudando a multidão. Não tinha jeito. Mais uma vez o portal do tempo estava aberto e, ao contrário do que foi proposto, não trouxe antigos carnavais para os dias atuais, mas levou quem lá estava para o dia do desfile. O povo cantava junto com “Heróis da Liberdade” e quando os primeiros acordes de “Aquarela Brasileira” ecoaram, uma confusão interrompe o espetáculo. Chega à concentração, onde a bateria se preparava para o desfile, a notícia da morte de Ary Barroso, grande inspirador do tema daquele ano. Era 1964, um clima de profunda tristeza toma conta do coração de todos. O surdo Mór marca o minuto de silêncio, mas o samba é mais forte que as agruras da vida e um coro se forma para entoar o samba de Silas de Oliveira. A multidão vai junto e transforma a Avenida em um grande coro, fazendo o “lá-rá-iá” mais uma vez explodir por todos os cantos e, definitivamente, imortalizar Silas e Ary junto com suas “Aquarelas”. Essas mesmas aquarelas que pintaram nossos corações de verde naquele momento único que talvez possa ser recriado daqui uns cinquenta anos, quem sabe. Então, todos que lá estavam enfeitaram seus corações de confete e serpentina e abraçaram a coroa imperial num mundo de recordação. Afinal, é carnaval, é folia e neste dia ninguém chora.

A responsabilidade de encerrar o evento, como não poderia deixar de ser, após uma reunião de tantos bambas, foi de um dos homenageados. Coube a Arlindo Cruz a missão de colocar todo mundo pra sambar e mostrar que o futuro dos poetas imperianos, no que depender dele, está garantido por mais alguns anos. Afinal, como os seres humanos, o Império Serrano é fruto do “prazer”. Prazer de sambar. Prazer de amar. Prazer de compor. Prazer de cantar. “Prazer da Serrinha”. Prazer, Império Serrano. Onde as maiores jóias da coroa são os poetas que ela fez brilhar.

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