Carnavalescos brilham em homenagem da Cubango ao Bispo do Rosário

Por Thiago Barros

cubango_desfile_2018_47-2O desfile da Acadêmicos da Cubango em 2018 tem nome(s) e sobrenome(s): Gabriel Haddad e Leonardo Bora. A dupla de carnavalescos pintou e bordou na Sapucaí. Foi um desfile extremamente agradável visualmente, com soluções criativas em alegorias, fantasias, comissão de frente…

Mesmo com um enredo que não é de grande conhecimento público, “O Rei que bordou o mundo”, em homenagem a Arthur Bispo do Rosário, a dupla conseguiu fazer um desfile de fácil leitura, contando uma bela história. Eles certamente podem sonhar com um futuro de sucesso também na Sapucaí.

Além disso, o samba-enredo funcionou e a comunidade cantou demais. Houve falhas, sim, como problemas técnicos na comissão, o casal com o lado emocional um pouco “estranho” e buraco no final. Mas, no geral, foi uma apresentação bem positiva, que faz com que a Cubango possa sonhar com a parte de cima da tabela.

Enredo

cubango_desfile_2018_31-2“O Rei que bordou o mundo” foi o enredo da Cubango, assinado pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora. A análise começa justamente por esse quesito porque o que a dupla fez foi impressionante. Transformou um tema relativamente complicado, por tratar de um homenageado não muito famoso, em algo muito agradável na Sapucaí.

O desfile foi uma homenagem à vida e à obra de Arthur Bispo do Rosário. Considerado hoje um dos maiores nomes da Arte Contemporânea brasileira. A escola falou sobre toda a sua peregrinação, destacando os folguedos regionais e os símbolos usados em sua arte. Nada muito fácil na teoria, mas bem feito e simples de compreender na prática.

A Cubango foi para a Avenida dividida em quatro setores: “Ode Marítima”, “Peregrinação”, “Inventário” e “Chegança”. Tudo foi bem traduzido na parte visual e a história foi contada direitinho. E fica a dica de aprendizado para quem não conhecia Arthur Bispo do Rosário pesquisar sobre ele e suas grandes obras.

Alegorias e Adereços

cubango_desfile_2018_71-3Começando com “Das Narrenschiff – Nau dos Insensatos”, um grande veleiro inspirado em uma das peças mais famosas de Bispo do Rosário, o conjunto alegórico da Cubango foi um dos melhores que passaram na Sapucaí até agora. Ele tinha tons azuis, verdes e prata, com pessoas coreografadas nas laterais e na parte superior, um efeito bem legal.

“Revelação: da Riqueza do Mosteiro à Crueza do Manicômio” era a segunda alegoria, que sintetizava o final da peregrinação feita por Arthur Bispo do Rosário, na véspera do Natal de 1938. Todo dourado e com alguns estandartes na parte traseira, ele teve só um probleminha nesse detalhe, mas nada grave.

O terceiro carro-alegórico era “Cela-Forte, Tabuleiro de Xadrez “, que mostrava como a Cela-Forte em que Arthur vivia, no interior do manicômio, era um castelo medieval para ele. Inspirado em um tabuleiro de xadrez, era predominantemente preto e branco, mas misturava isso com elementos coloridos, causando um resultado bem interessante.

“Apresentação” era a última alegoria, retratando a origem quilombola de Arthur Bispo do Rosário. Com um grande bordado rodando na parte superior, revestimento meio “creme” com os coloridos dos bordados e, na sua parte traseira, a mensagem “Manicômio Nunca Mais”. Tudo muito bem feito, com acabamento perfeito e fácil leitura.

Fantasias

cubango_desfile_2018_38Seguindo a linha plástica agradável, as indumentárias da Cubango também tiveram uma avaliação positiva. Os carnavalescos usaram muitas cores, em referência clara à arte do homenageado. E, claro, teve muito verde e branco, da escola. Sem falar no dourado, que é o mais presente – uma tendência nesse Carnaval, aliás.

As baianas vieram bem coloridas, fantasiadas de Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, uma igreja no centro do Rio de Janeiro em que Arthur Bispo do Rosário professou a sua fé de raízes ancestrais. E foram muitas as igrejas que foram retratadas no desfile.

No primeiro setor, estavam: Santo Inácio e São Miguel Arcanjo (Ala 2), São José – Rua 1º de Março (Ala 5), Candelária (Ala 7), Mosteiro de São Bento (Ala 8), além do Outeiro da Glória (Ala 4) e Palácio do Catete (Ala 3). A maioria das fantasias era simples, porém de fácil leitura, bom acabamento e concepções agradáveis.

Uma fantasia que chamou a atenção foi a da Ala 14, Xeque-Mate. Era representando o xadrez, então poderia ser simplesmente algo preto e branco, como o tabuleiro. Mas não, foi feita uma abordagem criativa (assim como na terceira alegoria), usando o amarelo, o verde… Um resumo do trabalho de Gabriel e Leonardo: criativo e bem feito.

Comissão de Frente

cubango_desfile_2018_14Sergio Lobato coreografou a comissão de frente da escola, que contava com 13 homens e 2 mulheres. Eles eram os Senhores do Labirinto, com figurinos inspirados na “Capa de Exu” e na “Panela de carvão”, confeccionadas por Bispo, expressando seu sincretismo – com uma coreografia de dança e teatro bem interessante.

Eles tinham fantasias vermelhas e pretas que, em um dado momento, eram substituídas por capas de um tom mais “creme” e detalhes coloridos dos bordados. Enquanto isso, o protagonista, Sergio Lobato era aclamado pelos outros integrantes, que finalizavam sua coreografia formando uma “bandeira” com a bússola-mandala do Bispo do Rosário.

Foi uma das apresentações mais bacanas da noite na concepção, porém houve falhas em quase todos os módulos. No primeiro, uma das duplas que puxava partes dessa “Bandeira” se enrolou e acabou saindo bem depois dos outros – o que fez com que a arte não ficasse preenchida corretamente.

cubango_desfile_2018_19-12No segundo, um dos integrantes que carregava panelas “esqueceu” o acessório, e ele acabou “embolando” com os guardiões do casal, que iria se apresentar logo depois. O mesmo problema se repetiu no quarto módulo, porém foi resolvido mais rapidamente – antes dos guardiões.

O tecido da “bandeira” também ficou aparente em momentos em que isso não deveria acontecer. Na hora em que o Bispo ia embora, levando seu caixote. Isso aconteceu no terceiro e no quarto módulos. Uma pena, porque pode acabar tirando alguns décimos de um quesito onde a escola poderia ir muito bem.

Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Diogo Jesus e Thais Romi são o 1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira da Cubango. A dupla veio fantasiada de Romeu e Julieta, porém na releitura de Bispo do Rosário e Rosângela Maria, feita na Colônia Juliano Moreira. Fantasias muito bonitas, bem com o estilo do enredo, em tons claros e com detalhes muito coloridos.

cubango_desfile_2018_25Mas o bailado da dupla não pareceu 100%. Diogo fez bem sua parte, leve, com as suas expressões faciais intensas que já são conhecidas, passos bem executados e confiança para dar e vender. Só que Thais aparentava estar tensa durante todo o desfile. Desde a concentração, aliás, ela já tinha um ar de preocupação.

Pelo jeito que ela se apresentou, parecia algo com a fantasia. Em diversos momentos, a porta-bandeira colocava a mão na cintura, dava uma ajeitadinha em alguma coisa, mexia um pouquinho no talabarte… Por isso, desfilou com o sorriso um pouco forçado em uma série de movimentos.

Mas não foi um desfile ruim da dupla, nem de Thais. Ela bailou como deveria, na medida do possível. Os passos foram executados com total correção, sem erros como enrolar ou tocar a bandeira no mestre-sala. Tecnicamente, não houve falhas. Resta saber se a parte “emocional” vai fazer diferença no julgamento.

Harmonia

cubango_desfile_2018_53A comunidade da Cubango fez uma apresentação muito boa. Claro que foi ajudada pela boa condução do samba por parte de Evandro Malandro. O “Resgata, Cubango” acabou dando certo, mas não foi só isso. Os componentes cantaram bastante todo o samba, em um desfile digno da tradição do chão da Verde e Branco.

Não faltam exemplos de alas que merecem destaque positivo no quesito. O setor inicial todo foi muito bem. Ajudados pelas fantasias bem leves, as alas 3 (Palácio do Catete) e 4 (Outeiro da Glória) cantaram forte. E o ritmo continuou na Ala 9 (Sinaleiro), na Ala 15 (Marujos da Chegança) e na Ala 19 (Rei Mouro).

Vale ressaltar o trabalho dos diretores de harmonia entre as alas. Todos cantando muito também, além de orientarem bem seus componentes. Outro ponto positivo do canto da escola foram as composições de carros alegóricos. Especialmente na primeira e também na terceira alegoria.

Evolução

cubango_desfile_2018_66Buracos no último módulo de julgadores podem fazer com que a Cubango perca alguns décimos – que podem ser descartados, claro. O que houve foi que a Ala 8, Mosteiro de São Bento, seguiu evoluindo normalmente, mas o segundo carro não acompanhou. Ele parecia ter um pouco de dificuldade de locomoção e isso gerou o buraco.

Fora isso, a escola foi perfeita. Alas organizadinhas, componentes evoluindo bem, ritmo bom de desfile, sem correria ou muito tempo de desfilantes parados no mesmo lugar. O chão da Cubango, realmente, merece todos os elogios. Belo trabalho dos diretores Allan Guimarães e Daniel Katar.

Samba-Enredo

Três refrões, um verso muito forte e com uma narrativa em primeira pessoa. Com essas características, o samba-enredo assinado por Gabriel Martins, Bello, Wagner Big, Junior Fionda, Marcio André Filho, Jairo e Gigi da Estiva e interpretado por Evandro Mallandro rendeu muito bem.

A história do homenageado foi bem contada pelos versos, a melodia era bem gostosa e, com a força da comunidade e o bom desempenho do carro de som, a obra foi uma das boas surpresas da Série A no quesito. Destaque para o primeiro refrão, que foi cantado com muito vigor.

cubango_desfile_2018_43Nas cabeças

A Acadêmicos do Cubango é mais uma representante de Niterói na Série A e que vem tendo boas apresentações há algum tempo. Nessa década, a escola chegou em quarto lugar três vezes na Série A (2011, 2012 e 2015). No ano passado, com “Versando Nogueira nos cem anos do ritmo que é nó na madeira”, a escola ficou em oitavo.

Nesse ano, até agora, a Cubango pode sonhar com, pelo menos, um top 5. Foi uma boa apresentação. Teve erros, sim, mas até agora, quem não teve? Vamos aguardar o que os julgadores irão avaliar. Entretanto, a impressão foi bastante positiva ao final do desfile da Cubango em 2018.