Carnavalescos fazem mea culpa e condenam classe artística calada sobre o tema crise no carnaval

O primeiro painel acadêmico da 4ª edição da feira Carnavália-Sambacon, comandada por Milton Cunha, propôs discutir a relação entre a academia e o carnaval, mas foi além disso. Os convidados não se eximiram em falar sobre a “crise no carnaval” e o corte de verbas, bem como a postura do prefeito Marcelo Crivella de informar o corte dos investimentos sem uma conversa prévia com as agremiações. Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira, puxou para o seu segmento uma fatia da culpa pelo carnaval ter alcançado um status de show e perdido um pouco da essência cultural.

img_20170714_152606795_hdr– Todos nós temos um pouco de culpa nisso, os carnavalescos, os dirigentes… Todos nós. Precisamos repensar a presença maciça do dinheiro, repensar até que ponto a TV tem que mandar no desfile, até que ponto vale a pena vender camarote para meia dúzia de turistas que às 2h já está cheio de cachaça e vai embora, até que ponto vale vender um super camarote pro cara colocar uma rave ou música sertaneja nas alturas? – questionou o carnavalesco que em 2018 levará para a Avenida um enredo que faz uma provocação a polêmica de corte de verbas e a postura do prefeito Marcelo Crivella.

A mesa foi comandada por Milton Cunha e mediada pela professora universitária Samile Cunha, e contou com a participação dos professores Fred Góes, Felipe Ferreira, Madson Oliveira e pelos carnavalescos Jorge Silveira e Leandro Vieira. Ainda durante o debate, Leandro brincou ao dizer que o atual prefeito pode entrar para a história ao promover um amplo debate sobre carnaval.

– Quem sabe o prefeito Marcelo Crivella entre pra história como o evangélico que mais ajudou o carnaval. Ele fez o carnaval olhar pra si, se repensar, discutir, transformar, o povo abraçar e quem sabe fazer um desfile maravilhoso com a graça de Deus. Ele é um homem inteligente, mas deixou de falar muita coisa pra população, fez o samba ficar em evidência, porque com essa polêmica o carnaval tem sido manchete dos grandes jornais e aparecido na TV numa época em que normalmente não apareceria – pontuou o carnavalesco.

Jorge Silveira, carnavalesco da São Clemente, que em 2018 levará para a Avenida a Escola Nacional de Belas Artes, contou como nasceu seu amor pela instituição e como chegou ao enredo. Ele também fez um mea culpa sobre a situação atual do carnaval e frisou a importância dos profissionais envolvidos no carnaval em se posicionarem.

milton_jorge_leandro– Os nossos colegas e pessoas da classe do carnaval não estão se posicionando sobre o assunto, isso é triste, é leviano. Precisamos nos posicionar e dizer que não estamos satisfeitos com o que está acontecendo. Não pode haver silêncio, não podemos nos calar. Não podemos deixar a nossa cultura morrer. Precisamos ocupar os espaços, sermos firmes, lutar – pediu o carnavalesco.

A relação de Jorge Silveira com a Escola de Belas Artes começou na época em que estudava licenciatura, ele se apaixonou pela história da instituição e a transformou em enredo numa plataforma de carnaval virtual, mas sonhava em um dia colocá-la na Avenida.

– Esse é o tema da minha vida, apesar de tudo que o que já fiz antes e o que ainda irei fazer. Quando o presidente Renatinho me convidou já tinha essa ideia e eu fiquei muito feliz. Acho que isso é uma missão artística – disse Silveira que pretende levar para a Avenida não apenas a história da EBA, como a instituição é carinhosamente conhecida. Ele pretende ir além e mostrar a relação dos artistas da França que chegaram ao Rio para fazer parte da escola e o legadoque deixaram a partir dessa relação de amor com o Rio.

Academia e carnaval sempre andaram juntas

Durante sua explanação, o professor Fred Góes pontuou que além da Feira Literária de Paraty (Flip) e Bienal do Livro, o carnaval é o momento em que mais se consegue levar cultura para grande parte da população.

– Nossa cultura é disseminada nesse momento de forma singular, principalmente porque o desfile é televisionado. Isso começou ainda no final do século XIV, início do século XX com Coelho Neto, um admirador dos Ranchos, que entendia que este era o melhor meio de espalhar a cultura para a população – pontuou.

Felipe Ferreira repetiu o que faz em suas aulas na faculdade, contou sua história para incentivar aqueles que de alguma forma amam o carnaval, mas que por algum motivo deixaram esse amor de lado para fazer outros tipos de atividades. Ele chegou a estudar medicina, mas viu que não era bem o que queria e teve a ousadia de mudar totalmente de área.

– Decidi fazer Belas Artes porque lá tinha uns caras que eu gosto muito, como o Pamplona. Na faculdade tive uma matéria chamada indumentária 5, que falava de carnaval. Saí da faculdade muito feliz. Tão feliz que decidi continuar no assunto. Fiz o mestrado em carnaval, analisando o projeto da Rosa Magalhães na Imperatriz, que acabou virando livro – disse o Felipe Ferreira, que fez ainda mestrado e doutorado sempre voltado ao tema do carnaval e hoje orienta trabalhos de faculdade ligados ao assunto.