Carnavalescos relegam o luxo e exaltam o conceito da fantasia

Na última mesa do ‘I Seminário Pensando o Carnaval’ dois dos principais carnavalescos do Grupo de Acesso A debateram e levantaram sugestões sobre o quesito Fantasia, o único, dos dez presentes no regulamento do carnaval carioca atualmente, que ainda não havia sido discutido. Wagner Gonçalves, da Inocentes de Belford Roxo, e Severo Luzardo, do Império da Tijuca, pediram mais critérios aos julgadores, além de pessoas relacionadas ao samba e com conteúdo artístico para julgar o quesito. A mesa foi mediada pelo jornalista Fabio Fabato, colunista do site Galeria do Samba, e teve também a participação do colunista do site CARNAVALESCO, Luis Carlos Magalhães.

No início do encontro, foi pedido para que os convidados pudessem definir o quesito fantasia em suas respectivas opiniões. A dupla acabou tendo visões bem parecidas, relegando o luxo e exaltando o conceito da fantasia proposta.

– Na minha visão a fantasia deve, principalmente, contar o enredo. Depois pode se pensar em outras questões. De uma maneira geral até acho que os julgadores têm sabido julgar o quesito fantasia, mas é importante lembrarmos que o luxo não é algo obrigatório. Nós é que acabamos definindo o luxo como algo necessário. Eu valorizo a cor, tento fazer um desfile agradável de se assistir, uma coisa clara. O interessante é fazer com que materiais não tão luxuosos dêem resultado na Avenida. Aceito que se troque o tecido, jamais a cor – disse Severo Luzardo, que revelou estar com a fantasia da bateria do Império da Tijuca do Carnaval 2012 perto de ser terminada.

Já Wagner, que no carnaval deste ano assinou, ao lado de Mauro Quintaes, o desfile terceiro colocado da Estação Primeira de Mangueira, está de volta à agremiação da Baixada Fluminense, por onde já havia passado. Ele, assim como Severo, assumiu ser extremamente centralizador com seus trabalhos e definiu o quesito fantasia.

– Acho que o que deve ser beneficiado na hora do julgamento é o conceito da fantasia. A criatividade do artista na hora de usar certos materiais, que não são tão caros, mas que dão resultado na Sapucaí. Acho até que os julgadores estão atentos a esse processo, mas tenho o meu próprio parâmetro de julgamento. Depois do carnaval eu tiro férias. Três meses depois eu vou ver o vídeo do desfile e analisar se as minhas propostas deram certo – concluiu o carnavalesco da Inocentes, que confidenciou algumas discussões de trabalho que teve com Ivo Meireles. Apesar disso, Wagner referiu-se ao dirigente de forma extremamente carinhosa e classificou-o como uma pessoa inteligente.

Com relação às justificativas, a dupla pediu respeito licença poética dos carnavalescos. Na visão deles, o julgamento das fantasias das agremiações não pode virar uma questão de gosto. Diante do cenário, Wagner Gonçalves respondeu o que as atuais justificativas representam para ele.

– Não dou a menor importância para elas. É tudo muito subjetivo. Uma vez um presidente me disse para esquecer os jurados. Não mexer com eles. O verdadeiro reconhecimento do nosso trabalho não vem do julgamento. O reconhecimento vem quando, por exemplo, o Fábio Ricardo saiu de um décimo lugar com a Rocinha e é contratado pela São Clemente. Quando o Severo, com o desfile que fez, fica em sétimo e recebe o reconhecimento da imprensa, de seu presidente e de sua comunidade. Eu dou importância sim, se pessoas como Rosa Magalhães e Felipe Ferreira me derem alguns toques. Não acho que exista uma justificativa ideal. Na hora do desfile existe o elemento emoção, que influencia diretamente nos julgadores, mas que há uma pobreza intelectual no julgamento é verdade.

Na visão de Severo Luzardo, a capacidade dos julgadores é um ponto a ser debatido.

– Se eu for falar o que penso eu sou até demitido. Meu presidente já pediu para eu baixar a bola nas reclamações (risos). Não me cabe procurar nem saber o porquê de eu ficado em sétimo com um desfile elogiado por todos. Quando fiquei sabendo as pessoas que iriam julgar me preocupei bastante. O mais intrigante é que os julgadores são, em sua maioria, pessoas que ninguém sabe o currículo e que relação tem com o carnaval. Eu quero saber qual é a formação de quem vai me julgar e qual o comprometimento com as escolas de samba. Não quero ser julgado pelo rapaz musculoso de academia. Quero alguém que entenda, com conteúdo.

Opinião quase unânime em todos os dias do seminário, as notas dez justificadas não ganharam a simpatia da dupla de carnavalescos, mas Severo pediu que o atual critério de que as escolas já entram na Avenida com a nota dez e, vão perdendo décimos de acordo com os erros cometidos, seja revisto. Ele alegou que, desta forma, os jurados deixam de julgar e tornam-se meros fiscais do desfile.

Terminado o seminário, que aconteceu ao longo desta semana, na Facha, em Botafogo, a organização do evento irá preparar um documento com as idéias e reivindicações dos profissionais do carnaval, pessoas que verdadeiramente fazem o espetáculo, e encaminhar para a Liesa, a Lesga, a Aescrj, e também à Riotur.